Album Review: o deslumbramento de Rihanna diante do desconhecido com “ANTI”

Rihanna é uma das maiores artistas femininas da década e, desde seu álbum de estreia, “Music of the Sun” (2005), conseguiu nos entregar cerca de sete anos ininterruptos de hits atrás de hits, o que, sem dúvidas, também a consagrou como uma das melhores hitmakers da atualidade.

Mas algo curioso aconteceu. Como de praxe na indústria, muito do que Rihanna vinha nos apresentando passou a dar créditos para outros artistas, no geral, masculinos, e, do “Talk That Talk” para cá, o que tínhamos eram nomes como Calvin Harris e David Guetta levando os créditos pelo seu trabalho, além de outros compositores, como Ester Dean e a Sia, que escreveu “Diamonds”.

Nessa maratona de álbuns lançados anualmente, além da pressão de, o tempo todo, superar o sucesso anterior, os lançamentos da barbadiana começaram a soar um pouco repetitivos, até preguiçosos diríamos, e em algum momento, seja fã do seu trabalho ou não, você se cansaria desse “pop fast-food”. E foi isso que a motivou a buscar por pratos mais refinados.



Eis que, após uma inacabável espera, Rihanna surgiu com seu oitavo disco, “ANTI”, e uma proposta nada previsível, que aplicava a sua sonoridade uma tentativa de fugir de absolutamente tudo o que esperávamos dela. Uma “contra-era”. Um nado contra a maré. E totalmente coordenado pela própria que, pela primeira vez, assina a co-composição e produção executiva de todo o álbum.

Para a barbadiana, esse é o seu disco para fazer história. Depois de tanto tempo correndo atrás das paradas, ela passou anos em estúdio, na busca por seu “álbum atemporal”, trocando as fórmulas batidas dos “Calvin Harris e David Guettas” por algo mais classudo, inesperado, e nesse esforço para nos surpreender, até abriu mão dos primeiros singles do disco, a parceria com Paul McCartney em “FourFiveSeconds” e a explosiva “Bitch Better Have My Money”, mas nessa procura pelo novo, ficamos na dúvida se a própria não esqueceu de se encontrar, independente de estar ou não acompanhada por seus sucessos.

“ANTI” é um álbum sobre rompimentos, em todos os sentidos, e o primeiro dele é o artístico, quando Rihanna, na canção que abre os trabalhos do material, indaga, “Por que você não me deixa crescer?”. A parceria com a britânica SZA, em “Consideration”, é uma canção inicialmente confusa, mas que depois entrega sua fórmula propositalmente desregrada, se assemelhando ao que escutamos com a Willow em seu álbum de estreia, “ARDIPITHECUS”, mas com uma ousadia que só poderia pertencer à Riri. “Me deixe cobrir suas merdas com glitter, posso transformar isso em ouro”.



Em “James Joint”, a cantora assume preferir fumar maconha do que respirar, enquanto, numa interlude fora de hora, quebra o ritmo inicial do disco, como se nos preparasse para algo mais melódico. E a suspeita se confirma na faixa seguinte, a produção do John Glass em “Kiss It Better”, que nos faz imaginar fumaças subindo ao nosso redor, enquanto nos sentimos dentro de um karaokê dos anos 90, cantando algumas daquelas músicas românticas — e extremamente bregas — da época.

O primeiro single do álbum, a parceria com Drake em “Work”, é uma tentativa deles repetirem “What’s My Name”, do álbum “Loud”, mas sem muito sucesso. A música não é ruim, sendo, inclusive, uma das poucas realmente radiofônicas no registro, mas não se esforça para nos conquistar, senão por suas incessantes repetições, com os vocais da cantora e rimas do rapper chegando a soar preguiçosos demais para dançarmos ao seu som.



Por mais que não traga Kanye West em sua versão final, o “ANTI” mantém a alma do rapper, que era seu produtor executivo, em algumas de suas faixas, e “Desperado” é uma delas. Mais agressiva do que qualquer coisa que escutamos até aqui, a faixa fala sobre os romances perigosos, que ela sempre se mostrou tão disposta a investir, enquanto ela propõe fugir com seu amor, só para não enfrentar sozinha a solidão. É o primeiro grande momento do disco.

“Woo”, composta por The Weeknd e outras seis pessoas, soa como uma descartada do seu “Beauty Behind The Madness”, com riffs de guitarra que nos remetem ao hit “The Hills”, além de uma frieza bastante característica do cantor, enquanto Rihanna parece não se incomodar em tocar na ferida do seu ex, afirmando: “Eu aposto que ela nunca te fez chorar, porque as feridas que você tem em seu coração ainda são minhas. Me diga que ela sequer pode ir tão longe. Ela pode ser quase uma versão piorada de mim, mas é uma pena que esteja apenas mastigando os seus sonhos.”

E a confiança dela segue intacta em “Needed Me” que, sob um trap mais tradicional, provoca um ex-namorado outra vez. “Mas querido, não me leve a mal. Você era só mais um na minha lista. Tentando corrigir os seus problemas com uma vadia. Eles não te contaram que eu era uma selvagem? Que se foda seu cavalo branco e carruagem. Eu aposto que você nunca imaginou isso, mas eu não te disse que poderia me ter. Você precisava de mim. Para sentir um pouco mais e dar um pouco menos, você precisava de mim. Sei que odeia confessar, mas, querido, você precisava de mim.”



Caindo para o trip-hop, assim como ouvimos com a Sia em “Elastic Heart” ou Lana Del Rey em “High By The Beach”, “Yeah, I Said It” é a única produção do Timbaland nesse álbum e, definitivamente, uma de suas músicas mais sexuais, enquanto ela relembra tudo o que pediu para um cara, o que inclui “estar dentro”, “matá-la”, “ir devagar, mas por completo”, “colocá-la contra a parede” e até mesmo “levar tudo isso para casa com um vídeo em seu celular”. “Sim, eu disse isso. E que se foda os títulos. Eu disse isso.”

Uma das maiores surpresas dentro do disco, “Same Ol’ Mistakes” é um cover da banda de rock alternativo, Tame Impala, para a música “New Person, Same Old Mistakes”, do álbum “Currents”. Tratando de todos os rompimentos pensados no “ANTI” de Rihanna, as interpretações com essa canção dentro do álbum podem ser diversas, mas, no geral, a linha principal é quanto a ela assumir seguir uma nova direção, ainda que corra o risco de repetir os mesmos erros. 



Seu arranjo é exatamente o mesmo do álbum do Tame Impala, apenas substituindo o vocalista da banda pela voz de Rihanna, o que torna a proposta ainda mais ousada e louvável, uma vez que os vocais da barbadiana casaram perfeitamente com algo tão distante da sua zona de conforto.

Com lembranças de “Thank You”, da Dido, “Never Ending” é mais um dos grandes momentos do disco, mostrando uma evolução que Rihanna vem explorando em baladinhas desde “California King Bed”, mas com cordas que, facilmente, poderiam dividir espaço com a parceria dela com Kanye West e Paul McCartney em “FourFiveSeconds” em sua tracklist. Passados tantos términos e recomeços, essa é uma faixa mais reflexiva, enquanto, com toda sua tranquilidade, Rihanna questiona, “por que precisa ser tão estranho se apaixonar outra vez?”.

“Love On The Brain” é a nossa favorita no álbum. Com um quê da música britânica inspirada nos anos 50 e 60, como Amy Winehouse e Paloma Faith, a baladinha prende nossa atenção do início ao fim, sob um arranjo que cresce, mas não cai na obviedade que seria caso fosse mais uma composição da Sia para ela. Pensando na forma com que a cantora tem desenhado esse disco como o material mais classudo de sua carreira, não ficaremos surpresos em vê-la sendo single — e bastante decepcionados caso isso não aconteça, pra falar a verdade.



Mais uma interlude fora de hora, “Higher” foi composta pela Bibi Bourelly, que também esteve por trás da descartada, “Bitch Better Have My Money”, e ainda que não tenhamos dúvidas quanto ao talento vocal de Rihanna, não dá pra negar que a barbadiana pegou muito emprestado da voz de Bourelly para sua interpretação dessa faixa que, por mais curta que seja, nos pega da maneira mais profunda possível e parece torcer cada um dos nossos órgãos internos, exatamente como os vocais roucos da cantora que, nesta, soltam versos por versos de uma forma que beira o doloroso. “Eu quero voltar para os velhos hábitos, mas estou aqui, bêbada, com o cinzeiro cheio e coisas demais para dizer.”

E dando fim ao tiroteio que encerra a tracklist, o disco é fechado pela baladinha “Close to You” que, ao piano, repete a fórmula usada por Rihanna em “Stay”, com Mikky Ekko, mantendo a profundidade das canções anteriores, mas sem esforços desnecessários. Em meio a tanta simplicidade, nos resta dar total atenção aos vocais e letra da canção, mais emotiva do que o restante do disco nos sugeriu. “Lágrimas é tudo o que temos para o café da manhã.”



Na sua versão deluxe, “ANTI” conta com outras três canções e, passada “Close to You”, todas soam bastante deslocadas dentro da proposta do disco, sendo elas “Goodnight Gotham”, inicialmente conhecida como “A Night”, orientada por um sample confuso de “Only If For A Night”, da Florence + The Machine; “Pose”, que soa como uma prima distante e mais sortuda de “Bitch Better Have My Money” e “Sex With Me” que, por sua vez, faria um trabalho e tanto como primeiro single do disco, sendo mais interessante que pelo menos cinco da sua versão standard.

Em suma, seria injusto não reconhecer o fato de que Rihanna se dispôs a explorar o desconhecido e fez isso de maneira majestosa, nos provando, mais uma vez, sua versatilidade e facilidade para “crescer”, independente de onde esteja, entretanto, é precipitado dizer que “ANTI” é o melhor álbum de sua carreira, principalmente quando o temos justamente representando o contrário de tudo o que ela já nos apresentou — e, antes de chegar aqui, teve muitas coisas que também mereceram elogios, não é mesmo?



“ANTI” é um bom álbum dentro do que se propõe a fazer e, ao seu modo, nos convence sobre sua estrutura tão distante do que estamos acostumados a ouvir com a cantora, mas falha quanto a demonstrar a evolução da própria que, em meio a tantas influências, experimentos e participações, é eclipsada pelo estranhamento de sua própria produção. Acreditamos que seja uma questão de tempo até que tudo isso possa ser aperfeiçoado mas, no fim das contas, a impressão deixada é que Rihanna encontrou — e ficou deslumbrada com — o desconhecido, mas perdeu a si mesma.
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