Kanye West, a infame sextape de “Famous” e a famosa hora de parar

Kanye West não brincou quando nos desafiou a dizer o nome de “um gênio que não seja louco”, na letra de “Feedback”, do álbum “The Life of Pablo”. Foi nesse mesmo álbum que o rapper vacilou ao dizer que a Taylor Swift e ele deviam transar, já que, desde aquele episódio no VMA de 2009, acredita ter tornado-a famosa.

Como Kanye e controvérsia são coisas que andam de mãos dadas, o cara não só acompanhou todas as discussões que envolveram essa canção, em parceria com a Rihanna, como também decidiu lançá-la como single, mas, não contente com as críticas pelo machismo e misoginia de sua letra, foi além, levando a polêmica “Famous” para outro nível.

O último fim de semana foi escolhido pelo rapper para o lançamento do clipe de “Famous” que, segundo o próprio, levou cerca de três meses para ser finalizado. A estreia, por sua vez, não se resumiu ao tradicional lançamento do vídeo por meios digitais, mas, sim, um puta evento nos EUA, semelhante ao que ele realizou para a estreia do disco “Pablo”. Em seguida, foi a vez do videoclipe chegar a internet e, claro, pelo Tidal*, mas nem mesmo as barreiras da plataforma de streaming de Jay Z foram suficientes para impedir que a produção rapidamente chegasse ao público por outros meios e, enfim, entregasse o chocante material pensado por Kanye West.

Não há dúvidas: “Famous” é uma sextape. Ou, melhor dizendo, foi inspirado numa. Nem é preciso ir muito longe para saber do que ele está falando, é uma clara alusão ao vídeo protagonizado por Kim Kardashian e Ray J – responsável pela fama que a modelo, socialite e esposa de Kanye West usufrui até hoje. Mas toda a fórmula do vídeo constrói algo ainda mais agressivo e complexo. Isso porque essa sextape conta com inúmeros personagens, sendo eles: George W. Bush, Anna Wintour, Donald Trump, Rihanna, Chris Brown, Taylor Swift, Kanye West, Kim Kardashian, Ray J, Amber Rose, Caitlyn Jenner e Bill Cosby.

É claro que, no vídeo, nenhum deles está realmente fazendo sexo. Inspirado no quadro “Sleep”, do Vincent Desiderio, todas essas figuras, com exceção do próprio Kanye, estão representadas por estátuas de cera, enquanto dormem, cobertas por um único e longo lençol, e têm partes do seu corpo expostas ao público. E é isso o que temos ao longo de toda a produção, que, simulando o efeito de uma câmera caseira, passeia lentamente por entre os corpos e rostos, como se nos convidasse para sermos os olhos por trás de sua lente e, desta forma, compartilhasse da perversão que se aproveita desse momento de descuido e exposição de cada um desses nomes.

“Famous” é, antes de qualquer coisa, uma grande crítica. Falando sobre o clipe para a Vanity Fair, Kanye afirmou que “não está a favor ou contra ninguém que aparece no vídeo. É um comentário sobre a fama” e, pensando nessa perspectiva, faz muito sentido. Todos os nomes ali presentes são de pessoas que tiveram sua intimidade vasculhada por meio mundo, com seu consentimento ou não, e foram afetadas de alguma forma por essa superexposição. E por mais que saibamos que isso tem o seu lado errado, é algo que estamos habituados a continuar fazendo, afinal, “é o preço que se paga pela fama” e, sendo públicas, essas pessoas são vistas como se não tivessem o direito de viver algo realmente íntimo. “Que não ficasse famoso”.

Uma boa forma de compreender essa crítica, é não deixando passar o visual “sextape” do clipe. Todos sabem que o porn revenge é uma prática completamente errada e que não deve ser feita, mas se, no lugar desse vídeo, surgisse a notícia de que vazaram um vídeo íntimo da Taylor Swift com Calvin Harris, por exemplo, os sites que publicassem o registro atingiriam picos de acessos, vindos de pessoa que, mesmo sem serem convidadas, gostariam de ser os olhos por trás da lente, exatamente como Kanye as permite ser em “Famous”.



Kanye é um completo babaca, disso ninguém duvida. Mas é um babaca genial e, como já provou inúmeras vezes em sua carreira, genialmente perverso. Quando ele coloca várias mulheres poderosas ao lado de homens repugnantes, acusados de agressões físicas, abusos sexuais, entre outras coisas, ele não provoca apenas o telespectador, mas, também, todos os nomes ali presentes. Ele não apenas as expõe e explora, lenta e prazerosamente, mas também as rebaixa e faz isso sem economizar, afinal, onde sobra espaço para o mínimo de dignidade quando se divide uma cama com Donald Trump? E essa violência, por mais que, na cabeça dele, talvez seja apenas mais um momento provocativo de sua carreira, não é justificável.

Por mais que a polêmica mais óbvia do clipe seja a —estátua de — Taylor Swift, as intenções mais violentas do vídeo sobram para Kim Kardashian e Rihanna. Kim por reviver um momento que, ainda que tenha te dado fama, é vergonhoso, invasivo, e agora traz novas participações, colocando-a ao lado do seu marido e ex-namorado, apenas alguns centímetros da mulher que já foi seu padrasto. E Rihanna por aparecer ao lado do ex-namorado que quase a matou, enquanto canta os versos de Nina Simone que, nesse contexto, soam como um pedido de desculpas ao seu agressor.

O conceito do clipe, sobre a superexposição causada pela fama e a maneira como ela se torna um convite pra que todos invadam o seu lado mais íntimo, é muito bem aplicado, do clipe em si à forma como o próprio Kanye West expõe todas essas pessoas, que sequer deram permissão para aparecerem dessa maneira em seu vídeo. Mas chega a ser ingênuo enxergar toda a grandiosidade do clipe, sem perceber também que, por trás do seu discurso explícito, a inúmeras outras mensagens sendo passadas e intencionalmente pensadas para chocar o telespectador, indo dos casos de Kim e Rihanna aos personagens escolhidos e maneira como foram posicionados.



Logo de início, temos a magnata da Vogue, Anna Wintour, que assistiu ao desfile da nova linha do Kanye, durante o lançamento do disco “The Life of Pablo”, e o classificou como um “desfile de refugiados chiques”, ao lado de dois dos políticos mais odiados dos EUA e que compartilham de ideias semelhantes e xenofóbicas quanto aos refugiados no país, Bush e Trump. Na sequência, é Rihanna quem descansa ao lado do seu velho agressor, Chris Brown, seguida de Taylor Swift, que repousa acompanhada por Kanye West e Kim Kardashian. Ray J e Amber Rose formam o casal seguinte, como se, sendo ex-relacionamentos de Kanye e Kim, se merecessem, e, por fim, mas não menos preocupante, temos Caitlyn Jenner, que é uma mulher trans, ao lado do comediante e estuprador confesso, Bill Cosby.

Quando o clipe chega ao fim, são muitas as possíveis reações causadas. Enquanto arte, “Famous” cumpre o seu papel, nos chocando, mexendo com o nosso imaginário e, sendo isso algo subjetivo, podendo ou não causar repugnância, vergonha, talvez. Em termos visuais, o clipe também não decepciona, como boa parte da videografia de Kanye, e cumpre a cota, inclusive, quando o assunto é causar polêmica. Quem não se lembra das discussões em torno da capa de “My Beautiful Dark Twisted Fantasy”? Mas, por trás de todos esses significados, o clipe carrega uma pesada combinação do inconsequente desrespeito dele com os nomes aqui presentes, que resulta numa violência injustificável e que poderia ter sido evitada sem afetar o conceito central da obra.

Kanye West se tornou o maior inimigo de si mesmo, com um ego e sede pela provocação grandes o suficiente para ofuscarem a sua própria arte. 


O que muito nos impressiona aqui, é a questão do clipe significar algo mais violento para Kim, que é a esposa do rapper, e Rihanna, que é a sua parceira na faixa e amiga de longa data, do que para qualquer outra pessoa. E isso nos leva ao fato de que Kanye West se tornou o maior inimigo de si mesmo, com um ego e sede pela provocação grandes o suficiente para ofuscarem a sua própria arte. Ele tem razão, não conseguimos pensar no nome de nenhum gênio que não tenha sido chamado de louco, mas também esteve errado diversas vezes e, por mais que continue lá, se comparando com figuras como Jesus e Einstein, precisa ser questionado e colocado em seu devido lugar – e isso não há arte que mude. Como artista, Kanye sempre nos entregou um trabalho verdadeiramente provocante e impecável, como o disco “The Life of Pablo” não nos deixa mentir, mas nem a maior das obras de arte o tornaria impune por seus erros que, assim como a fama, tem o seu preço. Talvez seja essa a famosa hora de parar.



*Postagem atualizada com o player do Youtube/Vevo.
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