Throwback Review: drogas, solidão, amores e outros vícios em ‘Back to Black’, com Amy Winehouse

Ela tinha pouco mais de vinte anos, uma imagem aparentemente inofensiva, além de um característico penteado, que só perdia o posto de sua marca registrada para a principal de suas armas: a sua voz. 

Antes que os Estados Unidos e, consequentemente, resto do mundo se permitisse dar uma chance aos músicos britânicos, no que hoje acompanhamos com a aclamação em torno de Adele, Sam Smith, Joss Stone e outros mais levados para a música pop, como Jessie J, Florence + The Machine e até Ellie Goulding, uma única cantora foi a responsável por ultrapassar as barreiras do oceano, em tempo que também dominava indiscutivelmente a música de seu país, e trazendo às rádios uma melancolia sincera e até mesmo desbocada, provou da melhor forma possível que nada além da sua arte é o que imortaliza o artista.

Amy Winehouse foi um verdadeiro ícone para a música e por inúmeras razões. Fora ter aberto as portas para outros artistas britânicos, foi ela quem rompeu com diversos padrões ao se mostrar uma “artista feminina fora do convencional”, além de ter ditado às gravadoras de sua época o que segue sendo uma tendência até os dias de hoje, da junção de sua arte à sua persona, de sua tristeza à sua imponência e, claro, de seus mais sinceros sentimentos às suas letras.

O disco de estreia de Amy, “Frank” (2003), é daqueles que colocam nos ombros dos artistas a imensa responsabilidade quanto ao seu sucessor, no famigerado e frequentemente passado pra trás “desafio do segundo álbum”, mas Winehouse é mais um dos nomes que tiraram isso de letra e, com seu disco seguinte, não só provou um imenso amadurecimento musical, como também mostrou ser bem mais versátil do que seu primeiro álbum sugeria, além de bem mais triste. É por essas e outras que “Back to Black”, o segundo e, infelizmente, último disco da cantora em vida, se tornou não só uma obra obrigatória em sua discografia, como também no catálogo de qualquer um que se diga fã de todos os que só conseguiram seu espaço hoje graças à moçoila aqui. 

Vista-se de preto e entenda com a gente porque “Back to Black” é um dos melhores discos de todos os tempos e, por trás de suas influências de soul, jazz e R&B, o que faz dele uma das maiores influências para a indústria pop atual.

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“DE VOLTA AO PRETO”

Logo em seus primeiros versos, “Back to Black” traz o que se tornou o maior sucesso de Amy Winehouse. Passado o término de um relacionamento conturbado, seguido de problemas com álcool e drogas, a cantora vinha recebendo conselhos quanto a procurar tratamentos para a sua melhora e, difícil como era, fez graça da situação em “Rehab”. Sob a produção de Mark Ronson, que assina todo o disco ao lado de Salaam Remi, o arranjo pop faz com que sua confissão soe divertida, ainda que tratando de algo sério, e então ela entoa o clássico “eles tentaram me fazer ir para a reabilitação, mas eu disse que ‘não, não, não’”



Ao decorrer da música, a cantora explica que conversou com seu pai para saber o que ele pensava sobre isso e até chegou a procurar uma clínica, mas passou apenas alguns minutos por lá, visto que não achava que fosse o que precisava e podia encontrar o seu consolo em seus músicos favoritos. “Eu preferiria ficar em casa com Ray [Charles]. E eu não preciso de 70 dias [em tratamento], porque não há nada que você tenha para me ensinar que eu não possa aprender com Mr. Hathaway”.

Mantendo a influência da soul music, agora em tom menos radiofônico, “You Know I’m No Good” é uma confissão que mantém a mesma sinceridade amarga da música anterior. A maneira com que Amy descorre os fatos é bastante singular, enquanto ela narra sobre quando pareceu acabar com seu relacionamento por conta de uma traição, mas aos poucos entendia que talvez não fosse o único lado problemático da história.  “Eu me enganei, como eu sabia que faria. Eu te disse que eu era problema, você sabe que eu não sou boa”.



Especialista em relacionamentos que não dão certo, em “Mr. and Mrs. Jones”, a cantora fala sobre o que teve com o rapper Nas (na verdade, chamado Nasir Jones). Entre tantas referências ao rapaz, tática utilizada por ela bem antes de Taylor pensar em ser Swift, a cantora ressuscita uma sonoridade característica das rádios nos anos 50-60, com um coro que nos remete aos tempos das girl groups derivadas da Motown, enquanto vem com mais uma narrativa tragicamente cômica. “Ninguém fica entre mim e meu homem. Porque somos eu e o Mr. Jones. Eu e o Mr. Jones”.

E enquanto Mr. Jones era o homem de Amy, o seu parceiro em “Just Friends” parece não dar à ela a mesma certeza. Vindo com um reggae temperado com flertes do soul e R&B predominantes do disco, a música é quase que uma súplica de Winehouse ao seu amado, uma vez que a história deles caminha para um fim, visto que ele já está comprometido, mas eles nunca conseguem se libertar disso de verdade. “Eu não estou envergonhada, mas a culpa vai te matar. Isso se ela não fizer isso primeiro. Eu nunca vou te amar como ela. Acho que precisamos encontrar um momento para fazer isso juntos antes que as coisas piorem”.

Talvez a canção que melhor exemplifique o impacto de Amy Winehouse nos trabalhos de Adele, Sam Smith, entre outros, “Back to Black” não só é a faixa-título do disco, como também uma das mais simples e ainda assim elaboradas do material. Em mais uma de suas confissões de mágoas e amores proibidos, a música fala sobre o estado em que ela fica ao pensar que, ao se despedir dela, ele volta para as mãos daquela que julga ser um relacionamento mais seguro, enquanto ela se limita a ficar com sua solidão. “Nós dizemos adeus apenas por dizer e eu morro umas cem vezes. Você vai voltar para ela e eu voltarei para nós. Eu voltarei para a [minha] escuridão”.



Cada vez mais vulnerável, na sexta faixa do álbum Amy parece admitir o que já vinha comprovando com as narrativas anteriores. O amor é um jogo perdido. Com um arranjo mais minimalista, deixando em destaque seus vocais, a música carrega versos curtos, enquanto ela rebate cada um de seus feitos e sentimentos com a mesma conclusão: “Love Is A Losing Game”. “O amor é um jogo perdido. Um que eu gostaria de nunca ter jogado. Oh, que bagunça nós fizemos! E agora, na cena final, [descobrimos que] o amor é um jogo perdido”.

Com mais uma dose de Motown, aqui também trazendo um pouco de Marvin Gaye, “Tears Dry On Their Own” segue com sua sequência de amores que não deram certo. Na música, que foi mais um dos sucessos do “Back to Black”, ela parece passear por trechos de algumas anteriores, enquanto vai do arrependimento com Mr. Jones à escuridão de sua faixa-título, até que chega a outra estranha certeza de que, se não for com ele, logo ela estará partindo seu coração com outro homem. “Eu não posso brincar comigo mesma outra vez. Eu deveria ser minha melhor amiga e não acabar com a minha cabeça por causa de um cara estúpido”.



A noite é a melhor amiga da solidão. Em “Wake Up Alone”, Winehouse parece estar prestes a se conformar com o que tem (ou melhor, não tem) em mãos, e sob um arranjo minimalista, também produzido por Ronson, acompanhado de um tímido coro ao fundo, conta que os dias são fáceis, já que ela se mantém ocupada para não ficar pensando nele, mas basta chegar à noite pra que com ela chegue também o sentimento de solidão. Ela o tem em seus sonhos, mas quando abre os seus olhos, descobre que não o tem em seus braços. “E eu acordo sozinha”.


você tá em casa homenageando kelly key, né amore?eu também
Posted by WordArt nosso de cada dia on Sexta, 17 de julho de 2015

Por mais que o amor seja um jogo em que ela entra para perder, Amy Winehouse mantém, por trás de toda sua melancolia, um senso de lealdade à pessoa que estiver ao seu lado. No que é dita como a primeira composição sobre seu, até então, futuro ex-marido, Blake Fielder-Civil, “Some Unholy War” é a promessa dela sobre ficar ao lado de seu amado independente do que ele estiver disposto a fazer. Numa clara aversão a solidão, ela prefere estar mal acompanhada do que só e garante que, “sim, meu homem está lutando numa guerra profana e eu continuarei ao seu lado. E por quem ele morrer, eu morreria também”.

Sam Smith adoraria ter feito “He Can Only Hold Her” antes de Amy Winehouse. Sem deixar a temática amorosa, a música conta, de maneira sonoramente harmoniosa, sobre um relacionamento em que a garota está lá fisicamente, mas com a mente em outro lugar. Desta vez olhando pela perspectiva de uma terceira pessoa, Amy mostra os esforços do rapaz em trazer sua amada de volta, mas como ele poderia ter um coração que já foi roubado? “Ele pode apenas segurá-la por um tempo. É como se as luzes estivessem acesas, mas sem ninguém em casa. Ela está tão distante que sua alma foi tomada. E ele pensa, ‘do que ela está fugindo?’”.



Encerrando a versão standard do disco, Amy Winehouse parece finalmente se conformar com a solidão em “Addicted”, com a diferença de que, em vez de procurar por outros homens, ela prefere a companhia dela mesma e sua maconha. Brigando por ela como quem briga por um amor, ela se mostra segura em afirmar não precisar de mais nada, enquanto declara, ao som de uma percussão que caberia bem ao disco de estreia da Lily Allen: “eu sou meu próprio homem, então, quando você vai aprender que, enquanto você tem um homem, eu só tenho que acender um? Não faz nenhuma diferença se eu acabar sozinha, porque eu prefiro ter eu mesma e fumar minhas [plantas] caseiras. E isso me vicia, vicia mais do que qualquer idiota tenha conseguido”.

Por muitas soando como um contraponto a estreia em “Frank”, o álbum “Back to Black” nada mais mostra do que a vulnerabilidade de Amy Winehouse, que parecia estar tão disposta a amar quanto a não estar sozinha, entretanto, tinha apenas a solidão como sua fiel companheira. O consolo nas drogas e seu comportamento autodestrutivo se torna então a chave para o caminho tomado por sua melancolia, sincera e ironicamente encarnada em cada um dos versos que podem até fazer com que a gente se identifique vez ou outra, mas jamais fará com que a gente entenda o que realmente foi a sua escuridão.

Com um segundo álbum tão promissor, não é surpresa pra ninguém o quanto que lamentam até hoje a perda de uma cantora tão talentosa, e se ela conseguiu isso em seus tempos escuros, o que poderíamos esperar após uma reviravolta? Uma pena que a inspiração encontrada na escuridão tenha sido justamente sua luz no fim do túnel, seu sincero e mais profundo refúgio.

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