A superestimação do alternativo pelos fãs de música pop e o disco novo da Rihanna

Ninguém realmente deveria ficar surpreso com um lançamento da Rihanna causando comoção geral pela internet. A cantora completou no ano passado uma década de sua carreira e, nesse tempo, emplacou hit atrás de hit, incluindo “Umbrella”, “Only Girl In The World”, “We Found Love” e “Diamonds”, só pra citar alguns, e depois de lançar sete discos, quase que anualmente, deu então início a um jejum musical, para se dedicar aos trabalhos do seu novo disco, “ANTI”.

Com tanto tempo longe das rádios, ainda que com singles esporádicos, como a parceria com Kanye West e Paul McCartney em “FourFiveSeconds” e a pesada “Bitch Better Have My Money”, não tinha como ser diferente quando um novo disco dela chegasse ao público e as coisas só ficam ainda mais interessantes se o álbum, tão aguardado e rodeado de especulações, cai na internet, ainda que essas histórias sejam sempre mal contadas o suficiente para não acreditarmos, e, pra deixar todo mundo boquiaberto, ainda é liberado para download gratuito — de maneira legal mesmo.

Mas teve um problema nisso tudo. O disco saiu e, caralho, a Rihanna finalmente está de volta! Só que o público não esperava por esse disco. E com público, a gente se refere a nós, você e os fãs da cantora.


“ANTI” é um disco que, de fato, vai contra tudo o que conhecemos da Rihanna até aqui, talvez não de maneira tão extrema, mas numa tentativa bastante funcional. Os singles “FourFiveSeconds”, “Bitch Better Have My Money” e o promocional “American Oxygen”, sequer aparecem em sua tracklist, assim como as prometidas parcerias com Sia, Calvin Harris, Ne-Yo, Kiesza, Charli XCX e vários outros que estiveram envolvidos nesta produção, e dão lugares para um cover do Tame Impala em “Same Ol’ Mistakes” (uma versão para “New Person, Same Old Mistakes”, do álbum “Currents”) e uma interlude que sampleia “Only If For A Night”, da Florence + The Machine. Tudo gritando para soar alternativo.

Parcerias? Só da SZA. Uma cantora americana de “R&B alternativo”, assim como The Weeknd e FKA twigs, sabe? Que já trabalhou ao lado de Kendrick Lamar, Nicki Minaj e Beyoncé, mas ainda não conquistou o seu lugar ao sol. Pelo menos por enquanto. Ela empresta sua composição e vocais para “Consideration”, que abre o disco. E é assim que Rihanna segue nos apresentando sua nova fase.

O grande problema é que seus fãs, ainda que estivessem imaginando algo menos comercial que seus discos anteriores, foram chocados por essa direção que tanto tenta soar alternativa, principalmente depois do Kanye West ter pulado fora do projeto e Rihanna assumido toda a sua produção executiva. E talvez pelo receio de não se interessar por algo tão fora dos moldes tradicionais, optam pela superestimação, afinal, se é diferente, deve ser cult. E isso é bom, né?

Com menos de uma hora pela internet, o disco novo já era apontado por Deus e o mundo como “o melhor da carreira de Rihanna” e conquistando mais e mais pessoas que não hesitavam em falar sobre gente que “gosta de música de verdade” aprovar a tal produção. Isso porque o disco não contava com as tão comentadas farofas e, de novo, se é diferente, deve ser cult. Deve ser bom.

Essa superestimação instantânea pode ser vista por dois ângulos. O primeiro parte da ideia de que a música alternativa, sempre tão distante do que tocam nas rádios, é algo mais sofisticado, artístico, apenas por não atingir as massas como uma composição atual da Sia ou alguma produção do Diplo. Enquanto a segunda já pega para um lado um pouco menos complexo: os fãs da música pop se autossabotam o tempo inteiro, só para se mostrarem os grandes entendedores de coisa nenhuma.

Um bom exemplo disso, saindo desse cenário da Rihanna e seu “ANTI”, foi quando Miley Cyrus lançou o álbum experimental “Miley and Her Dead Petz”, em parceria com a banda The Flaming Lips. O álbum, revelado gratuitamente após o VMA 2015, contava com mais de 20 canções, mas o público sequer levou tempo pra escutar cinco delas até sair falando sobre o quanto ela havia evoluído musicalmente e descoberto algo realmente artístico. O estranho os encanta. E por mais que você realmente não goste de verdade, talvez não compreenda a complexidade do projeto por completo e, na dúvida entre passar vergonha por não conseguir digerir tanta conceitualidade, o melhor é dizer que curtiu mesmo. Pura balela.


Antes de qualquer coisa, não há nenhuma palavra sequer questionando a qualidade do novo CD da Rihanna neste texto. “ANTI” é, inclusive, um álbum muito bom e diversificado, realmente diferente do que ela já fez e do que esperávamos que ela fizesse. Mas encontramos um comportamento preocupante e questionável quando os fãs, em vez de defender seus respectivos pontos de vistas, se dispõem a aceitar qualquer coisa e querer limitar o que é ou não música de verdade, com base na sua percepção individual e preconceito quanto ao que é ou não feito para atingir as massas, mesmo que tenha fritado ao som de “Sorry”, do Justin Bieber, há algumas baladas. 

Esse pensamento ignorante apenas fomenta o preconceito em torno da música pop, que, vamos lá, sobrevive com a ajuda de aparelhos, graças ao alcance de alguns de seus artistas, que ainda mantém em alta os seus números, e parte da mesma desvalorização burra de quem prefere ouvir o disco da Taylor Swift cantado por um cara que interpreta suas canções como se tivesse acabado de acordar, com alguns arranjos mal terminados e toda essa grande áurea alternativa que parece lhes empurrar qualquer coisa goela abaixo.

Ter um artista disposto a fugir da sua zona de conforto e cruzar cada vez mais essa fronteira imaginária entre o que é ou não mainstream é algo louvável e que vamos adorar vez mais vezes, mas esse cenário seria ainda mais positivo se os fãs apresentassem uma maior maturidade junto com eles, conseguindo discernir o que gostam do que elogiam para parecerem legais e fazendo isso sem que precisem desvalorizar o que já gostavam e escutavam antes, porque, de Grimes ao Justin Bieber, música é música e, como diz aquele ditado, “vamo fazer o quê?”. E, desta forma, futuramente, os artistas não precisarão mais fugir do que os representa para provar que, além dos hits, são talentosos.

A música alternativa, como qualquer outra, tem seus artistas bons e ruins, suas produções boas e ruins, e continua sendo apenas música. A obra, ainda que fora da linha do que estamos acostumados a ouvir nas rádios, não se torna nenhuma maravilha intocável e inquestionável, e não gostar disso é tão normal quanto não curtir aquele single mais comercial da sua diva favorita. Gostar de Lana Del Rey não torna seu gosto melhor que do amigo que escuta Baile de Favela. E o novo disco da Rihanna não precisa ser endeusado só por soar mais alternativo do que se esperaria de um novo álbum vindo dela. Vida que segue.

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