Jornalista assediada por Biel fala sobre o caso pela primeira vez na TV

Você se lembra do caso de assédio cometido pelo Biel, contra uma ex-funcionária do portal IG, não é? Pouco menos de um mês após o assunto estourar na imprensa, o público quase não se recorda do ocorrido e, como já era de se esperar, o cantor começa a colocar a sua carreira nos trilhos, recuperando contratos e seguindo normalmente com seus shows, mas a jornalista, por sua vez, não só perdeu o seu emprego, como segue sendo questionada quanto a sua versão da história, ainda que essa seja comprovada por meio de vídeos e áudios.

Biel: “Mulher, pra pegar homem, só precisa abrir as pernas”

Na última quarta-feira (20) a jornalista Giulia Pereira, de 21 anos, apareceu pela primeira vez para falar sobre o assunto, concedendo uma entrevista para o “Programa do Gugu”, na Record, e agora que decidiu revelar a sua identidade, até então preservada por orientação judicial, teve a oportunidade de rebater as críticas que recebeu desde que denunciou o assédio do cantor, bem como explicar suas motivações para seguir a frente com o caso.

Embora tenha sido conduzida de forma tendenciosa, numa conversa que, em muitos momentos, parecia tentar colocá-la contra a parede ou fazê-la deslizar, a entrevista é esclarecedora em vários sentidos e, num dos momentos, Giulia ressalta: “Eu espero que o assunto não morra, que, cada vez mais, jornalistas, principalmente mulheres, possam se posicionar e não deixar que isso aconteça. Porque, se eu não quero que isso aconteça comigo, eu não quero que aconteça com nenhuma outra, daqui pra frente. Então, eu espero, de verdade, que isso possa ser um exemplo e um começo.”


“Ele ia me levar para um hotel e me estuprar”

Em um dos momentos mais aguardados da matéria, guardado para o final, Giulia fala sobre um trecho da conversa com Biel que não foi registrado pelos áudios e vídeos. Claramente abalada, a jornalista relembra que, antes de começar a entrevista, Biel afirmou que era “uma pena” que ela não fosse a última entrevista do dia, porque ele queria levá-la para um hotel e “estuprá-la rapidinho”. Como a conversa para o site ainda não havia começado, Giulia não estava gravando esse momento, mas começou em seguida, temendo o que sucederia essa declaração.
“Antes de eu começar a gravar, ele olhou para mim e disse que eu tinha cara de quem sofria bullying na escola, porque sentava na frente da sala, alguma coisa assim, e que ele estava muito ocupado, na época de escola dele, comendo almofadas – por algum motivo, essa conversa sem muito nexo – e aí, ele perguntou para mim se minha entrevista era a última do dia, e era a penúltima, tinha a equipe que estava gravando para mim ainda. Daí ele olhou pra mim e falou que era uma pena, porque se a minha fosse a última, ele ia me levar para um hotel e me estuprar”, conta Giulia, segurando o choro.

“Eu ser simpática, não dá abertura pra ele e nem pra ninguém”

Desde o vazamento do vídeo com a entrevista, muitos questionaram a postura de Giulia durante a conversa, visto que ela aparecia sorrindo em vários momentos. A própria Record, na semana passada, foi uma das que se prestaram ao papel, exibindo o vídeo no programa “Domingo Show”, do Geraldo Luis, seguido de um discurso do apresentador, em defesa de Biel.
“Eu ser simpática, não dá abertura para ele e nem pra ninguém de fazer os comentários que ele fez”, explicou Giulia na entrevista dessa quarta (20). “Me oferecer beijo, perguntar se eu queria que ele mostrasse a heterossexualidade dele, me chamar de gostosa. Não existe isso. Nem em entrevista e nem em ligar nenhum”, completou.
Como estava lá a trabalho, Giulia explicou que tinha como prioridade o material que seria entregue ao IG e, desta forma, se esforçou para seguir com a entrevista de maneira descontraída, favorecendo o ambiente para a conversa divertida que faria parte do vídeo a ser publicado. Ela explica ainda que não sabia como seus chefes lidariam com a situação, caso ela tivesse parado a entrevista por conta do assédio do cantor, sem concluir o trabalho que lhe foi proposto.

Demissão

Enquanto o assunto estava sendo discutido pelos principais meios de comunicação, o portal IG mostrou total apoio à jornalista e, em nota, afirmou repudiar qualquer tipo de assédio ou violência contra a mulher. Mas bastou o debate “esfriar” pra que a empresa optasse pela demissão de Giulia, justificando uma “seniorização” da sua equipe – a troca de estagiários por funcionários seniores. Após a jornalista, a sua editora, que a apoiou quanto a denúncia e exposição do caso desde o início, também foi demitida, desta vez alegando “corte de gastos”.
“Eu esperava total apoio da minha equipe, como eles tinham mostrado antes, na verdade”, disse a jornalista. “E eu não sei o que mudou, mas eu fui chamada pelo recursos humanos e comunicaram que era um corte de estagiários, para a seniorização da equipe. Que iam contratar formados e repórteres já e não estagiários. Na hora eu já sabia, não acreditei muito na justificativa, até porque a escolha de qual estagiário seria cortado não seria por acaso. Eles não sortearam um estagiário pra demitir. Eu não sei dizer o que teria motivado eles, de verdade. Porque eu acho que a demissão foi pior pra empresa do que ter divulgado a matéria. Inclusive, muito pelo contrário, porque, quando eles divulgaram, todo mundo elogiou o portal por ter ficado ao lado da jornalista, apoiado, e por ter dado essa força e ter exposto.”

“É uma coisa muito maior, não é só sobre mim”

Alvo de críticas por fãs, que enxergaram nesse caso uma oportunidade dela se promover, ainda que sequer tenha mostrado o seu rosto inicialmente, Giulia espera que o seu caso sirva de exemplo para motivar outras profissionais femininas que sofram qualquer tipo de assédio e ressalta que não se arrepende, visto que o problema é bem maior e não é apenas sobre ela.
“Eu não me arrependo, faria [tudo de novo]. Eu acho que é muito importante, a gente não pode deixar, que por alguns pormenores pessoais... Por mais que pra mim esteja sendo ainda um pouco complicado, é uma coisa muito maior, não é só sobre mim isso. (...) Enquanto isso não for concluído, eu não sei o que vai ser da minha carreira, o que vai ser da minha vida pessoal, eu não sei o que vai ser daqui a três meses. Mas eu acho que, realmente, se a gente tem uma causa pessoal que possa ajudar os outros, [o que podemos fazer] é não ter medo de levantar isso pra ser um primeiro exemplo.”

Segundo a Record, tanto Biel quanto o portal que demitiu Giulia não responderam aos seus contatos para falarem sobre o assunto. Pela internet, o cantor já havia publicado um vídeo chamado “Desculpa”, no qual pede perdão “caso tenha ofendido” alguém com as suas falas, sem mencionar diretamente o assédio, a denúncia ou a própria jornalista.
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