Throwback Review: *NSYNC oferece muito mais que 15 minutos de fama em "Celebrity", seu último e icônico álbum

O ano é 2001 e boybands como Backstreet Boys, Westlife e Five dominam as paradas e são idolatradas pelo público jovem. Enquanto isso, uma das maiores dessa fase planejava seu comeback, após toda a repercussão no processo movido contra seu antigo empresário e gravadora, culminando no lançamento e sucesso absoluto do seu segundo álbum, "No Strings Attached" (2000), os elogios após a performance no show do intervalo do Super Bowl e no Rock in Rio, além dos rumores de um possível hiato após o novo trabalho, para alguns membros se dedicarem a projetos solos. A boyband, em questão, é o *NSYNC. E o álbum da vez, é o icônico "Celebrity".
 

Terceiro e último álbum deles, foi lançado em 2001 e foi um sucesso estrondoso no mundo todo, ultrapassando a marca de 10 milhões de cópias vendidas, sendo o segundo maior recordista semanal das paradas norte-americanas, vendendo mais de 1.8 milhão de cópias apenas na semana de estreia e perdendo apenas para seu antecessor, que vendeu 2.4 milhões.
 

Indicado três vezes ao Grammy, incluindo o de "Melhor Álbum Pop", evidenciando ainda mais o destaque e favoritismo dado a Justin Timberlake, que havia sido um dos pontos altos em "No Strings Attached", e adotando uma postura musical mais arriscada que os dois álbuns anteriores, que eram predominantemente pop e R&B, em "Celebrity" vemos uma diversificação maior de gêneros, passando pelos já utilizados, além de europop, funky, eletrônico e suas variações predominarem. Isso, sem esquecer da proposta desafiadora (pra época), afinal, o álbum criticava, elogiava e se divertia com o lado bom e ruim da fama, numa clara demonstração de buscar amadurecimento e, quem sabe, abraçar novos públicos.
 

Composto por 13 faixas, tendo Timberlake co-escrevendo boa parte com JC e entre os produtores Pharrell Williams, Stargate e um tal de Max Martin (recrutado já nos álbuns anteriores, após os sucessos com os rivais do BSB), ainda engatinhando rumo ao sucesso, nossa Throwback Review, sobre um dos álbuns mais memoráveis dos anos 2000, começa agora:

1) "Pop"

À primeira ouvida, "Pop", produzida por Brian Transeau, tinha todos os ingredientes para dar errado: é estranha, com letras criticando de forma ácida a percepção sobre a fama e a importância maior que as pessoas dão à vida pessoal dos astros, antes da própria música ("Cansado de ouvir todas essas pessoas falando... Qual é o lance dessa vida pop e quando isso vai acabar? Você tem que perceber que o que estou fazendo não é uma moda. Tenho o dom da melodia, vou tocá-la até o final"// "Não importa as roupas que uso, onde eu vou e por quê. Tudo o que importa é que você fique estimulado e farei isso com você o tempo todo") e baseada em cima de um chocante (mas brilhante) arranjo pop-techno/vocais agressivos de JC e Justin, que foge um pouco do que nos acostumaram, além de sugerir algo sexualmente atrativo no refrão e repleto de elementos (de guitarras, sintetizadores e até o beatbox), que a tornam nada linear ou harmoniosa. Porém, quando o susto inicial passa, o single funciona e você se pega, despretensiosamente, afastando os móveis da sala e se jogando na magnética coreografia, é inegável não se encantar com uma das canções mais loucas e memoráveis dos anos 2000 e da carreira repleta de hits da boyband. Hinário!
 

2) "Celebrity"

Na sequência e com os sons de flashes sendo disparados, temos a canção que intitula o álbum, e que segue a proposta lírica bem construída da anterior, mas aqui, sobre as consequências de um jogo de interesses que pode se tornar uma relação com alguém rico e famoso: "Se eu não fosse uma celebridade, você seria tão boa para mim?", reclamam em um dos trechos. Do ponto de vista musical, a faixa é um ponto confuso, cheio de elementos entre o lado agressivo, misturados ao pop, R&B e harmonizações que, diferente do lead single, mais atrapalham que ajudam e, talvez, com exceção à sua letra, seja uma das mais fracas do material.

3) "The Game is Over"

Se na anterior fomos surpreendidos pelo som de flashes disparados por paparazzi, aqui, o que abre "The Game is Over" (também de forma sugestiva), é uma máquina de pinball acrescida pelo clássico jogo "Pac-Man", em que nos contam sobre uma relação rodeada de mentiras e traições, onde, ainda assim, a pessoa quer sair por cima, graças ao seu "poder" e não entende o fim: "Ainda que você pense que é uma estrela e aja como se todo mundo girasse à sua volta, querida, você pisou na bola e agora o jogo terminou". Também não muito convencional em sua eclética produção, mas acessível em todos os níveis, é mais uma que funciona.

4) "Girlfriend"

Produzido por Pharrell Williams, "Girlfriend", o terceiro single do álbum foi outro sucesso na carreira da boyband, tanto que ganhou duas versões: a oficial, presente no álbum e tendo apenas Timberlake & Cia; e uma versão remix (muito melhor), com o rapper Nelly, outro destaque absoluto do começo da década passada. Num misto delicioso de R&B e funky, temos aqui um dos maiores destaques do álbum e que dão a Justin Timberlake os holofotes absolutos, porque é ele quem domina o single por todos os lados, falando sobre como, mesmo que bem intencionado, a fama oferece algumas possibilidades um tanto quanto questionáveis, como sugerir um relacionamento a uma garota que já se encontra num: "Eu não sei porque você se preocupa. Ele nem mesmo sabe que você está aqui (oh não). (...) Porque você não é minha namorada? Eu tratarei você bem. Eu sei ouvir seus amigos. Porque se você for minha namorada, eu seria sua estrela cadente".
 

5) "The Two of Us"

Midtempo que tinha tudo pra ser esquecido, mas que soa interessante no contexto do material. "The Two of Us" é meio que um ensaio desacelerado para a mega balada que vem na sequência. Vocais mais calmos, moderados e, aparentemente felizes, que contrastam com a tristeza de um coração partido que sua letra sugere: "Estou pensando em você dia e noite. Eu simplesmente não consigo tirar você da minha mente". No mínimo merece a atenção.

6) "Gone"

É na dolorosa primeira balada do álbum e segundo single oficial, em que Max Martin dá o ar da graça pela primeira vez, ajudando Justin Timberlake na produção. Também seguindo a proposta sonora eclética dentro de uma mesma música que domina todo o álbum, em "Gone", temos uma montanha-russa que incorpora desde violinos, passando por uma guitarra flamenca, violão e piano, até chegar nesse sussurro fantasmagórico do refrão, que ecoa na sua cabeça. O destaque, totalmente e descaradamente dado a Justin Timberlake aqui (ele canta a música toda sozinho, tendo os outros apenas como vocais de apoio), é justificável: "Gone" foi uma das primeiras canções escritas para o "Justified", álbum de estreia em carreira solo de JT, lançado no final de 2002, porém, foi convencido a encaixá-la na despedida do *NSYNC. Porém, com uma condição... rs. Nem precisamos dizer que temos outro sucesso aqui, né?!
 

7) "Tell Me, Tell Me... Baby"

É o mago sueco e maior hitmaker da era atual do pop, Max Martin, que também assina a produção europop de "Tell Me, Tell Me... Baby". E, diferente do feito acima, aqui é uma canção agitada e com destaques novamente divididos entre JT e JC, numa ótima produção pop, mesmo que com um refrão pobre liricamente e um tanto quanto previsível: "Me diga, me diga, amor, como você não quer me amar? Você sabe que eu não consigo respirar sem você".
 

8) "Up Against the Wall"

Tentando minimizar um pouco toda a atenção que Justin recebeu nesse álbum (onde o grupo passa, claramente, a cantar em função dele), é JC quem comanda "Up Against the Wall", que mergulha num louco ziguezague europop, entre a letra sobre um passeio noturno num cruzeiro, em que encontra uma sedutora mulher pelos corredores, que o coloca contra a parede, literalmente.

9) "See Right Through You"

Encerrando a versão padrão do álbum, temos outra música dançante e sobre traição: "Baby como você pode me trair, depois de tudo que fiz por você?". É assim que se desenha a nona faixa do álbum. Aqui, temos uma leve inspiração em Michael Jackson por toda a canção, seja com os versos de Justin ou de JC.

10) "Selfish"

Aqui, temos a inusitada balada produzida por Brian McKnight, que ficaria fora do corte final, mas acabou sendo o quarto single do "Celebrity", uma das faixas preferidas dos fãs e uma das melhores do álbum. Particularmente, é a melhor e mais delicada letra do material, que trabalha com o medo de uma reaproximação: "Você pode me chamar de egoísta, mas tudo que eu quero é seu amor. Você pode me chamar de perdido, porque estou perdidamente apaixonado. Você pode me chamar de imperfeito, mas quem é perfeito? Diga-me o que tenho que fazer para provar que sou o único para você? Então o que há de errado em ser egoísta? (...) Eu vou tomar seu tempo até o dia que eu faça você entender que para você não há mais ninguém". A melodia simples ajuda a evidenciar que os melhores vocais do álbum também estão aqui. Timberlake, as harmonias e, principalmente, JC nas notas altas, estão magníficos. Grande trabalho!
 

11) "Just Don't Tell Me That"

Também produzida por Max Martin, é uma irmãzinha de "Tell Me, Tell Me... Baby", mas, particularmente, menos boba e agradável, ainda que fique devendo.

12) "Something Like You"

Outra bela balada do material e totalmente escrita por Justin Timberlake, que também leva a música sozinho, num tom mais baixo e belíssimo, repleto de harmonias e o arranjo tendo essa gaita ao fundo, que dá um ar vintage e delicado pra cada verso cantado.

13) "Do Your Thing"

 Encerrando o álbum, temos a eletrônica "Do Your Thing", que mesmo agradável, ainda é aquele tipo de faixa presente apenas pra ocupar espaço. E só.

Concluindo

Diferentemente do que fizeram em "No Strings Attached", seu álbum anterior, que foi completamente tomado pelo lado mais pop e, relativamente, jovial, que uma boyband pode demonstrar, em "Celebrity", há uma clara tentativa de mostrar amadurecimento. Seja pelo risco musical, causado pelo flerte maior com gêneros além dos já habituais, que dão ao álbum um estilo mais experimental (e momentos de altos e baixos), ou até mesmo por conta da proposta calculada em fazer do material um ponto crítico à sociedade da época, que fazia tudo (e ainda faz, convenhamos) por seus 15min de fama. Num todo, é o melhor, mais maduro e redondo registro da banda (acentuado pelo destaque ainda maior dado a Justin Timberlake), mas pensando neles como um dos maiores hitmakers do começo dos anos 2000, talvez seja o mais fraco em termos de hits grandiosos, uma vez que apenas "Pop" repercutiu tanto como os singles das eras anteriores, mesmo tendo destaques como "Gone" e "Girlfriend". No geral, "Celebrity" é uma das viagens mais icônicas do começo da década passada, cheia de nuances, onde críticas, elogios e brincadeiras ao relacionamento com o mundo dos famosos foram e ainda são extremamente relevantes nos dias atuais. E que fecha, com maestria, a carreira de uma das duplas rs boybands mais talentosas que o mundo pop já viu.

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