O que ninguém te explicou sobre Beyoncé e o caso do “trabalho escravo” com a linha Ivy Park

Beyoncé se tornou o centro das atenções outra vez – e nem conseguimos ficar surpresos.

Dessa vez, entretanto, não estamos falando sobre discos surpresas ou novos álbuns, mas sim algo bem mais sério: estão acusando a cantora de explorar mão de obra barata no Sri Lanka, para a confecção da sua primeira linha de roupas, a Ivy Park.


Segundo o The Sun, os funcionários contratados pela marca da cantora, em sua maioria mulheres, recebem cerca de US$6 por dia, o que é um valor acima do salário mínimo local, que está na faixa dos US$2,68 ao dia, mas denuncia, ainda assim, um incentivo a prática abusiva, que visa aproveitar da situação precária do país e necessidade de seus funcionários, para se beneficiar quanto ao custo benefício, confeccionando peças que serão comercializadas por, no mínimo, US$150. Serving “mais-valia” realness.

O problema, por sua vez, é que basta uma rápida análise de discurso para compreender que, tanto o tabloide quanto os indignados com todo o ocorrido, parecem mais preocupados em simplesmente desmoralizar a imagem de Beyoncé, do que demonstrar qualquer empatia ou preocupação com os funcionários submetidos aos trabalhos abusivos.



Não é de hoje que Beyoncé tem incomodado. A cantora, que lançou nesse ano o disco “Lemonade”, tratando de assuntos como o feminismo negro e a discriminação racial nos EUA, tem sido alvo frequente da mídia internacional, que já se dispôs a questionar dos seus posicionamentos sociais à veracidade da sua gravidez, e sendo ela uma das principais artistas negras da atualidade, com voz para influenciar além do seu público e, atualmente, dando coro para movimentos como o “Black Lives Matter”, essa postura da imprensa só tende a piorar.

Sobre a maneira de trabalho exposta pelo tabloide britânico, não há defesa, de maneira alguma, mas como a própria canta em “Formation”: now let’s get information. Beyoncé, ainda que seja o principal nome por trás da Ivy Park e tenha o poder de escolha quanto ao que quer ou não representar comercialmente, pode ser questionada sobre a tal forma de fabricação das suas peças, mas não deve ser responsabilizada por isso sozinha, se transformando do dia para a noite no ícone da escravidão do século XXI. A cantora, na verdade, é só uma parte de toda essa engrenagem que, no fim das contas, integra todo um sistema que pode ser resumido com uma só palavra: capitalismo.

Sua linha, inclusive, sequer é a verdadeira cabeça por trás do negócio sujo, visto que deriva dos serviços da empresa britânica Topshop que, aí sim, já recebe acusações envolvendo o mesmo teor desde 2007, incluindo um embate com a cantora Rihanna, em 2013, por usarem sua imagem e nome de maneira indevida, dando a entender que ela estava os representando comercialmente de alguma forma.

Fora a responsabilidade da empresa que encabeça esse serviço, também é muito importante ter noção de que a Ivy Park não é a única marca envolvida com essa prática, infelizmente, e na lista das marcas criticadas por esse tipo de trabalho há nomes bastante conhecidos, como a Tommy Hilfiger, H&M, Timberland, Puma, Nike e, saindo da área de vestuário, Apple, Samsung, Nokia, entre outras. Empresas que, nos últimos anos, estiveram ao lado de artistas como Taylor Swift, Miley Cyrus, Drake e Rihanna, só pra citar alguns.

A “it girl” Kylie Jenner se junta, inclusive, aos nomes que trabalham com a mesma empresa que promove a linha de roupas da Beyoncé, mas não escutamos reclamações sobre isso.

No fim das contas, a intenção não é expor o quanto essa prática é frequente, no sentido de naturalizá-la e dizer que está tudo bem, já que vários artistas compactuam com isso, mas sim entender a situação problemática na qual Beyoncé, desde que passou a se posicionar de maneira sociopolítica com a sua música, foi inserida, tornando-se alvo fácil para as menos embasadas especulações, com o explícito objetivo de diminuir seu nome e discurso. Responsabilizá-la pelo ato é ignorância, já que todo o fluxo da indústria e caminho percorrido por suas peças da mão de obra barata do Sri Lanka aos vídeos estrelados pela cantora é bem mais complexo do que se imagina, e se incomodar apenas com ela, quando tantos outros artistas já fizeram coisas parecidas, é ainda pior, por expressar uma clara seletividade – que, por sua vez, pode ser motivada por inúmeras razões, incluindo o nosso racismo e machismo de cada dia, que faz com que muitos se incomodem em ver uma mulher negra se tornando cada vez mais bem sucedida (ela é poderosíssima).

Se esse não é o seu caso e, de fato, você está preocupado com a causa em si e motivado a contribuir pelo fim dessa prática, uma boa maneira de começar a fazer a diferença é boicotando essas grandes marcas. No Brasil, uma ferramenta bastante útil nesse sentido é o aplicativo “Moda Livre”, do coletivo Repórter Brasil, que avalia as principais varejistas presentes no país, com base no seu histórico, transparência e política de trabalho. Só não vale deixar que discursos vazios ofusquem a importância do verdadeiro problema a ser discutido.
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