Por que, nesta história com a Inês Brasil, o vacilo foi do Grammy e não dos brasileiros?

Aí que o Grammy não segurou a marimba. Um dos maiores nomes da indústria fonográfica, com o legado de maior e mais importante premiação da indústria musical há anos, foi surpreendido pelas brincadeiras de brasileiros que, nos últimos dias, tomaram conta de sua página no Facebook com uma sugestão pra lá de inusitada.

Como contamos aqui, a brincadeira começou quando o Grammy perguntou aos seus mais de 4 milhões de fãs quem eram seus favoritos para os indicados à sua 58ª edição, que terá sua lista revelada na próxima segunda-feira (07), e numa mobilização totalmente espontânea, deram vida ao viral que indicou incontáveis vezes a brasileira Inês Brasil para a premiação.


A frase “Inês Brasil best be nominated” era o comentário uníssono e, fora o Facebook, ganhou também destaque no Twitter por algum tempo, só que a premiação não achou nada legal.

A solução encontrada por eles, entretanto, foi das piores possíveis: a página do Grammy foi bloqueada para todos em território brasileiro. O que significa que, só por morar no Brasil (ou pelo menos dizer isso ao Facebook), você não conseguirá mais ter acesso a página oficial do Grammy pela rede social do Mark Zuckerberg até que eles mudem de ideia. Pode fazer o teste!
Desde que a ação foi tomada, o Grammy dividiu opiniões. De um lado, temos os que comemoram e veem isso como uma lição. “Brasileiro precisa aprender que nem tudo é zoeira”, diz aquele seu amigo que nunca compartilhou um meme em toda a sua vida. Mas aí a gente tem o outro lado, dos que, assim como nós, entenderam o exagero nisso. E, dizemos mais, o despreparo dessa história toda.

Primeiramente, é necessário que a gente veja o cenário como um todo. E, para isso, deixamos de falar sobre uma simples brincadeira então. Nós estamos falando sobre uma página que alcança MILHÕES de pessoas e, numa publicação como muitas outras, interagiu com essa multidão. Boa parte dessas pessoas interagiu então e, respondendo a pergunta feita pela página, cumpriram com o objetivo deles, só que não existia nenhuma garantia de que todos fariam exatamente a mesma coisa e é aí que enxergamos o despreparo na saída encontrada por eles: eles têm uma caralhada de pessoas os escutando > dão a chance deles falarem numa postagem aberta ao público geral > são pegos despreparados por um movimento viral que está acontecendo NA INTERNET > não tentam em momento algum manifestarem um descontentamento por meio do diálogo, explicando que a mobilização inviabiliza o sentido original da postagem > retiram TODO o acesso ao seu conteúdo de TODO um país. Viu?

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Entre os comentários em torno do assunto, chega a ser engraçado ver tanto brasileiro com desgosto imenso do que foi uma simples brincadeira, na velha mania “vira-lata” de que, se veio daqui, tem que ser ruim, apenas se conformando e abaixando a cabeça para a resposta silenciosa da premiação que, pode até ter anos neste meio, mas parece não ter aprendido nada nos últimos dez, período o suficiente para a internet ascender e mudar muito de como se produz, reproduz e consome música.

É claro que ninguém é obrigado a concordar e rir junto com a brincadeira. Nós achamos hilária, incentivamos, de certa forma. Mas muita gente não. E está tudo bem. Essa é a internet e essa é a liberdade de expressão que tanto falam. Mas ter os brasileiros brincando com tudo isso, sugerindo para a maior premiação musical de todos os tempos uma figura da internet, que vez ou outra lança uma canção para alavancar sua agenda de shows na noite ao redor do país, não é um ato condenável como fazem parecer. Foi pela graça, não desmereceu o trabalho de ninguém e, de quebra, fez sabe-se lá quantos gringos ficarem curiosos ao ponto de procurarem a bendita Inês Brasil no Google ou Youtube. E ainda mostrou outra coisa que poucos podem ter percebido: quando estamos dispostos e com algum objetivo em comum, quando não somos só fãs de artista x ou y, defensores de causa x ou y, representantes da direita ou esquerda, a gente pode quebrar a internet também. Ou boa parte dela.


Se teve algum erro dos brasileiros nisso tudo, diríamos que foi na falta de um momento pra parar. Que nem aquele primo que, tá, contou uma piada engraçada naquele almoço em família, mas, cara, todo mundo já parou de rir e ele ainda está lá gargalhando. Só que, a partir do momento que a equipe de mídias sociais da empresa não soube lidar com o movimento e, ignorando todo seu porte e impacto, ignorando a importância disso no trabalho de muitas pessoas e até mesmo dos que sequer sabiam de toda essa brincadeira, se limitou a cercear o acesso ao seu conteúdo, sabemos que não somos o único lado com algo para repensar. E não estamos surpresos, mas sim desapontados.

No fim do dia, o que concluímos é que, com sua página fora do ar, sem sequer uma resposta ao seu público, que inclui pessoas que não tinham nada a ver com todo o viral, senão o fato de compartilharem a mesma nacionalidade das pessoas que começaram e entraram na brincadeira, o Grammy não está pronto para a internet e suas dimensões. Não está pronto para lidar e dialogar com essa geração. E por mais que tenha perfis no Twitter ou Facebook, provavelmente não faz ideia da importância e alcance que essas ferramentas possuem com a relevância de sua empresa. O que, cá entre nós, é apenas mais uma das situações em que a premiação, elitista, racista e machista, diga-se de passagem, prova estar mais associada e presa aos valores arcaicos do que alguns de seus indicados sugerem.

Make make make love é muito melhor, demorou?

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