Album Review: “The Life of Pablo”, de Kanye West, realmente é um dos melhores álbuns de todos os tempos

“Me dê o nome de um gênio que não seja louco”, te desafia Kanye West em “Feedback”, do seu novo disco, “The Life of Pablo”. A linha entre o genial e insano é bem tênue e, como você deve saber, o rapper entende muito bem disso.

Sendo um dos maiores ícones pop dentro do hip-hop, Kanye West nos apresenta seu sétimo álbum solo e, desta vez, com um peso midiático maior do que em toda a sua carreira. É claro que razões para isso não faltam. Pra começo de conversa, Kanye West é o marido da indescritível Kim Kardashian e vem de um histórico de coleções, discussões e polêmicas, do MTV Video Music Awards em que foi homenageado e precisou rever o episódio em que humilhou Taylor Swift dentro da própria premiação ao verso do novo álbum, no qual afirma que ela devia transar com ele por tê-la tornado famosa.



Toda essa proposta midiática problemática, entretanto, continua não sendo o suficiente para eclipsar o seu legado na música e, por mais que ainda tenhamos pontos para questionar, como a misoginia nos versos sobre Taylor Swift, bem como a maneira que trata outras mulheres em outras letras, incluindo sua esposa e sua ex-namorada, Amber Rose, é inegável que ‘Ye seja um dos maiores produtores da atualidade, além de um dos rappers mais dispostos a fugir do seu nicho, enquanto apenas soma mais referências e inspirações para esse meio.



O lado visionário de Kanye West sempre foi a chave para o seu sucesso. Se deixarmos de lado, pelo menos por alguns momentos, o ego e confiança que o autossabotam na maior parte do tempo, o que temos é um produtor à frente do dos dias atuais e que, só pra citar um exemplo, foi alvo de críticas por trocar suas rimas por versos cantados no disco “808s & Heartbreaks” (2008), para assistir em 2016 um outro rapper emplacar um hit praticamente todo cantado. Sim, nós estamos falando de você e sua “Hotline Bling”, Drake.



Outra característica marcante de West é o seu gosto para reinvenções de si próprio, o que tornou sua carreira uma trajetória de inúmeras facetas, fazendo com que dificilmente consigamos comparar seus últimos dois álbuns, “Yeezus” e “My Beautiful Dark Twisted Fantasy”, seja entre eles ou em relação à qualquer outro de sua carreira. E analisando calmamente, até isso parece ter sido um ponto na construção desse novo disco, que pode soar como um greatest hits aos desavisados, como se ele teletransportasse “The Old Kanye” ao mundo de “Yeezus” e fizesse com que ambos unissem sua inegável genialidade para o que o próprio descreveu como “um dos melhores álbuns de todos os tempos” — ênfase para “um dos...”, ele pede.



“The Life of Pablo”


“Ultralight Beam”

Por mais controversa que seja sua figura, Kanye West inseriu muitas vezes um contexto religioso em suas canções e, de “Jesus Walks”, em seu álbum de estreia, “The College Dropout”, ao questionável “Yeezus”, falou —e , de certa forma, brincou — bastante com o cristianismo. Em “The Life of Pablo” não foi diferente.

Quando anunciou seu sétimo álbum, anteriormente chamado por “So Help Me God”, “SWISH” e “Waves”, Kanye West fez mistério quanto ao Pablo que o inspirou nesta fase. Picasso? Escobar? A dúvida até fez parte da capa do álbum, que diz, “The Life of Pablo/Which One? Which One?” (“A vida de Pablo/Mas qual deles? Qual deles?”), e foi pelo Twitter que ele respondeu ao seus fãs: Pablo era, na verdade, Paulo, o apóstolo bíblico. Dito segundo homem mais importante da história do cristianismo, abaixo apenas de Jesus Cristo, e, como o próprio Kanye afirmou em seu Twitter, “o mensageiro mais poderoso do primeiro século”.

Na mesma rede social, ‘Ye disse que “The Life of Pablo” era um álbum gospel e, julgando por sua faixa de abertura, podemos afirmar que ele não mentiu. “Ultralight Beam” traça um paralelo entre o Pablo de Kanye e o Paulo da bíblia, enquanto sua “ultralight beam” faz uma alusão à forma que Deus se apresentou ao apóstolo: por meio de uma grande luz brilhante, que o cegou por três dias — coincidência ou não, mesmo tempo que Kanye West levou para lançar o álbum oficialmente, passada a estreia no Madison Square Garden, em Nova York.

Aberta por samples de uma oração feita por uma criança, que grita para manter longe os demônios, “Ultralight” caminha por algo orquestrado aos mínimos detalhes, enquanto Kanye West varia entre cantar e rimar, dividindo espaço com muitos outros samples, que constroem uma canção heterogênea, mas épica em todos os sentidos. Amém, ‘Ye.

“Father Stretch My Hands Pt. 1”

Enquanto “Ultralight”, literalmente, faz “Pablo” parecer um disco gospel, “Father” começa a traçar um paralelo dúbio bastante esperado no disco. A música começa com o sample de um pastor, que canta “você é o único que tem o poder de mudar, Pai” e, em questão de segundos, o que temos é Kanye West falando sobre as dúvidas que teve antes de ir para cama com Kim Kardashian. “E se eu foder essa modelo e ela tiver clareado seu ânus? E se esse clareamento pegar na minha camiseta? Eu vou me sentir um idiota.”

Idiota, “asshole” em inglês, é usado para brincar com esse termo e o tal clareamento, geralmente utilizado por pessoas que tentam igualar a cor ao redor do seu ânus com o restante da pele. O que não é algo que você esperaria encontrar numa resenha de um disco, sabemos. 

Musicalmente falando, essa é a primeira vez que “The Life of Pablo” encontra a sonoridade do “Twisted Fantasy”, com um arranjo que, se não fosse por sua letra tão explícita, facilmente ganharia as paradas.

“Father Stretch My Hands Pt. II”

Numa sonoridade bem mais agressiva que a parte anterior, a sequência de “Father” parece sair do disco “Watch The Throne”, com uma letra mais pessoal, na qual Kanye West relaciona o “pai” da igreja com seu próprio pai, Ray West, que se divorciou da sua mãe aos seus três anos, por sempre colocar o trabalho na frente da família.

Agora que é pai da North e Saint West, Kanye não quer repetir os erros de seu pai e, em seus primeiros versos, compara a atitude dos dois, por conta das vezes que esteve tão ocupado que mal pôde fazer uma ligação. “Eu te avisei, eu te avisei. Acordei de manhã e senti tanto a sua falta. Me desculpe por não ter retornado a sua ligação. O mesmo problema que meu pai tinha.”

“Famous”

“Cara, eu entendo o quão difícil deve ser amar uma garota como eu. Eu não te culpo muito por querer ser livre. Só queria que você soubesse”, canta Rihanna nesta faixa. Os versos, entretanto, são de “Do What You Gotta Do”, da Nina Simone, mas caíram perfeitamente bem nos vocais da barbadiana, combinando bastante, inclusive, com sua fase atual, na qual procura por seu trabalho atemporal.

A sonoridade de “Famous” torna a música um clássico em potencial para a carreira de ‘Ye e, se tratando de uma conversa direta dele com a sua fama, tem muitos motivos para, de fato, se tornar um. Essa também é a música do polêmico “eu acho que eu e Taylor Swift deveríamos transar / Eu tornei essa mina famosa”, pelo qual Kanye West recebeu inúmeras críticas assim que o disco foi lançado. 

A ideia de Kanye é tomar o crédito pelo atual sucesso de Taylor Swift, que talvez tivesse tido menos destaque naquele VMA de 2009, quando ganhava seu primeiro prêmio e foi surpreendida pelo rapper e sua insatisfação em ver Beyoncé sair sem o prêmio por “Single Ladies”. Se não houvesse aquele momento, as coisas teriam sido diferentes para ela? E para ele? Seja como for, a maneira como ele expõe isso na música é a pior possível, em nada se assemelhando a genialidade que ele aplica ao ironizar si próprio em “I Love Kanye”, que comentaremos mais abaixo, por exemplo.

Ao longo de sua carreira, Kanye foi contra muitos padrões do hip-hop, incluindo cantar, usar auto-tune, se juntar com artistas pop frequentemente, entre outras coisas, de forma que esse seria um bom momento para ele ir contra a misoginia tão naturalizada no gênero também. Wake up, Mr. West!

“Feedback”

As reflexões de Kanye West sobre a fama continuam em “Feedback”. Numa sonoridade facilmente comparável aos trabalhos do disco “Yeezus”, a faixa fala sobre o dinheiro não comprá-lo e, de maneira bastante agressiva, relembra versos do seu segundo álbum, “Late Registration”, enquanto se diz “a Oprah do gueto” e, desta vez, dá um novo sentido ao seu Pablo —qual deles? Se comparando ao Pablo Escobar, um dos maiores traficantes de cocaína de todo o mundo, afirmando, “parece que quanto mais fama eu conquisto, mais selvagem eu fico”.

Como parece ter se reencontrado musicalmente, após o experimental “Yeezus”, ‘Ye fala sobre ter ficado “sem cabeça” por algum tempo, mas como ele canta na música anterior, agora está acordado.

“Low Lights”

Passados os sintetizadores de “Feedback”, o disco dá uma acalmada ao som do testemunho de “Low Lights”. A música é toda ao piano, com leves toques eletrônicos entre seus versos, mas sem qualquer aparição de Kanye West, sendo totalmente levada por um sample de “So Alive”, da Sandy Rivera.

“Você quer que eu te dê um testemunho da minha vida e o quão bom Ele tem sido pra mim”, começa a mulher. Kanye afirmou que manteve essa canção no álbum pra que as mães ouçam enquanto levam seus filhos à escola, quase como se fosse um momento mais apropriado do que ele disse ser um “álbum gospel”. Funciona como uma interlude para o segundo ato do disco.

“Highlights”

“Diga para a minha mãe que agora eu quero que toda a minha vida seja feita de grandes momentos.” Com participação do Young Thug, “Highlights” funciona perfeitamente bem na sequência de “Low Lights”, prosseguindo com os pensamentos de Kanye que, desta vez, está mais positivo do que nunca.

A música começa com um exagero de samples, mas cai para algo mais simples e linear, sob uma batida que nos segue ao longo da produção. “Nós só faremos grandes momentos”, canta ele e o rapper em seu refrão. “Avisem minha querida que eu estou de volta à cidade.”

Nessa faixa, a positividade dele é tanta que, num dos versos, ele até arrisca falar sobre Ray J, ex com quem Kim Kardashian teve uma sex tape vazada, afirmando, “eu aposto que eu e Ray J teríamos sido amigos se não amássemos a mesma garota.”

“Freestyle 4”

Yeezus volta a aparecer em “Freestyle 4”. A música é toda desorganizada, enquanto ele, quase que literalmente, solta tudo o que vem a mente, como se estivesse sob o efeito de alguma droga. Nos versos, ele vai de uma tentativa de sexo fácil num local público — no qual a mulher tenta se aproveitar, cobrando um preço alto para fazer sua vontade — às possibilidades do que aconteceria caso ele e Kim Kardashian tivessem transado na frente de todos na festa da Vogue, em outubro do ano passado. “Será que todos começariam a transar?”

Perto do fim da canção, ‘Ye parece bastante perdido em suas próprias alucinações e, justamente quando afirma que pode “cantar sobre isso”, o rapper Desiigner assume os versos da música. “Eu estou com os caras que deveriam estar do seu lado agora.”

“I Love Kanye”

A música mais genial do disco. Se Kanye West não soube criticar a Taylor Swift em “Famous”, reproduzir os comentários negativos sobre si mesmo parece uma tarefa fácil em “I Love Kanye”.

Com apenas alguns segundos, a música é uma interpretação dele para os que criticam seu trabalho atual, dizendo que sente falta “do velho Kanye”, e em um dos versos, ele fala sobre o quão Kanye West seria ver o Kanye West lançando uma música em que fala sobre sentir falta do velho Kanye West. Hahah. “Olha só, eu inventei o Kanye. Antes não tinha nenhum Kanye. E agora eu olho ao redor e vejo vários outros Kanyes. (...) Isso é tudo o que o Kanye era. Nós continuamos amando o Kanye. E eu te amo como o Kanye ama o Kanye.”

Isso é tão Kanye.

“Waves”

Uma redenção do Kanye West ou do Chris Brown, que canta em seu refrão? Com a mesma grandiosidade que encontramos no “Twisted Fantasy”, essa música por pouco não fez parte do álbum, ainda que tenha sido seu título temporário por algum tempo. Seu lugar na tracklist foi garantido graças ao Chance The Rapper e, ainda que seja uma colaboração questionável, temos muito a agradecê-lo, já que é um dos maiores momentos do disco.

Bem mais radiofônica que as canções anteriores, “Waves” fala sobre as incapacidades que temos ao sermos limitados (“o sol não brilha na sombra / um pássaro não pode voar numa gaiola”), enquanto Brown parece bem positivo ao falar sobre as ondas que não morrem. “Me deixe ficar aqui por um tempo. Eu nem preciso dominar isso.”

“FML”

Toda essa postura aparentemente inquebrável de Kanye West é facilmente questionável quando ele é colocado sob pressão, como foi o caso em que precisou explicar os versos sobre Taylor Swift em seu Twitter ou quando, na mesma rede social, discutiu com Wiz Khalifa. Sua confiança, no fundo, pode esconder a necessidade de não expor suas inseguranças, justamente pelo fato de que, quando se está numa posição como a dele, mostrar suas inseguranças te torna vulnerável — Amy Winehouse e Britney Spears são alguns dos exemplos que não nos deixam mentir.

Ao lado de The Weeknd, com quem também trabalhou no disco “Beauty Behind The Madness”, ‘Ye apresenta um R&B alternativo, bem próximo da sonoridade do próprio Abel, mas com diversas singularidades aplicáveis a sua própria discografia. Falando de sua esposa e sua filha, North West, Kanye afirma, “Eu vou morrer por aqueles que eu amo.”

Weeknd, que também se diz autodestrutivo em seu disco (“Real Life”), parece brincar com isso no refrão, já que não sabemos sobre quem ele está cantando —ou talvez seja isso algo em comum entre os dois. “Eles queriam que eu fosse em frente e fodesse com a minha vida. Não posso deixar eles me atingirem. E mesmo se eu estiver sempre fodendo minha vida. Só eu posso falar de mim.” Uma das melhores e mais pessoais composições do disco.

“Real Friends”

Se a sonoridade de “Pablo” resgata o que Kanye fez em toda sua carreira, suas letras também servem como uma boa reflexão para a mesma coisa. Em “Real Friends”, com participação do Ty Dolla $ign, ‘Ye olha para trás para pensar em quem são seus verdadeiros amigos. “Não são muitos de nós. A gente sorri um para o outro, mas quantos fazem isso honestamente?”

A música mantém a proposta mais melódica investida desde a parceria com Chris Brown e, se escutá-la atentamente, é possível perceber um sample que parece antecipá-la para a música seguinte.

“Wolves”

Dois anos antes de sua polêmica com a Taylor Swift no VMA, Kanye West lidou com o falecimento de sua mãe, pouco tempo depois de lançar o disco “Graduation” (2007), e no ano seguinte à treta com a cantora, também enfrentou a separação com Amber Rose, que o deixou mal ao ponto de pensar no suicídio.

Como ele contou numa entrevista para a Ellen DeGeneres, Kim Kardashian foi a amiga que o consolou, até que eles se aproximassem o suficiente para chegar na história que conhecemos hoje, e, passados tantos acontecimentos, os pensamentos e sentimentos de ‘Ye ficaram bastante confusos.

Em versos curtos, objetivos, ele e Frank Ocean exploram todos esses altos e baixos em “Wolves”, que foi inicialmente pensada —e apresentada — como uma parceria entre Kanye, Sia e Vic Mensa. O arranjo pulsante é contido, quase inexpressivo, dando destaque para as falas diretas, e o verso mais importante fica na voz de Ocean, que conclui em seus segundos finais: “a vida é preciosa. Nós descobrimos isso. Nós descobrimos isso.”

“Silver Surfer Intermission”

Antes de se chamar “The Life of Pablo”, o álbum de Kanye West ganhou muitos títulos e um deles, “Waves”, despertou a insatisfação de Wiz Khalifa, que acusou West de roubar uma expressão que sequer o representava, do rapper Max B. Os dois discutiram feio e, nessa conversa, West ironizou o fato de Khalifa cobrar satisfações sobre algo que não tinha nada a ver com ele, mas ninguém melhor do que o próprio Max B para falar se Kanye pode ou não usar sua expressão.

Eis que, em “Silver Surfer Intermission” (“Interrupção do Surfista Prateado”, GENIAL!), o que temos é um recado deixado por Max B pelo telefone —diretamente de um presídio —, em que ele saúda Kanye West e se diz honrado em tê-lo usando o termo “wave”. Um 7x1 para o Kanye West, Wiz Khalifa.

“30 Hours”

“Minha ex disse que me deu os melhores anos da sua vida. Bem, eu vi uma foto recente dela e acho que ela tá certa”, diz Kanye West sobre Sumeke Rainey, com quem namorou por sete anos, até 2004. O título da música é uma referência ao tempo que ele levava para dirigir de Chicago até Los Angeles, fazendo a rota do estúdio à casa de sua amada.

O arranjo dessa nos lembra dos seus primeiros trabalhos, com o disco “The College Dropout” e “Late Registration”, enquanto o sample ao fundo reforça a mensagem: “e eu continuo dirigindo por trinta horas.”

“No More Parties In LA”

Essa é a primeira vez que Kanye West se junta ao Kendrick Lamar, que é o mais próximo do que temos dele no hip-hop atual e, não por mera coincidência, a sonoridade desse encontro tão inusitadamente desejado consiste numa fórmula que se assemelha tanto à sofisticação dos discos de Lamar, “good kid, m.A.A.d city” e “To Pimp A Butterfly”, quanto aos dois primeiros de West, o que apenas reforça as semelhanças artísticas entre os dois.

Na sua letra, os dois expõem os problemas da elite de Hollywood, e Kanye, agora sendo um pai de família, se vê sob a impossibilidade de sair curtindo festas por aí. 

Dois pontos interessantes sobre a canção: seu refrão foi composto durante as sessões do “My Beautiful Dark Twisted Fantasy” e, se você escutar a faixa prestando atenção, é possível perceber o elogio indireto de Kanye West ao Kendrick Lamar, quando o rapper solta um “assustador! Assustador!” logo após os versos que fizeram em conjunto.

Segundo Kanye West, há pelo menos quarenta músicas prontas produzidas pelos dois. Seria nosso sonho querê-las entre nós o quanto antes?

“Facts (Charlie Heat Version)”

E tava tudo calmo demais, né? “Facts” não era planejada para o “Pablo”, mas integrou o disco numa última hora, após os vários pedidos dos fãs de Kanye West. A versão do disco, entretanto, foi reformulada em relação à primeira, lançada pelo Soundcloud, e por isso ganhou os créditos extras ao produtor Charlie Heat, que redesenhou todo seu arranjo e a finalizou como podemos ouvir agora.

A proposta crua e explosiva de “Facts” volta a nos remeter ao “Yeezus”, enquanto ‘Ye fala sobre seus grandes números com a Adidas e não economiza nos shades à marca concorrente, Nike, com menções aos rappers que trabalham com ela, Drake e Don C. Fazendo referência ao seu discurso no VMA de 2015, West volta a falar sobre sua suposta candidatura a presidência dos EUA em 2020, garantindo: “eu vou dominar toda a eleição”. Se cuida, Donald Trump!

“Fade”

Se Kanye West estivesse no “ANTI”, da Rihanna, e substituísse Drake no primeiro single do disco, “Work”, nós iríamos adorar escutar essa canção na sequência da colaboração. Encerrando o álbum de maneira inusitada, Kanye West vai das batidas e versos agressivos de “Facts” para a dançante e anti-romântica “Fade”, na qual fala sobre um amor distante que vai sumindo aos poucos.

São muitos os samples nesta canção, sendo os principais “I’m Losing You”, da banda Rare Earth, e “Deep Inside”, do Hardrive, e ainda que sejam essas músicas marcadas pelos anos 60 e 70, o arranjo como um todo se encaixa muito bem no que estão tocando nas rádios atuais, da recente “Work” da Rihanna ao tropical house do Justin Bieber com “Sorry”, o que é bem corriqueiro em toda a discografia de Kanye, que não apenas utiliza samples, como os reinventam para o contexto atual.

A faixa traz participações de Ty Dolla $ign e Post Malone e, talvez pela proposta mais comercial, é uma boa aposta para ser um dos singles do disco —além de ser uma das nossas favoritas em todo o álbum.

***

Escutar “The Life Of Pablo” sem conhecer os discos essenciais da carreira de Kanye West pode ser uma experiência confusa. Com toda sua variedade de ritmos e gêneros, o álbum capta o melhor de tudo o que o rapper nos apresentou até hoje (o senso explorador de “The College Dropout”; as auto-reflexões do “Late Registration”; o pop do “Graduation”; vulnerabilidade do “808s & Heartbreaks”; grandiosidade e sofisticação do “My Beautiful Dark Twisted Fantasy” e agressividade do “Yeezus”) e, nesta altura do campeonato, soa quase como um aviso dele aos que falavam sobre esperar para ouvi-lo apresentando algo tão bom quanto o “My Beautiful Dark Twisted Fantasy” outra vez.

É claro que ‘Ye não é o mesmo de anos atrás e, neste tempo, muitos acontecimentos marcaram sua vida, dentro e fora dos holofotes, mas a maneira como todo “The Life of Pablo” é conduzido nos prova que ele se entende com a sua loucura e, na realidade, se esforça pra que consigamos ver através de seus olhos também. Kanye, que já se disse Yeezus, hoje é Pablo. Paulo. E enxergando-o por essa perspectiva, ficamos com a ideia de tê-lo tentando cumprir a sua missão, entregar a sua mensagem.

Nesse meio tempo, Kanye também tem um pouco de Pablo Escobar. O traficante e inconsequente, que domina uma das maiores redes de drogas de todo o mundo e ostenta seus lucros. Odiado e invejado. Errado e aclamado. E todo seu perfeccionismo, sua dificuldade em transformar seus pensamentos numa obra compreensível e obstáculos impostos por si próprio, seja no passado ou dias atuais, também o torna outro Pablo. O Picasso, o artista. Mas Kanye é Kanye. Kanye West.

Em seu Twitter, o rapper afirmou que “The Life of Pablo” é um dos melhores álbuns de todos os tempos e que não espera menos do que um Grammy de ‘Disco do Ano’ por sua grande produção. Isso, sem dúvidas, é algo bem Kanye para se dizer, mas ele não poderia estar mais certo. Quem crê, diga ‘amém, Kanye West’.
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