Album Review: a emocionante viagem através das descobertas de um jovem gay em "Blue Neighbourhood", do Troye Sivan

Nos últimos anos a internet têm apresentado uma série de artistas muito interessantes e despertado cada vez mais a atenção do público pelo novo e desconhecido dos quatro cantos do planeta. Ainda que muitos deles jamais alcancem a vertiginosa proporção de um Justin Bieber da vida (também saído da internet), entregam trabalhos fantásticos, que merecem ser muito mais valorizados do que são, por serem talentos reais, como é o caso de Troye Sivan.

Se você ainda não o conhece: Troye Sivan é um cantor, compositor, ator, ativista e youtuber sul-africano de 20 anos, mas radicado na Austrália, que já colecionava milhões de seguidores em seu canal, e se tornou algo ainda maior quando ele se assumiu gay e partilhou isso com quem o seguia em 2013. De lá pra cá, as coisas pro menino tomaram uma proporção gigantesca na internet. E foi aí que ele resolveu se arriscar, mostrando um novo e interessante lado: a sua música.

De pequenos covers, sempre elogiados, passando por letras originais e gravações caseiras, Troye chamou a atenção de executivos de gravadoras que viam nele uma potencial estrela. E com isso, chegamos aos seus EPs, que colocaram, de vez, o sul-africano/australiano nos radares musicais do mundo todo.



Em "TRXYE" (2014), ele se apresentou ao público como um promissor e talentoso cantor, capaz de dar vida ao denso e brilhante hino alternê "Happy Little Pill" como se fosse algo fácil. Porém, foi agora em 2015, com seu segundo EP, "WILD", que os radares se firmaram sob seu nome, graças à fantástica e ambiciosa trilogia de clipes ("WILD", "FOOLS" e "Talk Me Down"), que antecederam o lançamento do seu aguardado álbum de estreia, o "Blue Neighbourhood".

De repente, todo mundo estava falando sobre o clipe de "WILD", onde ele aborda, com uma sensibilidade ímpar, a história de dois amigos que cresceram juntos e, em determinado momento de suas adolescências, descobrem que são apaixonados um pelo outro. Sem revelar muito da trama, o pai alcoólatra, machista e abusivo do amor de Sivan, percebe a aproximação, o que causa problemas no vínculo estreito que eles têm juntos ("FOOLS"), levando a um final dramático, mostrado em "TALK ME DOWN". A história tocante, que aborda desde as relações familiares, passando pelo verdadeiro amor e culminando no suicídio, é um projeto ambicioso do jovem ao lado do diretor Tim Mattia, mas executado à perfeição, porque eles conseguiram colocar lindamente uma grande história numa quantidade muito limitada de tempo. Troye soube exatamente como retratar tudo isso de uma maneira convincente e emotiva, sem ser piegas. E vale destacar toda sua coragem para filmar esse tipo de história, que merece e realmente precisa de atenção, não só para aumentar a conscientização social e entendimento, mas também porque é uma bela obra de arte.

Então, passado o furor da trilogia e com o lançamento oficial de "Blue Neighbourhood", nós o ouvimos com calma, até para não cometermos injustiças e, a partir de agora, seguem nossas impressões nessa avaliação faixa a faixa.

1) "WILD"

Abrindo o álbum, temos a incrível "WILD", que assim como as próximas seis faixas, pertenceram ao seu EP de mesmo nome. Como um jovem gay em busca de sua identidade nos subúrbios de Perth, Troye cria a atmosfera ideal para o pano de fundo que rodeia "Blue Neighbourhood". Aqui, num delicioso electropop minimalista e crescente, com direito a um coral infantil, que suaviza sua densidade, Troye nos encanta ao sintetizar perfeitamente um "amor proibido", que mesmo machucando ("Nunca soube que amar poderia doer tanto. E isso me deixa selvagem"), te faz insistir, já que se encontra completa e absolutamente apaixonado pelo momento, numa descoberta da funcionalidade de ambos como um casal: "Você faz meu coração tremer, dobrar e quebrar. Mas eu não posso dar as costas. E isso está me deixando selvagem".

2) "BITE"

Não sei se essa foi a real intenção, mas "BITE" remete muito ao sexo (e não falamos de sua letra), quando se ouve pela primeira vez. A voz ressonante de Troye, num tom misterioso, que somado à essa intrigante produção, cheia de synths desconexos, se encarrega desse fato de uma forma que ainda não tínhamos ouvido vinda dele. O que é muito bom. Da parte lírica, enquanto "WILD" nos dá um amor proibido, "BITE" é sobre um flerte, provavelmente envolvendo o primeiro encontro de um homem gay, que traz o maravilhoso e sarcástico trecho "Então me beije na boca e me liberte. Mas por favor, não morda" hahaha. Grande faixa!

3) "FOOLS"

"FOOLS" é uma das preferidas dos fãs e começa como uma balada, mas, em seguida, se transforma em um grandioso electropop durante o refrão, que faz Troye refletir num conflito interno, sobre as sequelas da total dedicação vista em "WILD", percebendo que, mesmo sem conseguir viver sem, ele é um tolo por cair nesse joguinho de interesse amoroso: "Só os tolos se apaixonam por você, só os tolos. Só os tolos fazem o que faço, só os tolos caem". Um registro interessante aqui, é que o grande coral em "only fools" (2:44 e 3:05, precisamente) foi extraído de uma das primeiras apresentações ao vivo da música, num show privado para fãs e colocado, brilhantemente, na versão final.

4) "EASE" (feat. Broods)

Na sequência, temos a primeira participação especial do álbum, feita com os irmãos neozelandeses do duo Broods, que resulta em mais uma deliciosa produção, perfeita pro repeat. As vozes se encaixam de uma forma tão sublime, que fazem os vocais sussurrados subirem no refrão,  enquanto a produção, também electropop, se encarrega de dar o brilho extra que essa maravilha pede. Do lado lírico, é outro grande acerto, ao transmitir o vazio deixado por um término recente de forma bem sincera: "E eu venho tentando esquecer, mas ultimamente... Toda vez que acho que estou melhor, mantendo a cabeça erguida, acabo chegando a lugar nenhum".

5) "THE QUIET"

"Eu prefiro estar com hematomas, do que aceitar que você se foi", é nesse tom quase desesperado e gritando por ajuda, que chegamos na obscura "THE QUIET", que com seu electropop tenta mascarar a tristeza que leva toda a música, abordando a crueldade de um tratamento frio e silencioso por parte de quem um dia você acreditou amar: "Aah, diga-me. Diga qualquer coisa. Tudo dói menos do que o silêncio".

6) "DKLA" (feat. Tkay Maidza)

Logo que o EP saiu, essa foi uma das músicas preferidas deste blogueiro e, dentro do álbum, seu contexto e funcionalidade são justificáveis. Destacando uma sufocante relação ("Quando tentamos, nós éramos um fogo sem ter o que acender. Trapos para a riqueza, mas eu sou viciado em me magoar. Tire meu fôlego, você sabe que eu sou obrigado a me sufocar. Quando eu fecho meus olhos, eu ainda vejo seu fantasma"), Troye conta com o apoio da rapper e revelação australiana Tkay Maidza, que traz em suas rimas, o ritmo que rodeia as produções do garoto, sem torná-las equivocadas ou desnecessárias.

7) "TALK ME DOWN"

Quando Troye anunciou essa música como o encerramento de sua trilogia, pegou muita gente de surpresa, já que se tratava de uma inédita. Para dar vida à ela, ele recrutou o consagrado produtor Emile Haynie, responsável pelo "Born to Die", da Lana Del Rey, e juntos fizeram uma faixa delicadamente épica sobre dormir eternamente ao lado de quem se ama. "TALK ME DOWN" pode ser considerada a mais emocional de todas até agora, graças à entrega de partir o coração de Sivan. A produção da música, em combinação com os vocais e letras comoventes, criam uma atmosfera de tristeza, saudade de coisas que estão fora do alcance e ao mesmo tempo uma vibe irremediavelmente romântica, com doses sonhadoras de esperança e fragilidade ("Portanto, se você não se importar, vou cruzar aquela linha presa na ponte entre nós"). Essa faixa, juntamente com o visual/tema de seu clipe, é de uma responsabilidade muito grande e provavelmente não vai sair da sua mente tão cedo.

8) "COOL"

Seria a corrida da fama ou Troye tentando impressionar alguém? Não importa muito, porque sua letra é bem aberta nesse sentido. Mas o que vale mesmo, é que temos outra canção sonhadora aqui e perfeita pra ser trilha sonora indie.

9) "HEAVEN" (feat. Betty Who)

Talvez tenhamos aqui uma das melhores letras e canções do álbum. Serena e delicada, a colaboração com Betty Who em "Heaven" desencadeia um monte de reações. Seja por sua parte lírica, que é um reflexo sincero de Troye sobre ser gay e como isso afeta em sua vida após a morte, contemplando suas chances de ir para o céu e o que de fato esse seria ("Sem perder uma parte de mim, como posso chegar no céu? [...]   Então, se estou perdendo uma parte de mim, talvez eu não queira o céu"), ou no resultado de uma produção simples, mas memorável dentro de um CD impecável até agora.

10) "YOUTH"

Radiofônica, singular e contemplando as alegrias da juventude. Eis aqui mais um destaque do álbum e a coisa mais próxima de "WILD" que ouvimos até agora. O atual single do álbum, tem refrão e produção cativantes, a letra memorável e os vocais de Sivan, idem. A canção gritava pra ser single desde que foi finalizada, com suas batidas meio electropop meets urban, numa combinação divertida pra fugir do climão triste que dominava o ambiente até agora. Grande single, que num mundo justo, deveria se tornar um smash hit a fazer morada no topo das paradas.

11) "LOST BOY"

Justamente quando você pensa que a estreia de Troye está ficando longa e muito familiar, "LOST BOY" aparece magicamente e muda o jogo de novo. Adorável e simples, ela foi pensada para aqueles que não se encaixam em meio à multidão. Que não sabem exatamente o que estão fazendo da vida ou para onde estão indo: "Eu sou apenas um garoto quieto tentando enganar a mim mesmo, para manter minhas coisas organizadas".

12) "for him." (feat. Allday)

Sua nova canção de amor favorita está aqui. Mas o que torna esta a melhor mesmo, é que ela realmente não soa como uma canção de amor. Sem apelar pro sentimentalismo barato, Troye usa uma letra sólida e um grande arranjo, para cantar bem na nossa frente, como se a música fosse endereçada a cada um de nós. O rap de Allday também é outro ponto importante, porque a deixa ainda mais única e especial. Muitos fãs afirmam que "for him." é uma homenagem de Troye a seu namorado, Connor Franta. Mas nada confirmado. Fato mesmo, é que temos nela outro belo, grudento, doce e pessoal destaque, que emprega de forma inteligente e bem-humorada versos educados ("Você não precisa dizer eu te amo para dizer eu te amo") e descrições ainda mais divertidas sobre sexo ("Criando novos clichês na nossa pequena turnê. Vamos?" / "Vou apertar sua bunda forte como se estivesse preparando massa. Garoto da pizza, estou indo atrás de você"), tornando-se uma faixa fantástica.

13) "SUBURBIA"

Perto do fim, vem outro grande destaque. "SUBURBIA" é uma faixa honesta e saudosista, porém com arranjo orquestral e descrita por Troye como sendo suas memórias por ficar tanto tempo fora dos subúrbios de Perth, longe de casa, amigos e família. É mais uma de fácil identificação e chega a dar um nó na garganta, caso você viva situação parecida. 

14) "TOO GOOD"

Na sequência, vem outra faixa que se destaca, justamente por soar diferente das outras baladinhas do álbum. Ok, "TOO GOOD" é sobre coração quebrado também, mas sua produção é diferente de qualquer outra do material, com pianos, guitarras e violinos ao fundo, criando uma vibe quase angelical num tom soulful, que comprovam o quanto Troye foi cuidadoso com o material.

15) "BLUE" (feat. Alex Hope)

WOW! Num álbum de estreia fantástico e cheio de faixas memoráveis, é na última parceria dele que reside um dos melhores duetos que ouvimos no ano passado. Para quem não sabe, Alex Hope é uma das principais co-autoras/produtoras dos dois EPs de Troye, bem como co-assina 8 faixas no "Blue Neighbourhood" e ainda ganha destaque nessa hipnotizante "BLUE", que desempenha um show de acertos. Os vocais controlados de ambos tornam-se dramaticamente o melhor dueto da face da Terra. Os dois possuem uma energia mágica e equilíbrio ideal que todo dueto necessita, mas são poucos que de fato conseguem. A voz de Hope é tão perfeita pra canção, que faz até com que Sivan, muito parceiro, abra mão de seus pontos fortes, sempre que necessário, deixando que a música seja muito mais sobre ela, do que é sobre ele. Memorável!

16) "WILD" (XXYYXX Remix)

Não sou lá fã de versões remixadas, mas a de "WILD" traz uma particularidade diferente, porque funciona muito bem dentro da proposta sonora do álbum, e é algo que funcionaria bem numa festa, por exemplo.

17) "SWIMMING POOLS"

Última faixa inédita do material, a ótima "SWIMMING POOLS" e sua introdução peculiar, se encarregam de pré-encerrar o álbum com uma balada pop, fazendo uma reflexão (com lindos vocais de Troye) sobre a dificuldade amorosa e suas dores, de forma bem tocante, pra variar: "Mas eu vejo um farol à distância chamando meu nome. Mas eu não posso chegar lá até eu passar por toda essa dor".

18) "Happy Little Pill" (Live Acoustic Version)

Pra encerrar essa maravilha chamada "Blue Neighbourhood", nada mais justo que uma nova versão para o hit "Happy Little Pill", que tornou Troye Sivan conhecido musicalmente para o grande público. De forma ao vivo e acústica, ele dá um show e mostra que nem sempre ter uma voz potente é sinal de que você é um bom artista. Mesmo que não apresente tanta extensão, Sivan sabe muito bem o que quer e seus limites como artista, e faz isso muito bem aqui, dando o máximo dentro do seu estilo singular. Baita versão!


***

Em "Blue Neighbourhood", Troye Sivan dispensa a originalidade, mas entrega um dos materiais mais sinceros e vulneráveis do ano. Ele sabe o que está fazendo, onde quer chegar e a dimensão do seu potencial como provável ícone gay de uma geração que, assim como ele, tem a internet como sua principal aliada.

"Blue Neighbourhood" é tudo o que se esperou por um ano do álbum de estreia de Troye. Nele, encontramos um coração, em letras cheias de profundidade, sendo fiel à sua proposta e, principalmente, ao som de Troye, que em momento algum soa genérico. Ele conta uma história (ou pedaços dela) cheia de emoção em cada faixa, enquanto ainda nos permite espaço para a subjetividade. 

De ruim, fica o fato de, mesmo incrível, ser um álbum enorme (18 faixas é cansativo, gente), que somados aos títulos estilizados e toda tracklist do incrível "WILD" repetida, soa muito pomposo e desnecessário.

No geral, o glorioso álbum de estreia de Troye Sivan passa bem longe de um amontoado de músicas recicladas, mas sim, uma ode à quietude, vida suburbana, cheia de descobertas, incertezas, saudosismo, doses de maturidade e as dores do amor vivenciadas diariamente por um jovem gay, criando um dos melhores álbuns de 2015 e provando que talentos tão reais como o de Troye são bem raros nos dias atuais.

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