Album Review: Beyoncé já fez hits, mas, com “Lemonade”, ela faz história

Quando você é a Beyoncé, cometer erros se torna o único luxo que ninguém é capaz de te conceder. Do Destiny’s Child aos dias atuais, a cantora cuidadosamente construiu uma carreira repleta de hits, mas foi em seus últimos trabalhos que assumiu uma postura digna à figura antes vista apenas por seus fãs, da artista incomparável e inigualável, uma das poucas da ‘última safra de divas pop’ capazes de se unir ao clube que já contava com a presença de ícones como Michael Jackson, Prince, Madonna e David Bowie.
Em seu disco anterior, o autointitulado e lançado de surpresa que ainda rendeu uma polêmica esnobada do Grammy, Beyoncé já denunciava um interesse em correr atrás de algo maior do que outras “Single Ladies”, e foi acompanhada de um time de peso que ela o fez e, em suas próprias palavras, parou o mundo para assisti-la.

Passado alguns anos na surdina, já era esperado que a cantora voltasse com um projeto tão grande quanto o anterior ou ainda maior e, com a chegada do disco “Lemonade”, um álbum visual que estreou na tela da HBO, mais tarde surgindo, é claro, no Tidal, do seu marido e rapper, Jay Z, nossas suspeitas se confirmaram.



A limonada de Beyoncé pode descer um pouco azeda para alguns, mas sempre esteve no ponto para nós e, após muitos e muitos goles, eis o nosso veredito sobre seu famigerado novo álbum.


“Pray You Catch Me”
Esse disco da Beyoncé foi descrito como uma “jornada de autodescoberta e cura de cada mulher” e, entre os muitos temas aqui abordados, temos a história de uma traição que ela teria sofrido do seu marido, Jay Z. Na faixa que abre o disco, ela introduz então essa desconfiança no seu amado, com uma sonoridade lentamente grandiosa, bastante influenciada pela colaboração do James Blake, que prende a nossa atenção conforme ela confessa a sua insegurança, na esperança dele notar que ela já percebeu algo de errado em seu comportamento e então revele o que está acontecendo. “Eu estou rezando pra te pegar sussurrando. Rezando pra que você me pegue ouvindo.”

“Hold Up”
Ela torceu bastante pra que a história se resolvesse na música anterior, mas Jay Z não fez a confissão que ela queria. Sob a produção do Diplo, além de um verdadeiro time de compositores que, entre outros nomes, inclui o britânico MNEK, “Hold Up” é a representação musical da cantora para a despretensão que tenta manter enquanto está prestes a usar o taco do seu videoclipe na cabeça do seu marido. 

Esse contraste chega a ser divertido, sendo a música um reggae timidamente radiofônico, ao estilo do que Diplo fazia antes do sucesso com o Major Lazer, enquanto ela faz questões como “o que é pior, parecer ciumenta ou louca? Ciumenta e louca?” e fala sobre quando sentiu o cheiro “do seu segredo” ou chegou ao ponto de checar as últimas ligações do seu celular. Todas essas declarações ficam entre exageradas demonstrações de amor. “Se segure, eles não te amam como eu amo você. Vá com calma, eles não te amam como eu amo você. Volta aqui, eles não te amam como eu te amo. Vá devagar, eles não te amam como eu amo você.”

“Don’t Hurt Yourself (feat. Jack White)”
Agora a porra ficou séria. Você simplesmente não pode foder com a Beyoncé e, se tenta brincar com a cara dela, pagará um preço caro. O disco “Lemonade” conta com um grande time de colaboradores e, em “Don’t Hurt Yourself”, temos uma das principais participações, do músico Jack White, que, não só tira a cantora da sua zona de conforto, como a eleva à um nível que jamais imaginaríamos vê-la, com direito a sample de Led Zeppelin e tudo mais.

Se, até então, Beyoncé ameaçava acabar com a farsa de Jay Z, em “Hurt” ela larga o papel da mulher fragilizada por uma traição e assume a posição da negra empoderada demais para perder tempo sofrendo por homem. Intercontextualizando Dr. Dre, o refrão dá um ultimato: “quando você me machuca, você se machuca. Não machuque a si mesmo”. Não queríamos ser o seu marido ouvindo aos riffs de guitarra nessa faixa, que soam como se ela estivesse pegando-o por dentro e torcendo cada um dos seus membros. “Esse é o seu último aviso. Você sabe que eu te dou vida. Se você tentar essa porra de novo, perderá a sua esposa.”

“Sorry”
Nessa altura do campeonato, Jay Z já está chorando horrores. Aonde ele estava com a cabeça pra pensar em trair a Beyoncé? Mas é claro que ela ainda não acabou e faz questão de esfregar isso na sua cara também: “eu sequer estou arrependida”. Enquanto ele chora o leite derramado, ela vai curtir com as suas amigas e, se perguntarem, podem avisar que ela está ótima.

“Sorry” foi uma das músicas que teve o melhor desempenho do disco após o seu lançamento e sua fórmula mais comercial, com um trap repleto de samples e uma pegada mais dançante, explica seu sucesso sem grande esforço. Aqui, ela começa a explorar melhor tópicos como o autoempoderamento e união feminina, como quando curte com suas amigas, longe do papel usual da mulher sensibilizada por toda a situação, e nos versos em que deixa claro que continuar sozinha a criação da primeira filha do casal, Blue Ivy, não será um problema. “Eu e minha bebê ficaremos bem, nós vamos viver uma vida boa.”

É na letra dessa música que Bey também fala sobre a “Becky do cabelo bom” e, com esse trecho, conseguimos deixar de ver o disco sob a ideia superficial “do álbum sobre uma traição”, começando a amarrar o teor feminista negro de suas composições, a partir do momento que, além de traída, a cantora também é colocada na posição da mulher negra trocada por uma branca.

“6 Inch (feat. The Weeknd)”
Nem toda a sua experiência com relacionamentos perigosos impediu The Weeknd de cair nos encantos de Beyoncé, que caminha pelo clube com seu salto alto, pouco se importando com os olhares ao redor, enquanto, ao mesmo tempo que seduz, mata um por um, com Abel sendo a sua testemunha. O cantor de “Often” não poderia ter sido uma escolha melhor para “6 Inch”, que se encaixa perfeitamente bem em seu próprio repertório, e, ainda que numa breve aparição, usa toda sua expertise para dar credibilidade aos adjetivos dados à cantora, que é uma verdadeira máquina de fazer dinheiro e vale cada nota paga. A música é encerrada pela voz da própria, que garante a satisfação: “você sempre volta aos meus braços”.

“Daddy Lessons”
E se ficamos surpresos em tê-la assumindo o rock do Jack White em “Don’t Hurt Yourself”, o country de “Daddy Lessons” é capaz de nos surpreender AINDA mais. Depois de muitas músicas, aparentemente, falando sobre o seu relacionamento com o rapper Jay Z, “Lessons” evidencia que o seu marido não foi o único homem problemático que passou por sua vida e, enquanto nos conta as lições ensinadas por seu pai, podemos perceber o tom crítico, que cruza com o perfil do pai de Blue Ivy. “Meu pai me alertou sobre homens como você, ele disse ‘querida, ele está brincando com você! Brincando com você! Quando o problema chegar na cidade e homens como eu se aproximarem’, oh, meu pai disse ‘atire!’, meu pai disse ‘atire!’”. “Bom trabalho, Bey!”, parabeniza sua filha no fim da música.

“Love Drought”
Sob a produção do Mike Dean, conhecido por diversos trabalhos com Kanye West, essa música é a prova de que, ainda que seja Beyoncé, a cantora esteve de olho no que o R&B apresentou nos últimos anos, com a ascensão de artistas como Tinashe e FKA Twigs, que entregam ao ritmo uma fórmula menos comercial e, cada uma à sua maneira, mais autêntica. A letra, por sua vez, é tudo o que Jay Z queria ouvir. Eles começam a se acertar e, olhando para trás, Beyoncé acredita que é justo dar uma segunda chance, porque, juntos, eles são capazes de mover uma montanha – literalmente, diríamos. “Dez de nove vezes [que você me conta algo], eu sei que você está mentindo. Mas nove dessas dez vezes, eu sei que você está tentando, então estou tentando ser justa.”

“Sandcastles”
Agora é aquele lambe-lambe-pós-volta-de-relacionamento. Por mais que Beyoncé e Jay Z formem daqueles casais que jamais imaginamos que um dia poderia dar errado, o relacionamento deles se mostra tão frágil quanto um castelo de areia, facilmente derrubado por uma onda do mar, e depois dele partir o seu coração, traindo-a, ela faz o mesmo, ameaçando partir. Ele chora, mostra estar realmente arrependido do que fez e, ao vê-lo sofrer, ela decide que é a hora de voltar.

Enquanto ele quebra sua promessa de fidelidade, ela também volta atrás quanto a partir e, juntos, eles aprendem que “nem toda promessa funciona desse jeito”. Um ponto importante nessa baladinha é o fato dela deixar muito claro que foi quem decidiu partir e, também, quem teve a iniciativa de voltar atrás, tomando as rédeas de uma situação que, até então, ele acreditava ter sob controle.

“Forward (feat. James Blake)”
Beyoncé mostrou quem é que manda e deixou o Jay Z “pianinho”. Com seus problemas amorosos resolvidos, é a vez do cantor James Blake interpretar o rapper, apenas pedindo pra que eles sigam adiante. “Agora nós vamos manter essas portas abertas por um tempo. Agora podemos nos manter abertos por um tempo. Adiante”. Beyoncé surge nos segundos finais da faixa, como se o acalmasse após ter tocado o terror: “pode voltar a dormir no seu lugar favorito ao meu lado. Vá em frente”. E os vocais de Blake são engolidos pelo próprio álbum, com um inacabado “adiaaaant...”.

“Freedom (feat. Kendrick Lamar)”
Enquanto Jay Z dorme, é Kendrick Lamar quem assume a linha de frente. Não, infelizmente, Beyoncé não devolveu a traição do rapper na mesma moeda, mas convidou Kendrick para trazer de volta uma discussão que ela entrou pela primeira vez em “Formation”, abrindo os trabalhos desse novo disco: o racismo nos EUA. O CD “To Pimp A Butterfly”, lançado por Lamar em 2015, tem como temática central a questão racial, de forma que, mais uma vez, Beyoncé acertou em cheio na escolha da parceria, enquanto não economiza na genialidade, aproveitando a ambiguidade da “liberdade” que tanto clama para ir da sua vida pessoal às críticas que dão voz ao movimento Black Lives Matter.

Ao contrário das outras parcerias, nessa temos toda a nossa atenção roubada por seu colaborador, que, com rimas agressivamente ágeis, nos faz vibrar com cada um dos seus versos, reforçando a ideia crítica da faixa e tornando-a ainda mais grandiosa do que seu instrumental consegue. Talvez seja essa a música que melhor sintetiza toda a proposta do disco, visto tratar de Beyoncé se soltando de suas correntes, enquanto aborda o feminismo negro, racismo e empoderamento.

“All Night”
Nós ainda estamos recuperando o fôlego após a passagem do Kendrick Lamar, enquanto Beyoncé e Jay Z vivem a sua segunda lua de mel. Se em “Drunk in Love”, do álbum anterior, ela queria ficar bêbada de amor por toda a noite, nessa ela quer que eles façam aquele amor romanticozinho, pra oficializar que reataram mesmo, sabe? Uma das melhores músicas da Beyoncé em todos os tempos, essa é mais uma participação assertiva do Diplo, que volta a nos lembrar dos seus antigos trabalhos com o Major Lazer, remetendo, inclusive, a canção “You’re No Good”, do álbum “Free The Universe” (2013). “Eles dizem que o amor é a melhor arma para vencer uma guerra causada pela dor.”

“Formation”
Já que é pra tombar, tombey. Por mais que “All Night” soe totalmente fim-de-disco, é “Formation” quem chega pra apagar as luzes, nos lembrando de toda a mensagem de empoderamento negro que Beyoncé quis nos passar com esse disco, por muitos perdida em meio aos versos sobre seu relacionamento, bem como a traição de Jay Z. A faixa, como todos sabem, é o seu chamado para que as mulheres entrem em formação e se preparem para o combate, trazendo também a resposta para muitos questionamentos que a mídia e público em geral tendenciosamente a fizeram ao longo de sua carreira. “Eu devo ser uma versão negra do Bill Gates em construção.”

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“Lemonade” tinha tudo para ser o disco autointitulado de Beyoncé. Mesmo repleto de participações, tanto expostas em sua tracklist quanto pelos bastidores, o álbum faz da cantora a protagonista de sua própria obra, não como uma mera autobiografia, mas, sim, uma maneira dela se autodescobrir, enquanto revela tudo o que encontrou ao público que, até então, jamais tinha visto a cantora numa posição tão honesta quanto às suas histórias mais íntimas.

Escutar esse álbum hoje, nos faz pensar no quanto as coisas mudaram desde o elevador que apareceu na letra de “Flawless”, há dois anos, e comemorar o fato dela encontrar no que poderiam ser suas fragilidades, uma maneira de repensar a sua força, fazer dos limões, uma limonada, e transmiti-la ao seu público, não só como a “cantora Beyoncé”, mas também como a mulher. E mulher negra, que fique registrado. 

É óbvio que o disco fala sobre a traição do Jay Z, bem como todas as fases passadas por ela durante esse conturbado momento do relacionamento, mas essa narrativa é construída de uma forma que Beyoncé projeta nela as mulheres que escutarão ao álbum e, após a sua mensagem ser transmitida, poderão buscar em si próprias o poder que, até então, viam apenas na diva, seja nos palcos ou videoclipes, e aí está o seu empoderamento feminino. Quando ela ressalta ícones da história negra, bem como utiliza diversas referências, não apenas musicais, ela reconhece também a sua posição como uma das maiores artistas que representam essa bandeira na música mundial atualmente e aí está o seu empoderamento negro.

Se antes Beyoncé podia ser lembrada por seus hits, videoclipes e performances de tirar o fôlego, com “Lemonade” ela garante que, antes de qualquer coisa, será lembrada por seu trabalho e a importância que ele assume dentro da cultura pop atual, cada vez mais carente de verdadeiros ícones.
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