Por que não apoiamos e nem compraremos o novo álbum do Chris Brown, “Royalty”?

No último dia 18 de dezembro, Chris Brown lançou seu mais novo álbum, “Royalty”, após uma confusa campanha de divulgação, que incluiu singles como “Liquor”, “Zero” e “Fine By Me”, além de uma controvérsia com a gravadora, que planejava adiar o disco mais uma vez, entretanto, foi contestada pelo próprio cantor que, da última vez que foi contrariado, se vingou lançando uma mixtape de maneira independente.



Numa previsão de vendas, é esperado que Chris Brown venda pouco mais de 130 mil cópias do seu novo álbum em sua semana de estreia, alcançando uma marca que não chega nem perto do disco mais vendido de 2015, o álbum “25”, da Adele, mas que é proporcional a discos que estrearam com menos alarde, seja pela falta de divulgação ou por singles que não foram bem recebidos nas paradas.

O cantor, por sua vez, não se animou com os números e, pelo Twitter, pediu pra que seus fãs “de verdade” comprassem o álbum e, se não tivessem dinheiro para tal, que pelo menos o escutasse por serviços de streaming como o Spotify, que também contabiliza pontos para a sua colocação na parada de álbuns dos EUA, Billboard Hot 200.

O que nos impressiona, na verdade, é que a marca de 130 mil cópias não só é o suficiente para um disco que sequer teve algum hit, mas também extremamente preocupante, por se tratar do disco de um cantor que parece encontrar cada vez mais facilidade para se desvencilhar de um passado significativamente escuro, que envolveu uma agressão contra sua, até então, namorada e com a intenção de matá-la.



O caso da agressão dele contra Rihanna aconteceu em 2009 e, de lá pra cá, Brown respondeu pelo caso judicialmente, pagando pelo crime por meio de serviços comunitários. Mas isso não significa que devamos simplesmente colocar um tapete em cima do assunto e voltar a agir como se nada tivesse acontecido. Mesmo que a própria Rihanna tenha optado por isso.

Nos bastidores da indústria, Chris Brown parece não encontrar dificuldades para ter apoio com sua música. O cantor é lembrado pelo Grammy Awards diversas vezes e, nos últimos anos, também conseguiu parcerias com nomes como Lil’ Wayne, Usher, Rick Ross, Tyga, Pitbull e até mesmo as cantoras Ariana Grande, Rita Ora e Tinashe, além de, nesse último álbum, contar com algumas produções do Danja, mas todo esse processo de “limpeza de imagem” não é algo que concordamos e jamais apoiaremos.

Muitos dos fãs do cantor dirão que é perseguição. “Ele já pagou por seus crimes e precisam superar isso.” Mas não estamos falando de um artista que buscou por sua redenção, ainda que force uma boa ação aqui ou ali em época de lançamento, e notar a maneira como ele finge não se lembrar desse episódio, sempre utilizando de eufemismos e sinônimos quando precisa tocar no assunto, é uma clara prova de que ele ainda não aprendeu a lidar com isso, assim como o público, que parece não se preocupar em diminuir a gravidade de suas ações do passado pelas produções baratas que ele nos oferece nos dias de hoje.

A parte engraçada dessa história é que, por mais que se esforce para fazer com que esqueçamos esse caso, Chris Brown jamais manteve por muito tempo a imagem de bom moço e, ainda que estampe a capa do seu novo disco ao lado de sua filha, Royalty, teve nos últimos três anos pelo menos outros cinco casos que comprovam o quanto ele continua o mesmo cara que quase matou Rihanna há seis anos.

Em 2013, por exemplo, Chris Brown se envolveu num caso de agressão contra o cantor Frank Ocean, no estacionamento de um estúdio em Hollywood. Na época, Ocean afirmou que não iria prestar queixa contra o cantor, mas revelou que Brown ameaçou matá-lo e contava com o apoio de seus seguranças, que não se importaram em serem homofóbicos, chamando o músico, que é gay, de “viado”.



Nesse mesmo ano, Brown e seus seguranças também se envolveram em outro caso de agressão, dessa vez contra dois rapazes que tentaram tirar uma foto com o cantor na frente de um hotel, em Washington. No relato, um dos agredidos, que teve seu nariz quebrado, conta que o cantor posava pra uma foto com duas fãs quando eles se aproximaram e, ao tentarem fazer parte da foto, Chris afirmou que não estava a fim dessa “merda gay”, começando a divulgação que acabou em socos.

E quanto às mulheres, teria ele aprendido algo desde o caso com Rihanna? Uma de suas ex-namoradas, a modelo Karrueche Tran, pode garantir que não. Três meses após o término de seu namoro, em junho desse ano, Chris Brown ficou sabendo que a modelo estava com algumas amigas em um clube e partiu para o local. Ao saber que ele estava por lá, a modelo decidiu ir embora, mas não contava com que ele fosse atrás dela, entrasse no seu carro contra a sua vontade e ainda dissesse que, se ela não voltasse, faria um “puta escândalo”. Depois de muita discussão, o cantor saiu do carro de Karrueche, mas passou a madrugada na frente da sua casa, pedindo pra que ela saísse para conversar com ele. A bagunça só chegou ao fim quando a polícia foi chamada, enquanto Karrueche aceitou ter uma conversa com Chris Brown, só que em algum lugar público.

No mesmo mês em que teve esse desentendimento com sua ex-namorada, Chris Brown também foi o mais repulsivo possível ao, pelo Instagram, chamar Caitlyn Jenner, que é uma mulher trans, de “projeto científico”, enquanto comparava a repercussão da sua transição com uma doação do rapper Akon, que investiu pra que cerca de 600 milhões de africanos passasse a ter luz em suas casas.


É claro que as ações de Chris Brown em sua vida pessoal nada dizem sobre a qualidade de sua música e, quando reclamou de suas vendas, o próprio cantor lamentou o fato de que “trabalha três vezes mais” que os outros artistas, já que compõe, canta, dança, produz, dirige, entre outras coisas, entretanto, apoiá-lo musicalmente, seja consumindo ou disseminando o seu trabalho, é contribuir quanto a visibilidade do seu nome e, dessa forma, ignorar toda a responsabilidade que ele deveria reconhecer ter como uma figura pública, que influencia o comportamento de todo um público e a opinião da sociedade quanto ao que faz ou deixa de fazer.

Escutar e compartilhar as músicas de Chris Brown, dizendo que precisamos “superar” seus crimes, é dizer para as pessoas que se veem em suas vítimas que, se forem agredidas, em alguns anos seus agressores também serão perdoados, porque eles não são “tão ruins assim”, e aos agressores que, com o tempo, outros aspectos falarão mais alto do que suas ações negativas, de forma que eles possam ficar tranquilos quanto a repeti-las, porque poderão correr atrás desse tempo perdido outra vez.

Chris Brown é um agressor de mulheres, homofóbico, transfóbico, machista e... esquecemos alguma coisa? E nem os melhores dos refrãos farão com seu novo disco, “Royalty”, nos convença de que seu “eu musical” merece ser maior que o seu “eu pessoal”, até porque, no fim do dia, é o mesmo Chris Brown que conquistará a visibilidade, os números, os dólares e, claro, o perdão. Mesmo perdão que, por razões bem menores, muitos custam a pensar em oferecer para artistas como a rapper e mulher Azealia Banks, por exemplo.

É decepcionante ver artistas que gostamos ao lado de Chris Brown, como a Rita Ora que, quando questionada sobre a agressão dele em Rihanna, afirmou que ele é uma pessoa maravilhosa e que ela não tinha “nada a ver” com seus erros do passado, ou a Tinashe, que recentemente também colaborou com o R. Kelly (acusado de abuso sexual e envolvido em diversos casos de pedofilia) e acredita que cantar com um artista não significa concordar com todas suas ações.



Nós jamais compraremos o novo disco do Chris Brown e muito menos iremos escutá-lo pelo Spotify ou qualquer outra plataforma. Os fãs que nos perdoem, mas também não estamos aqui para apoiar seu nome ou contribuir na propagação do seu trabalho, mas podem nos procurar e utilizar esse artigo, inclusive, para relembrar as coisas que ele tenta, por meios duvidosos, se desvencilhar, até porque não adianta nada passarmos o ano discutindo sobre causas sociais e o que elas representam para, no fim das contas, terminarmos ouvindo um artista que representa a figura opressora para muitas delas. 

Sem contar que, vamos lá, indústria é grande demais pra nos contentarmos com tão pouco.
Tecnologia do Blogger.