Album Review: “Glory” nos traz a maior Britney Spears que você respeita

Britney Spears, “Glory” (2016)

Sem pensar duas vezes, esse é o seu melhor trabalho desde “Circus” e, enfim, soa como o retorno que tanto queríamos ouvir.




Todo disco novo de Britney Spears é a mesma história: ela finalmente está voltando e em sua melhor forma. A impressão deixada é de que a credibilidade dela é tanta, que os fãs e público simplesmente não deixam de confiar no seu potencial, mas são então decepcionados por um amontoado de hits em potencial armados por grandes produtores do momento e, shiii, fica pra próxima. E é bem assim, mesmo.


Embora muitos fãs possam discordar disso, o único álbum que eu acredito fugir dessa regra foi o “Britney Jean” (2013), que não é lá de seus melhores discos e peca em ficar tão preso ao líder do Black Eyed Peas, will.i.am, mas é um bom material e entrega o que tanto gostariam: uma Britney fora da sua zona de conforto.

O problema do “Britney Jean”, além dos baixos números, que também influenciaram a reação do público, é deixar Britney TÃO distante da sua área, ao ponto de sequer soar como ela em alguns momentos, e por mais que hajam músicas fodas, como “Alien”, “Body Ache” e “Don’t Cry”, se perde nas lembranças dos que torceram o nariz para “Work Bitch” e “Perfume”, os únicos singles do CD.

Corta pra 2016. Britney Spears anuncia seu grande retorno com uma performance no Billboard Music Awards e, sem tempo a perder, protagoniza mil e uma declarações sobre uma nova fase. “Ela tá bem inspirada no The Weeknd”, eles disseram. “Será algo divertido, sexy, diferente de tudo o que ela já fez”, fala outro fulano. E o disco “Glory” chega até nós.

Um fato importante sobre “Glory”, é que will.i.am, que comandou as produções do “Britney Jean”, sequer sabia da existência do álbum até que ele se tornou notícia. Outro é que, por mais que conte com muitos colaboradores, esse é o disco em que Britney parece ter assumido o controle do que faria e como isso soaria, apostando, inclusive, em novos produtores do momento para reinventar o seu próprio som. E já aproveita pra guardar essa conversa sobre “reinvenção”, essa é a palavra.

A primeira faixa de “Glory”, funciona, na verdade, como uma introdução. “Invitation” é contida, mas já entrega o primeiro feito do disco: Britney Spears está explorando seus vocais como nunca antes. Seu arranjo mescla samples e sintetizadores com uma coisa meio trap, sexy pra caralho, numa linha que vai da Ellie Goulding ao disco “Revival”, da Selena Gomez. Te deixa animado para continuar.



Um erro de Britney nesta nova fase foi a escolha para parcerias e, depois de Iggy Azalea na agora esquecida “Pretty Girls”, ela apareceu com o tal do G-Eazy em “Make Me”. Não tenho nada contra o rapper branco, até tenho amigos que ouvem, mas sejamos sinceros, como essa música soaria sem ele? Exatamente da mesma forma. O importante é que sua participação é tão “não fede, nem cheira”, que também não atrapalha a música. Um R&B pop chicletão, que soa como aquela semi-nude que você envia para seduzir o crush, sem se mostrar por completo.

“Private Show” já traz uma Britney mais safadinha. Ela tá no comando do seu show fechado, numa alusão à residência em Las Vegas, e brinca mais uma vez com os seus vocais, enquanto propõe uma apresentação só para o cara que, neste momento, já deve estar babando pra ela. A música flerta com uma coisa levada para o hip-hop, até por seus momentos mais falados, mas tem como destaque o puxado “I put on a privaaaaate show”. É boa, mas soa um podia ser menor.

O começo de “Man On The Moon” faz uma viagem, dando a impressão de que abre um novo momento no disco. Quando chega o seu arranjo, somos levados direto para a Britney dos anos 90, que revive também em seus vocais, agora mais limpos e menos esforçados que na faixa anterior. No pop romântico, ela consegue se desenvolver entre os sintetizadores de forma bem contida, com uma sonoridade que cresce nos pequenos detalhes e letra que fala sobre dormir para sonhar com o seu amado.

Com produção do Cashmere Cat (Ariana Grande, The Weeknd), “Just Luv Me” assume uma posição menos pop, embora também possua um fator radiofônico. A música é um R&B meio AlunaGeorge, com um pé no alternativo à la Ellie Goulding, carregando uma das melhores letras do disco, na qual Britney afirma que não precisa de muito, só quer que ele a ame. Um dos versos que eu mais gosto é quando ela, aparentemente, faz referência a crise de 2007, cantando: “se você acha que eu estou dizendo isso porque estou passando por uma fase difícil, como se estivesse mascarando os problemas que venho enfrentando, você está errado, porque eu não preciso de ninguém quando estou despedaçando”. Mais forteney do que ontem.

Abre o cabaré, porque a fase Burlesque chega pra todas. “Clumsy” é a música mais divertida do “Glory” e, logo em seus primeiros segundos, dá uma nova cara para o disco. Ela é eletrônica, mas bastante orgânica. É bagunçada, mas com tudo no seu lugar. E traz uma Britney toda rainha da EDM, pra depois colocá-la cantando sob um coro e palminhas. Isso sem falar no memorável “oops”, que, é claro, nos lembra de um dos seus clássicos. Não tem como ficar parado.

E agora a gente entende que o negócio é pra dançar. “Do You Wanna Come Over” é a prova de que, quando os fãs de Britney pediam uma sonoridade diferente nos seus novos trabalhos, eles simplesmente não sabiam o que queriam, justamente porque essa é a música mais “Britney” de todo o registro e, gente, não tinha como funcionar melhor. Com cordas mescladas à potentes sintetizadores, a faixa encarna a melhor Britney Spears que você respeita, com a pergunta entoada no tom mais sexy-Spears possível: cê quer dar uma voltinha? Nossa Britney tá viva.



Cê já tá cansado, suado de tanto dançar e, definitivamente, nada sexy – como Britney provavelmente estaria, daí tem a chance de dar uma descansada com “Slumber Party”. Primeira investida da cantora nas tendências atuais, “Slumber” é um reggae-pop, que nem “Side to Side”, da Ariana Grande, e traz mais alguns experimentos da cantora com os seus vocais – aqui mais graves. O que mais me chama a atenção, além do arranjo infalível, é a sua letra, nada repetitiva e com ganchos muito certeiros. “Nós temos as velas penduradas no teto e usamos nossos corpos para fazer nossos próprios vídeos. Coloca aquela música para nos deixar loucos. Vamo ficar loucos. Que nem numa festa do pijama”.

Versatilney Spears vem acústica em “Just Like Me”, com um arranjo que abre espaço para seus vocais crescerem, mais uma vez, até que explode em outra dose de reggae no seu refrão. Na letra dessa, Britney não consegue acreditar que o cara quis traí-la com uma mulher exatamente igual a ela. Daí ela canta: “não, eu não posso acreditar. Ela parece muito comigoney”.

Em “Love Me Down”, ela tá cansada de sofrer por homem e só pede pra ele calar  a boca e amá-la. A pegada reggae tomou conta do disco, mas a conversa volta a ficar meio eletrônica, ao estilo “Sorry”, do Justin Bieber, e “On My Mind”, da Ellie Goulding. É uma delícia e grande candidata à single do disco, eu espero A levantadinha que ela dá nos vocais em seus últimos segundos é muito #livechanging.

De volta ao pop em sua mais pura fórmula, “Hard To Forget Ya” é aquela confissão de que o cara realmente não sai da sua cabeça. A música funciona bem, ainda que não seja grandiosa, e retoma a fórmula dos versos falados, agora sem pender para o hip-hop. Seu arranjo é minimalista, com um sample em looping da sua própria voz, sendo catapultada antes do seu refrão, que conta até mesmo com riffs de guitarra. “Algo em você é difícil de esquecer. Nós estamos presos aqui para sempre”.

Em seu Twitter, Britney Spears disse que gravar “What You Need” foi “divertido”. E ao ouvir a canção, duvido que ela tenha mentido. Essa faixa é bem funky, trazendo de volta o cabaré que ela abriu em “Clumsy”, mas aproveita a linearidade da sua marcante percussão pra que seus vocais cheguem ainda mais longe, embora a letra seja bem limitada. Será daquelas que podem ser tocadas durante a troca de figurinos no show.

Desde o sucesso do tropical house do Justin Bieber e dancehall do Major Lazer, Rihanna, Drake, etc, se tornou uma regra que todo disco trouxesse uma canção com essa pegada meio “Lean On” e “Sorry”, e é claro que Britney também pegou esse bonde andando. Por mais batida que seja a fórmula, “Better” acerta na ausência de exageros, repetindo o que ela fez bem em todo o disco, mas aplicada ao receitão pronto de Bieber, Diplo e companhia.

“Change Your Mind” é certeira e estranha na mesma medida. A música é meio “Circus”, meio Selena Gomez, tem uma Britney sedutora, toda trabalhada no flerte, daí de repente traz umas falas em espanhol (!), e tudo isso com um arranjo ora contido, no violão, ora explosivo, todo radiofônico. Daquelas que devem dividir os fãs.

“Pode ligar, que eu nunca vou atender. Chora, bebê, você não tá enganando ninguém. Você sabe que eu sei que você é um mentiroso”, canta Britney no refrão “Liar”. Coisa de fã ou não, todo disco dela e do Justin Timberlake tem uma música que parece ser uma resposta para o outro e, no “Glory”, diria que “Liar” é a faixa que perpetua essa teoria. A parte boa é que, se o público estiver certo, Britney finalmente saiu com a melhor nesta aqui, deixando claro que tá pouco se fodendo para todo o chororô dele. Cê não tinha nem que tá aqui, Justin.

“If I’m Dancing” é um funk-pop, que nem a produção do Diplo para a Nicola Roberts em “Beat of My Drum”, e desta vez troca os papéis, com um arranjo grande pra caralho, enquanto os vocais de Britney ficam num plano de fundo. Essa proposta musicão-pra-ninguém-reclamar é refletida em sua letra, com a cantora afirmando: “se eu estiver dançando, é porque sei que a música é boa”. A música é boa.



E se é pra deixar os fãs mais saudosos chorando depois de tanto tiro, é claro que Britney Spears trouxe de volta o seu clássico “Blackout”, só que no formato do manifesto pop francês “Coupure Électrique”, monamour! A música funciona como uma faixa de encerramento e repete o feito alternativo da sua introdução, aqui acompanhado de sintetizadores mais crus, agressivos, que constroem toda uma áurea na qual podemos a imaginar partindo, sob grandes estruturas que se fecham e, enfim, se despedem dessa gloriosa festa.

***

Quando falo que “reinvenção” é a palavra, ressalto o fato de que, embora traga certa influência de artistas da atualidade, Britney Spears não está fazendo mais do que trazendo o que sempre fez para um contexto atual, ajeitando uma coisa aqui e ali para as rádios atuais, enquanto soa como a boa e velha, digo, experimente Britney Spears.

“Glory” é um disco glorioso, com o perdão do trocadilho, e confirma em seu conteúdo a benção presente no seu título, que quase o intitula como o novo testamento da cantora. Sem pensar duas vezes, esse é o seu melhor trabalho desde “Circus” (2009) e, com ou sem o apreço do público sendo refletido nas paradas, tem tudo para, enfim, acabar com toda essa história de que ela está sempre voltando, já que soa como o retorno que tanto queríamos ouvir. It’s Britney, bitch – e isso é maravilhoso.

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