Throwback Review: Maroon 5 faz do clássico "Songs About Jane" uma obra de arte sexualmente admirável


Recomeçar do zero, se reinventando. Foi isso que Adam Levine pensou, após sua, então banda indie, Kara's Flowers, não ter dado certo.

Com o fim da banda em 1999, o vocalista mergulhou na cultura urbana de Nova York e descobriu que sua dinâmica vocal poderia ser facilmente adaptável a outros estilos e, não necessariamente, ao indie. Com isso, surge o Maroon 5 e seu álbum de estreia.

Lançado em 2002, "Songs About Jane" ilustra um renascimento impressionante, ao misturar o R&B com o rock, com doses de Motown, sexo, raiva, amor e beleza, criados a partir de uma desilusão amorosa de Adam, com a tal "Jane", que intitula o material: "Há pelo menos uma linha em cada canção sobre ela", Levine disse em entrevista à Rolling Stone na época. Então, é basicamente como se cada faixa mostrasse uma fase desse relacionamento, desde os tempos bons, passando pelas crises, chegando ao puro ressentimento e, depois, a aceitação.

Sem mais delongas, bora acompanhar a review de um dos álbuns clássicos da década de 2000 e que deu à banda o Grammy de "Revelação" em 2005.

1) "Harder to Breathe"

O álbum abre com o cativante e soulful lead single, que é um indicativo e tanto de toda maravilha e diversidade que ouviremos pela frente. Do ponto de vista sonoro, é uma das grandes canções do álbum e da carreira da banda. Repleta de influências, que vão do pop-rock, passando pela sensualidade funky e os vocais dinâmicos de Levine no R&B, o single explora as várias fases da raiva pelo fim de um relacionamento sufocante e devastador, marcado por mentiras e incertezas. Mais tarde, Levine disse que o single também foi inspirado em sua insatisfação com o tratamento do antigo estúdio dado à banda, soando como um desabafo. Liricamente, é uma das canções mais tensas do álbum e, em alguns versos, soa até agressiva ("Você me enlouquece e me faz perguntar porque ainda estou aqui. (...) Você quer ficar, mas sabe muito bem que eu quero que vá. Você não merece nem andar pelo chão em que pisei!"), mas, no geral, é o primeiro hino de vários que ainda viriam.


2) "This Love"

O segundo single foi brilhantemente escolhido a partir daqui. Sleeper hit, música mais tocada no mundo em 2004 e responsável por apresentar a banda mundialmente, "This Love" mistura pop-rock, com uma linha de baixo funky, que se tornou clássica, lembrando muito "Superstition" de Stevie Wonder, sendo uma música que facilmente nos identificamos e uma das mais memoráveis da banda, tanto que venceu o Grammy de "Melhor Canção Feita por Um Duo ou Grupo" em 2006. Criada em cima do teclado elétrico, que mais tarde se junta à percussão sintetizada e a uma guitarra repetitiva, "This Love" é deslumbrante. Liricamente, a canção é baseada sob uma carga sexualmente atrativa e erotizada, a partir do término de Levine com a tal Jane: "Eu dei o meu melhor para saciar o apetite dela, fazendo-a gozar toda noite. Tão difícil mantê-la satisfeita. Continuava a fazer amor como se isso fosse só um jogo. Fingindo sentir o mesmo.  Depois dava meia-volta e ia embora de novo". Ui!


3) "Shiver"

Na sequência não temos um single, mas "Shiver" é outra grandiosa faixa em "Songs About Jane". Lindamente criada em cima da combinação funky e blues, com um desempenho formidável de Levine, que se entrega vocalmente e, mais uma vez, de forma sensual, aqui, a banda mostra uma recaída em sua saga, ao admitir falhas e que perdoaria tudo para ter a amada de volta, mesmo que ainda sob um sentimento erotizado: "Hipnotizado pelas palavras que você diz. Não são verdadeiras, mas eu acredito nelas mesmo assim. Então venha para a cama, está ficando tarde. Não há mais tempo para desperdiçarmos".


4) "She Will Be Loved"

Tá ouvindo? Tá ouvindo? É a minha/sua/nossa música. Primeira balada do "Songs About Jane" e um verdadeiro clássico dos anos 2000, "She Will Be Loved" foi o terceiro single do álbum, outro sucesso radiofônico e de aclamação crítica. Inspirada no blues e R&B, mas de forma mais suave e cheio de falsetes, Adam Levine conduz a delicada letra sobre reflexão, saudosismo e arrependimento, com maestria, sensualidade e muita verdade: "Nem tudo são arco-íris e borboletas. São as concessões que nos impulsionam. Meu coração está cheio e minha porta está sempre aberta. Venha sempre que quiser".


5) "Tangled"

A próxima faixa é outra que não teve um destaque enorme como as outras, mas é igualmente importante no álbum, porque mantém o equilíbrio. Midtempo pop-rock e com guitarras trazidas do blues, "Tangled" é sobre as consequências do pensamento de recaída vista em "She Will Be Loved": "Não tenho nada para dizer a você. Que você queira escutar Que você queira saber. Eu acho que eu deveria ir. As coisas que eu fiz são muito vergonhosas".


6) "The Sun"

Outra faixa inspirada no blues, "The Sun" conta com belos vocais e encanta desde a primeira ouvida. Aqui, somos informados que o tal pivô de toda essa reflexão, é um amor de infância ("Depois da escola, andando pra casa..."), que entristece o protagonista ao relembrar essa fase: "E eu não consigo me lembrar como a vida era através de fotografias. Tentando recriar imagens que a vida nos dá do nosso passado. E às vezes é uma música triste".

7) "Must Get Out"

Segunda balada do material, "Must Get Out" é, mesmo mostrando um período difícil da relação, ainda assim sonhadora: "Eu tento rir mas, ao invés disso, choro. Pacientemente espero ouvir as palavras que nunca disse". Outra bela letra e canção.


8) "Sunday Morning"

Outro clássico aclamado dos anos 2000, "Sunday Morning" é uma canção de amor com alma otimista, que possui lirismo poético e um impressionante arranjo de jazz, com um solo de piano e um de saxofone que dão um charme a mais pro quarto single do álbum. Esta canção traz um sentimento bom e é apenas uma brilhante colaboração da bela letra com instrumentais que a tornam comovente: "As nuvens nos envolvem num momento inesquecível. Você traça o meu molde, mas as coisas só se tornam loucas quando descobrimos que viver a vida é difícil".


9) "Secret"

Linda e longa, a baladinha "Secret" é mais uma faixa que serve pra desacelerar os batimentos e deixar o álbum equilibrado. De novo, temos uma ótima letra e bons instrumentais, porém, em alguns momentos, ela se torna enfadonha pelo excesso.


10) "Through With You"

Começando com guitarras elétricas pesadas, nos caminhamos para o final do álbum de estreia do Maroon 5 com a amarga e ressentida "Through With You", que traz o pop-rock de volta e intencionalmente abafa a voz de Adam Levine durante a produção raivosa: "E eu não confio em você Porque todo tempo que você está aqui, suas intenções não são claras".

11) "Not Coming Home"

Pegando carona na anterior, temos em "Not Coming Home" mais uma dose de ressentimento com guitarras e baixo, porém, mais madura e racional: "Você não sabe o quanto me machuca dizer essas coisas que eu não quero dizer. Mas tenho que dizê-las de qualquer modo. Eu faria de tudo para acabar com o seu sofrimento, mas você preferiria ir embora!".


12) "Sweetest Goodbye"

Contradizendo as duas músicas anteriores e finalizando o álbum, temos a maravilhosa e suave faixa pop-rock, "Sweetest Goodbye", que nos mostra a confusão mental que ainda paira na vida do protagonista, ainda que descreva uma saída pacífica ao final do relacionamento com Jane: "Eu nunca a deixarei pra trás. Ou te tratarei indelicadamente... Eu sei que você entende... E com uma lágrima em meu olho... Dê-me o adeus mais doce que eu já recebi...".


*****

Com canções de raiva, amor e liricamente belas, Maroon 5 fez de sua estreia com "Songs About Jane", um clássico e eclético álbum, com muito apelo de massa, o que faz jus à realidade desse fantástico trabalho, que demorou horrores até ser aceito pelo grande público. E só parem terem ideia, foi relançado duas vezes após seu lançamento inicial, levando cinco singles para realmente obter reconhecimento como material completo, mesmo incluindo faixas notáveis ​​como "She Will Be Loved", "This Love" e "Sunday Morning". Apenas em 2004, dois anos depois, "Songs About Jane" foi um disco de platina. O que é assustador, não é mesmo?

O legado deixado pelo álbum é incrível também, afinal, é por conta dele que seu vocalista se tornou um símbolo sexual e seguiu fazendo disso uma das grandes forças dos trabalhos seguintes da banda.

Particularmente, é nesse álbum que Maroon 5 viveu sua fase mais original e singular sonoramente, ao incorporar vários gêneros distintos em canções pop e ainda assim soar homogêneo. Bem diferente do pop radiofônico (e bom, diga-se) e que muitas vezes nada quer dizer de hoje.

Por fim, como uma pintura de uma mulher bonita, mas problemática (sob a visão de Levine) a ser admirada, "Songs About Jane" evoca uma obsessão pura e desesperadora, misturada com amor e perda. Cada linha de cada faixa foi composta cheia de desejo, arrependimento ou sexo. E são poucos álbuns hoje em dia que conseguem a proeza de terem inúmeros hits e ainda assim soarem agradáveis no conjunto da obra.

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