Biel: “Pra mulher pegar um homem, ela só precisa abrir as pernas”


“Você me fala que não,
Mas eu te provo que sim.
Você duvida se é bom
E eu te mostro no fim.
Eu sei que você me quer,
Garota, eu sinto no ar.
Só que você não aceita,
Sem antes titubear.”


A história já deve ter passado por sua timeline, com opiniões que se dividem entre as duas versões apresentadas. De um lado, uma repórter do Portal IG, que optou por não se identificar, acusa o cantor Biel de assediá-la durante uma entrevista em que ele deveria falar sobre o seu disco de estreia, “Juntos Vamos Além” (leia o depoimento dela aqui), do outro, temos o próprio cantor de “Química”, garantindo que tudo não passou de uma brincadeira e se mostrando surpreso com as proporções tomadas por todo o assunto.

Há apenas algumas semanas, o Brasil parou para discutir sobre um caso de estupro coletivo em que uma jovem, de 16 anos, foi sexualmente abusada por cerca de 30 homens. O caso, de uma gravidade inestimável, serviu pra que as pessoas voltassem a discutir sobre a violência sofrida pela mulher todos os dias e, nos mais variados meios e veículos, despertaram também pontos de vistas contrários aos que tanto criticam o movimento feminista, comprovando, da forma mais triste possível, que a luta delas é, sim, necessária e que ainda estamos longe da tão esperada igualdade entre os gêneros.

Em um nível de gravidade inquestionavelmente inferior, outra notícia também ganhou destaque nas redes: antes que a denúncia de assédio se tornasse pública, Biel contava vantagem por ter beijado mais de 300 mulheres em uma semana. Dias depois, ele aprendeu então que não se deve tratar as mulheres como objetos.

A relação entre o estupro coletivo no Rio de Janeiro e a assédio contra a repórter pode não ser muito clara, inicialmente, mas a gente te ajuda: ambos os casos são frutos do machismo nosso de cada dia, que ensina a nós, homens, que as mulheres são nosso objeto de prazer, inferiorizando-a à uma posição que, seja num baile funk do Rio ou em seu local de trabalho, estará suscetível aos assédios – e ai delas se acharem ruim. É claro que esse pensamento deve ser desconstruído e, aos poucos, nós assistimos isso acontecer, não só pelos textões no Facebook, mas também na vida real, e se você for homem, é a pessoa mais apta para usar de seus privilégios pra questionar e conscientizar os amiguinhos também, ensinando-os porque não assediá-las e não ditando à elas “regras para não serem as próximas vítimas”.

Em seu primeiro posicionamento sobre a denúncia de assédio, Biel não se preocupou em assumir o erro e muito menos buscar uma maneira de se redimir. Pelo contrário, focou numa defesa mal embasada, no qual afirma, ainda que haja registros em vídeo e áudio sobre o assédio, que “tudo não passou de um mal entendido” e que “o lobo mau sempre será o vilão (...) se só escutarem a versão da chapeuzinho”. Profundo. De forma que chega a soar cômica, ele questiona “machista? Nem homem me considero ainda”. E reforça o fato de que, no momento, todos levaram suas falas na brincadeira: “em nenhum momento a repórter se sentiu ofendida, tanto é que as brincadeiras continuaram, assim como a entrevista”.

Em outro momento, o cantor ainda conclui: “Só queria entender como que, em sã consciência, eu falaria tudo o que falei se fosse na maldade, sabendo que estava sendo filmado e ciente da presença de mais umas cinco pessoas na sala na hora da entrevista... Enfim, cabe a quem me conhece tirar as conclusões.”

E nós temos um ponto.

A entrevista em que Biel assedia a repórter aconteceu no mês passado e, até então, seria sobre o lançamento do seu disco de estreia, “Juntos Vamos Além”. E, nesse dia, nós também conversamos com o cantor, estando, inclusive, presentes no episódio que resultou nessa denúncia.

Quem nos acompanha no Snapchat deve se lembrar que anunciamos a entrevista horas antes de nos encontrarmos com o cantor e, um pouco mais tarde, publicamos algo com a presença do próprio, entretanto, devido a gravidade do que foi conversado nessa entrevista, optamos por vetá-la, inicialmente, incomodados com a possibilidade de promover o seu trabalho, após tudo o que nos foi dito nesse dia.

Agora, nós enxergamos um cenário completamente diferente. A denúncia contra o cantor já existe e, tanto nas redes sociais quanto na televisão, ele não hesita em se defender e, em algumas das declarações já concedidas, menciona, inclusive, a importância da sua mãe e irmã em sua vida, numa tentativa de invalidar as acusações de machismo. E esse foi um dos assuntos que conversamos na entrevista em questão.

Nossa pergunta: Você gosta de provocar os fãs, mostrar o seu corpo, e isso te rende bastante elogios, cliques. A mídia gosta desse alvoroço. Só que quando uma mulher faz isso, ela é bem criticada. O que você pensa sobre isso?


A resposta de Biel: “O homem, pra pegar uma mulher, ele precisa de lábia. Ele precisa de talento, né, cara? Porque é difícil. Mulher é bem resguardada. Mulher, pra pegar homem, é só abrir as pernas, parceiro! É fácil!”, afirmou o cantor. “Então, por isso um homem que pega bastante mulher, ele é valorizado. Por quê? Porque é difícil pegar mulher. Sabe? Você tem que desfrutar de um talento. Mulher não, mulher que pega bastante homem é fácil. Ela, tipo, só é fácil. O cara não, o cara pode ser fácil, [mas] não vai pegar mulher. Tem que ter talento, sabe? Tem que pegar... Mulher que vale a pena, eu tô falando. Acho que essa é a diferença.”



Na sequência dessa pergunta, falamos então sobre o machismo predominante no funk, questionando se ele acredita poder fazer algo para reverter esse quadro, e ele afirmou:
“Eu, até hoje, cara, no meu trabalho, nunca expus mulher nenhuma. Nunca explorei corpo de mulher nenhuma. Acho que, assim, o mais próximo que eu cheguei disso foi um beijo no clipe, sabe? Um beijo tranquilo, coisa nada... Pessoas que eu respeito, que eu contracenei. (...) Eu sempre respeitei. E, em letras de músicas, eu nunca expus a mulher. Eu sempre respeitei muito bem e, pelo contrário, sempre falei muito bem de mulher nas músicas. Acho que, sim, a gente pode mudar esse conceito de que mulher que dança funk é tudo, né, piriguete. Que tem como você curtir funk e, sei lá, cara, ser vista como uma mulher que curte sertanejo, uma mulher que curte rap, sei lá.”
Questionamos se as especulações em torno da sua orientação sexual o incomodavam de alguma forma e ele não pensou duas vezes: 
“Tenho minha sexualidade muito bem definida. Muito bem, não tenho dúvida alguma. Sou tarado por vagina. E isso não me incomoda, porque falar, eles falam o que querem, agora, tem fundamento? Nem sempre. Eu sei o que eu sinto e quem me conhece sabe. Quem tá falando de fora, não me conhece. Conhece o Biel, conhece o trabalho do Biel, o que a mídia mostra sobre o Biel, mas a ‘pessoa do Biel’, não. Então, pra mim, não tem fundamento nenhum comentários assim. Eu tenho muitos amigos gays, os melhores shows que eu fiz foram em casas gays, boates GLS, e eu sou apaixonado quando... Não vou falar, né? Nem todo mundo sabe, mas tem gente que trabalha comigo, que não é hétero, e eu me identifico muito, porque tem um ideal diferente e eu gosto do que é diferente, sabe? Mas até um certo ponto, obviamente, como eu disse, mas eu me identifico muito bem com essa galera.”
Talvez Biel não tenha enxergado a gravidade no que disse até o momento em que foi judicialmente intimado, justificando essas ações como meras brincadeiras. “Mulheres sabem a diferença entre uma brincadeira e assédio. Sabem também que homens justificam assédios como uma brincadeira”, explica nossa colaboradora, Carla Silva. E o problema, ainda que também seja do cantor, não começa e nem termina nele, sendo o machismo algo cultural e que, quando exercido de uma maneira tão natural, pode influenciar também os seus fãs, que são jovens meninos e meninas.

Outro ponto que também é preocupante é esse cenário no qual ele é lembrado e exaltado, não por sua música, mas sim por fotos sensuais ou declarações como àquela em que beijou 300 garotas ou quando teve sonhos eróticos com a Anitta, reforçando a sua postura de “pegador” e tornando confortável essa posição na qual ele se dá o direito de assediar outras mulheres, tendo em mente que, como nas suas músicas, quando elas recusam suas propostas, estão apenas titubeando, se fazendo de difícil.

Entretanto, isso jamais irá justificar as suas ações ou torná-las aceitáveis, a partir do momento que, em tom descontraído ou não, ele desrespeitou uma profissional que esteve na sua companhia à trabalho e reproduziu um discurso que, infelizmente, é bem mais frequente do que se imagina. Na melhor das hipóteses, ele poderia reconhecer o erro e aproveitar o momento em exposição para se redimir e tirar algo positivo disso, mas, não, o caminho que ele e sua equipe têm escolhido é de uma defesa questionável, mal embasada.

O caso segue na justiça e, até então, foram poucos os posicionamentos favoráveis ao cantor, mas ainda esperamos que, com toda essa repercussão, ele perceba o problema nisso e, enfim, se desculpe. Até porque, Biel, errar mais de uma vez? Cê tá ligado que é burrice.
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