Album Review: Meghan Trainor e o genialmente preguiçoso disco “Thank You”

Já faz um bom tempo desde a última vez que pudemos ver a música pop sendo totalmente dominada por mulheres talentosas e com suas singularidades, como quando podíamos ter uma saudável disputa pelas rádios e paradas com nomes como Rihanna, Beyoncé, Lady Gaga, Kesha, Katy Perry e Christina Aguilera. Mas enquanto o gênero segue respirando com a ajuda de aparelhos, o que não faltam são novos nomes almejando o topo do mundo e um deles é da Meghan Trainor.

O acontecimento de Trainor ainda é algo recente, de forma que não precisamos ir muito longe para nos lembrar. “All About That Bass” e o divertido discurso antipadrão catapultou a menina para os holofotes, com a promessa de ser uma estrela na contramão daquilo que vivem cobrando das mulheres nesse meio, entretanto, bastou a chegada do seu primeiro CD, “Title”, pra que surgisse também o primeiro problema: ela ainda não sabia como sustentar o personagem poderoso que queria encarnar. E foi assim que ela conseguiu decair da maravilhosa “Bass” para a insossa “Like I’m Gonna Lose You” — pra não falar da terrível “Marvin Gaye”, com o Charlie Puth, que terminou de piorar o que já estava ruim.

Na estreia do seu segundo disco, “Thank You”, Meghan Trainor parecia disposta a começar outra vez. O primeiro single do álbum, “No”, é uma música pop na medida, soando como algo que Britney Spears lançaria pouco antes dos anos 2000, e em mais uma tentativa de encarnar a persona poderosa do disco anterior, retoma o empoderamento de “All About That Bass”, enquanto canta sobre aquele cara que não sabe a famosa hora de parar. Sua sonoridade, logo de primeira, nos causou uma impressão positiva o suficiente pra que decidíssemos perdoá-la pelos erros anteriores e indicava uma clara evolução em seu trabalho, mostrando também uma certa intenção dela se distanciar do material de estreia, o que, definitivamente, seria algo positivo. Mas a história se repete.



Confira nossa resenha faixa à faixa para o disco “Thank You”, da Meghan Trainor:

“Watch Me Do”

“Eu sou do caralho, fica quieto. Tenho feito uma dieta com menos haters”, começa Meghan Trainor em “Watch Me Do”, com um funk inspirado no James Brown e bastante familiar para as rádios que abraçaram “Uptown Funk”, do Mark Ronson e Bruno Mars. Servindo como uma introdução, a música parece cumprir uma ponte entre a sonoridade retrô do álbum “Title” e a promessa pop de “Thank You”, mas entedia pelo excesso de repetições.

“Me Too”

Primeira novidade real, “Me Too” salta para os dias atuais sem olhar para trás, com um pop ágil, eletrônico e borbulhante, ganhando em sua ponte os característicos “vocais de girlband” da cantora, que faz seus próprios backing vocals. Reforçando a autoconfiança timidamente apresentada na música anterior, ela afirma em seu refrão: “Se eu fosse você, também iria querer ser eu”, com um empoderamento que beira o egocentrismo. Uma lembrança inevitável com essa faixa é “Trouble For Me”, do disco “Femme Fatale”, da Britney Spears.



“No”

Britney Spears, que chega acenando em “Me Too”, é oficialmente invocada em “No”. O primeiro single do álbum é uma das músicas mais interessantes de todo o registro, com um pop noventista que nem a própria Britney seria capaz de reproduzir com tanta perfeição, enquanto Trainor, em sua fase mais confiante do que nunca, deixa o recado para os caras que não sabem a famosa hora de parar. “Todas minhas garotas, ouçam bem! Se esse cara não estiver desistindo, molhe seus lábios e rebole. Garota, tudo o que você precisa dizer é: meu nome é não, meu signo é não, meu número é não. Você precisa dar um fora.”

“Better”

O reggae com tropical house do Justin Bieber se encontram em “Better”, que poderia facilmente pertencer a Selena Gomez. Longe da balada de “No”, essa música fala sobre um relacionamento que ela percebeu não ser o suficiente para ela, afirmando: “Eu fui avisada, mas me deixei enganar pelo encanto. Você merece ficar sozinho e eu mereço algo melhor, melhor que você”. Um tiro doeria menos.

“Hopeless Romantic”

A peteca cai nessa faixa. Quase acústica, “Hopeless Romantic” traz uma letra pegajosamente clichê, sendo uma provável alternativa de zona segura para o caso dos singles do disco não funcionarem bem, comercialmente falando. Não chega a ser ruim, mas não acompanha o ritmo do disco, soando deslocada em meio ao conjunto. “Eu sou apenas uma romântica sem esperança atrás do amor”.

“I Love Me”

Desde a primeira vez que ouvimos o disco, ficamos numa história de amor e ódio com “I Love Me”. Com participação do Lunchmoney Lewis, a música repete o feito de “Watch Me Do”, quanto a dialogar com o álbum “Title”, enquanto carrega o peso de autoconfiança do álbum atual por versos como “eu não sei você, mas eu me amo”. Sua sonoridade toda inspirada por uma vibe meio “doo-woop” é contagiante, mas deixa a impressão de ser uma música do Lunchmoney com a Meghan e não o contrário. Kanye West amaria essa letra como ama a si mesmo.

“Kindly Calm Me Down”

A baladinha “Kindly Calm Me Down” ficou mal situada na tracklist, mas é uma das nossas favoritas do disco. Ao contrário de “Hopeless Romantic”, a música consegue falar sobre amor sem soar clichê, testando metáforas entre o sentimento e a música, com uma batida que cresce gradualmente, até alcançar algo verdadeiramente épico. Se não estivesse no disco, poderia ser vendida para a Katy Perry. “Se eu precisar de você agora, você gentilmente me acalmaria?”



“Woman Up”

A introdução dessa nos engana, sugerindo algo semelhante ao flerte com o trap que ela fez em “Bang Dem’ Sticks”, do disco anterior, mas parte para uma proposta bem menos ousada e, ainda assim, bastante interessante. O que não conseguimos entender é o que essa música, originalmente lançada pela Ashley Roberts, no disco “Butterfly Effects” (2014), está fazendo aqui. “Pra manter sua cabeça erguida, como a Madonna faria, borre seu batom mais vermelho do que vinho.”

“Just A Friend To You”

MY NAME IS NO.

“I Won’t Let You Down”

Música em potencial para a nossa playlist de “Músicas tipo ‘Sorry’”, o reggae pop de “I Won’t Let You Down” é infalível. Na sua letra, Trainor volta a olhar para a pessoa que ama (e nem estamos falando de si mesma), reforçando as semelhanças com o smash hit do Justin Bieber, enquanto canta: “Então de hoje em diante, eu não vou te decepcionar. Vou corrigir meus erros e te orgulhar. Porque eu cometi erros, provavelmente mais do que eu possa contar, mas, de hoje em diante, não vou mais te decepcionar”. 

“Dance Like Yo Daddy”

Esquecida num churrasco pelo “Title”, “Dance” consegue misturar a fórmula retrô do seu álbum de estreia com algo que provavelmente encontraríamos o Black Eyed Peas fazendo em 2005, com uma letra em que, de maneira bastante despretensiosa, ela coloca em prática os conselhos de seu pai. “Se você for se importar com o que eles pensam, não poderá se divertir”.

“Champagne Problems”

Com a mesma intenção de se divertir da música anterior, a tropical house “Champagne Problems” trata dos “first world/white” problems dela, que se atrasou pra sair com os amigos porque o Uber demorou, tá com os pés doendo por causa do sapato, esqueceu a jaqueta em casa, tá com o wi-fi falhando e o iPhone travando quando precisa responder uma mensagem, mas tira uma lição disso: “A vida é curta demais, então eu não posso reclamar”. A metáfora envolvendo a champanhe é para mostrar que seus problemas são tão pequenos, que ela pode simplesmente colocá-los em um copo e bebê-los. “Então encha um copo e vamos beber meu drink de problemas”. Essa é, surpreendentemente, uma das melhores músicas do disco.



“Mom”

Se em “Ain’t Your Mama”, que ela compôs para a Jennifer Lopez, Trainor acha que a mãe do cara precisa fazer todas as tarefas de casa, na sua música com referências maternas, ela é bem mais positiva, dedicando toda a faixa à elogios para a sua mãe, Kelli Trainor, que aparece nos créditos da canção, por conta da gravação de uma conversa por telefone entre as duas. Queríamos achar tudo isso muito lindo, mas, na verdade, é mais brega do que nunca. Ela podia ter guardado e mandado apenas para a mãe dela, não poderia?

“Friends”

Nessa altura do campeonato, ela já perdeu completamente o fio da meada. O disco começa com letras de empoderamento, pende para um sentimentalismo barato, salvo por outras mais despretensiosas, e vai da ousadia de “aprenda comigo como se faz” (“Watch me do”) para a melosa “eu sei que estamos prestes a ter um bom momento, porque eu tenho todos os meus amigos comigo”. No, no, no.

“Thank You”

E se você escutou o disco até aqui, ela te agradece. A faixa-título do álbum é também a última do registro e, com participação do R. City, traz mais uma amostra do dancehall que tomou conta das rádios nesse ano, com artistas como Bieber, Rihanna e Drake. Desta vez, a cantora consegue dosar o sentimentalismo, fazendo da música uma homenagem aos seus fãs, mas de uma forma que realmente não nos incomodaríamos em ouvir — e dançar — outras vezes. Fora do contexto “de cantora para seus fãs”, a música também funciona como uma gratidão por um bom relacionamento. “Sem você eu não seria nada. Eu quero te agradecer”. Não há de quê, Meghan.

***

Em suma, “Thank You” não é um disco necessariamente ruim, mas, sim, fraco. Sua heterogeneidade, ainda que garanta faixas que, na sua maioria, funcionam bem sozinhas, peca por torná-lo um álbum divertido, mas desconexo, repetindo o erro que ela também cometeu no seu disco de estreia, de não sustentar a sua proposta inicial, com uma variedade de discursos que vão do amor próprio ao sentimento pelo próximo e se perdem no meio do caminho. 


Com composições que vão do genialmente bem feito (“No”, “Kindly Calm Me Down” e “Champagne Problems”) ao ápice da sua preguiçosa zona de conforto (“Hopeless Romantic”, “Just A Friend To You”, “Mom”), Trainor também nos confunde com a sua ideia de autoconfiança, que, neste disco, beira o narcisismo e, em alguns momentos, nos dá a impressão de que, na verdade, ela quer convencer a si mesma e não seus ouvintes. A gente reconhece o seu esforço e provavelmente ouviremos algumas dessas novas canções outras vezes, mas falando do disco como um todo, nós agradecemos, mas hoje não.

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