Nova temporada de “220 Volts”, da Multishow, retorna com blackface do Paulo Gustavo

O brasileiro (não dá pra chamar de “humorista”, né?) Paulo Gustavo usou suas redes sociais para revelar, durante os últimos dias, um pouco do que teremos na quinta temporada do programa “220 Volts”, da Multishow, e, por suas primeiras fotos, já conseguiu perder alguns telespectadores, devido a volta da personagem Ivonete.

Clássico estereótipo da mulher negra televisionada, a personagem de Paulo é uma mulher bunduda, que mora no morro, é cheia de dívidas e, mesmo assim, só quer gastar com bebidas. Obviamente, ela gosta de samba, afinal, o que mais elas escutariam? E, pra foder de vez com toda a história, é interpretada pelo próprio, que usa uma peruca que simula o “black power” e, de quebra, faz o famigerado “blackface”.

Pra quem não lembra ou sabe, “blackface” foi uma prática muito utilizada pelo cinema e teatro americano, que preferiam pintar atores brancos para interpretar personagens negros, descartando a necessidade de contratar artistas negros. Além dessa exclusão, a prática também era marcada por uma interpretação ofensiva, reforçando pontos que tornavam esses personagens motivos de piadas, assim como a Ivonete do Paulo.

Em meio a tantas discussões sobre o racismo no Brasil, incluindo a exibição da série “Mister Brau” na Globo, que pertence ao mesmo grupo da Multishow, e casos reais, com figuras próximas ao Paulo Gustavo, como a atriz Tais Araújo, a jornalista Maju Coutinho e a cantora Ludmilla, tê-lo insistindo nessa persosagem que reforça e naturaliza o racismo na TV é lamentável, e demonstra uma clara indiferença dele não só quanto aos últimos acontecimentos em torno do assunto, mas também em relação ao seu próprio público, que, pela internet, também repudia a personagem. Não tinha ninguém na equipe que pudesse olhar para isso e alertar, “cara, não tá legal”!?


Após ser recebido com muitas críticas, Paulo Gustavo usou seu Facebook para justificar o blackface e, em sua defesa, jogou um “eu nunca fui criticado por interpretar personagem um playboy machista, mesmo sendo gay” (?) e, entre outros personagens, mencionou um nerd, mulher feia, “vagaba” (sic), mãe de família e até um anjo. “Mas a Ivonete (...) me rendeu injustas críticas. Eu conheci muitas Ivonetes na minha vida e tenho orgulho dessas mulheres. (...) A Ivonete existe para ridicularizar quem a ridiculariza, porque eu quero rir de quem não gosta das Ivonetes. Porque eu amo a Ivonete”. No post, que pode ser lido aqui, ele ainda associa as críticas recebidas ao atentado na boate de Orlando, que matou cerca de 50 pessoas, numa tentativa de relativizar as lutas.

Na sua fala, ele, que é um homem branco, garante que seu personagem, em vez de alimentar um estereótipo negativo e carregar uma prática racista, é, na verdade, uma homenagem, uma forma de resistência e que expressa os discursos de outras mulheres negras que ele conheceu ao longo de sua vida e tanto admira. Mas, né, a única parte que conseguimos concordar é quando ele fala sobre a personagem servir para “ridicularizar quem a ridiculariza”, afinal, tudo o que conseguimos pensar é no quão ridículo ele consegue ser, não só interpretando-a, como também insistindo nesse discurso barato que, no fim das contas, apenas tenta agir como se as críticas fossem centradas à ele e, não, ao problema real, que é o racismo impregnado nisso.

Paulo Gustavo, com esse posicionamento, não só cagou e andou, com o perdão da expressão, para o seu público e todas as mulheres que ele afirma “admirar”, como também desafiou a nossa inteligência, tentando acobertar algo tão grave com um discurso vazio, hipócrita e, sim, racista, no qual ele fala sobre “dar voz” às mulheres negras, enquanto, em vez de coloca-las em seu programa, apenas se pinta para se dizer o símbolo da representatividade. O que seria de todas as mulheres negras se não fossem por brancos como ele e toda essa admiração, hein?

Até o momento, não há previsão para a estreia da nova temporada de “220 Volts”, na Multishow. Mas, assim que soubermos, será um prazer desligar a TV. Já deu de incentivar e ascender gente babaca e preconceituosa. Os volts foram tantos que a série já voltará com o nome queimadíssimo.
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