Crítica: Qual é a do filme “Mãe Só Há Uma” e por que você deveria vê-lo?

Se em “Que Horas Ela Volta?” Anna Muylaert já havia surpreendido nos entregando um filme delicado, sensível e até mesmo polêmico, não podíamos esperar menos do seu seguinte trabalho, o tão aguardado, “Mãe Só Há Uma”.

O longa entrou em cartaz na última quinta (21/07) e apesar de chegar em circuito limitado, a tendência é que a distribuição vá crescendo com o passar das semanas. O sucesso gerado ano passado pelo filme anterior, e as excelentes críticas recebidas nos festivais internacionais, podem auxiliar nessa expansão.

O filme conta a história de um jovem que, aos 17 anos descobre ter sido roubado na maternidade e enquanto sua mãe passa pelo processo de prisão, ele se vê no início de uma relação com sua família biológica, membros da classe média alta, enquanto começa uma transição para sua verdadeira identidade.

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Alguém dê um prêmio de “Olhar Materno do Ano” para essa mulher.

O elenco do filme é maravilhoso, e temos Matheus Nachtergale e Dani Nefussi nos papéis dos pais biológicos do garoto, aliás, aqui temos uma sacada genial da diretora ao escolher a mesma atriz para realizar o papel tanto da mãe raptora, quanto da mãe biológica de Pierre. Por fim, o estreante Naomi Nero, que nos entrega uma atuação introspectiva e sincera do seu personagem. Naomi, apesar de protagonista, fala pouco, ele atua com olhares e movimentações e ainda assim consegue retratar muito bem seu personagem.

Aliás, quando pensamos no personagem de Pierre, é impossível não lembrar de Jéssica, outra maravilhosa personagem criada por Anna Muylaert. Ambos os personagens são jovens, colocados em situações de conflito envolvendo suas mães e uma classe social diferente da sua. Mas as semelhanças acabam aí, enquanto Jéssica diz na nossa cara tudo que pensa sobre qualquer coisa, não mede palavras e não se sente inferior à família dos patrões de sua mãe, Pierre já é muito mais quieto, calado e tímido, tanto que em várias situações as pessoas respondem por ele, ou ele acaba fazendo o que lhe pedem apenas para evitar conflito (ou porque ele simplesmente não se importa).

Engana-se quem pensa que devido à sua personalidade Pierre seja fraco, muito pelo contrário, ele enfrenta sua nova família de cabeça erguida quando o assunto se trata da sua identidade sexual.

“E tão dificil aceitar quem eu sou?” Pierre grita, quando tanto ele, quanto nós da audiência, já estamos explodindo de estresse por dentro, diante de tantas situações constrangedoras. 

GAROTO QUE GOSTA DE GAROTOS E BEIJA GAROTAS

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Pierre sendo quem ele quer ser logo nos primeiros cinco minutos de filme. 

Logo no início, já fica claro que Pierre não segue os padrões da “família tradicional brasileira”. Visual meio andrógeno. De lápis preto nos olhos, unhas pintadas, o personagem é introduzido com uma cena em que durante uma festa, dança sensualmente com outro rapaz , mas logo na sequência acaba tendo relações com uma garota. 

Conforme a história vai crescendo, e os conflitos familiares vão intensificando a personalidade de Pierre vai se desenvolvendo. As longas cenas em frente ao espelho, enquanto experimenta batons, e abusa de selfies e nudes (para o próprio prazer), é uma busca para encontrar seu verdadeiro eu em seu próprio reflexo. 

A diretora, que inseriu o enredo de identidade de gênero após já ter um roteiro evoluído, conta que a escolha do ator para interpretar Pierre, foi por ter visto em Naomi, não só uma sincera timidez mas também uma personalidade potente. Algo que vemos claramente durante a uma hora e meia de filme. O fato de Naomi ter uma irmã transgênero o ajudou bastante na construção do personagem.

O DISCURSO OUSADO DO FILME, E SUAS CONCLUSÕES

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Uma familia tradicional.

“Mãe Só Há Uma” é um daqueles filmes que não tem medo de afrontar. Temos uma história de conflitos familiares, uma discussão de classes sociais e por fim, uma tratativa sobre a questão de identidade de gênero. 

Seguindo o tema principal sobre o conflito familiar, o jovem desajustado proveniente de uma classe social baixa é visto no meio das regras do tradicionalismo da classe média. Aliás, a própria diretora já afirmou em entrevistas que os brasileiros de classes mais ricas tendem a ser conservadores e abusivos de seus privilégios, vide a cena da tentativa de fuga do condomínio fechado. 

O pai quer molda-lo da forma que deseja, e a mãe só pensa em mantê-lo sempre junto a si. Assim, Pierre vira um objeto na mão de seus pais biológicos, que sentem a necessidade de exibi-lo à todos como uma nova obra de arte adquirida. Entretanto, é impossível não se condoer com as caras e expressões extremamente apaixonadas feitas por Dani Nefussi, a admiração de uma mãe.

Anna Muylaert, trabalha bem também a questão da identidade de gênero do protagonista. Por vezes, a audiência que desconhece do assunto, pode ser levada à confusão diante das exibições da sexualidade do garoto. 

Esse ponto é importantíssimo no filme, pois deixa claro que quando se trata de identidade de gênero e afinidade sexual, as pessoas devem ser o que desejam. Sem restrições ou delimitações, qualquer um pode ser um garoto de vestido, que se sente mulher, mas beija outras garotas. 



Terminado o filme, sentimos que foi tudo curto de mais. A história poderia ser levada por mais algumas horas sem problemas, e assim as questões discutidas poderiam ser mais exploradas. Cruelmente sábio, o filme termina em um ponto que deixa mais pontos de interrogação do que respostas, e nos leva à discussões de horas após o filme. É o anticlimax perfeito. 

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Mãe Só Há Uma” estreou na última quinta, 21, e está rodando pelos cinemas do Brasil. A página do Facebook do filme contém a relação de cinemas em que o filme está sendo exibido.


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