Sobre a Kéfera, as tragédias em Paris e a forma com que a internet tem sido palco para vários idiotas

A França está passando por um momento extremamente delicado. Ainda por motivos desconhecidos, essa sexta-feira (13) foi marcada por tiroteios e explosões que, pelas informações reveladas até aqui, deixaram pelo menos 140 mortos, fora os seriamente feridos, e de acordo com a imprensa local, há brasileiros entre as vítimas.

As redes sociais começaram mais uma daquelas campanhas em que mostram solidariedade aos familiares e, poxa, isso é mais que legal, afinal, pode até ser que seu tweet não salve uma vida, igual aquele compartilhamento do Facebook que não convenceu Jesus a curar nenhum câncer, mas dar apoio, ainda que apenas moral, já é um auxílio e tanto, só que nem tudo na internet é esse mar de rosas e, assim como pode dar voz às pessoas e causas bem intencionadas, ela também se torna palco para diversos idiotas, como foi o caso de um dos assuntos mais comentados após essa sexta-feira 13 que, definitivamente, assustou toda Paris.

Kéfera Buchmann é tipo a mulher mais famosa dessa nova geração de ídolos da internet, dona do titulo de brasileira com o maior número de assinantes no Youtube. Foi com esse canal que ela conquistou uma verdadeira legião de fãs e, atualmente aliada a aplicativos como Snapchat, continua erguendo um verdadeiro império de seguidores que parecem estar dispostos a consumir qualquer merda coisa que ela pensar em reproduzir.

Pensando nesta linha, foi mais ou menos assim que eles decidiram apoiar e rir junto da brincadeira da moça que, pelo Twitter, publicou um pouco mais cedo que, “para a tristeza das inimigas”, havia viajado para Paris e voltado viva. É, você não leu errado, ela viajou pra Paris e, no dia em que os franceses foram vítimas de inúmeros ataques por uma razão desconhecida, dia em que diversas famílias precisaram lidar com perdas totalmente inesperadas e de efeito incalculável, ela quis soltar uma piadinha por não ter sido uma das vítimas do atentado. Porra, Kéfera.

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Publicações em seu Twitter foram apagadas e, mais tarde, houve uma tentativa de explicação pelo Facebook

É claro que toda história tem dois lados e, como dissemos, a mesma internet que hoje viabiliza ações solidárias como das pessoas que se mobilizaram pelas vítimas na internet — assim como também dá espaço para debates que, antes de sua ascensão, não eram colocados em prática com as mesmas proporções, como é o caso do feminismo e racismo, amplamente discutido nas redes sociais atualmente —, também dá palco para muitos babacas e, neste caso, o erro não foi só da Kéfera que, como uma figura pública, deveria estar ciente do alcance que suas palavras possuem, assim como o impacto dela dentro de um cenário tão delicado, mas também dos que incentivaram esse comentário. Mas como você incentiva alguém a dizer que não morreu em Paris? Oras, justamente desejando publicamente o contrário.

Logo que as notícias sobre os atentados ganharam a internet, vários usuários que aparentemente não gostam do trabalho da Kéfera e sabiam que ela estava por lá, começaram a publicar em seus perfis ofensas a brasileira, bem como expressar o desejo de que ela fosse uma das vítimas dos ocorridos. Razão pela qual, ao voltar para o seu país e, bem, de fato, viva, ela decidiu dar o troco.

Por mais imparciais que tentemos ser numa hora dessas, não há como questionar o fato de que ambos os lados falharam e muito. Pra começar, a gente pensa no que se passa na cabeça de uma pessoa que, ao saber sobre os atentados na capital francesa, torce pra que uma pessoa específica seja uma das vítimas (?), em mais um episódio em que a internet banaliza e tenta fazer graça de algo realmente sério.

Do outro lado da história, a gente também questiona a postura dela que, ao se defender, terminou atacando outras pessoas, e nem adianta dizer que ela não sabia do ocorrido, já que estava numa rede social em que o assunto foi comentado incessantemente (continua, inclusive) e, ei, estamos falando de alguém que se diz profissional da internet, né? O mínimo que ela deveria entender é o quanto 140 caracteres podem ser prejudiciais para uma carreira que ela construiu com esquetes de cinco minutos pelo Youtube.

Uma das partes mais lamentáveis, pelo menos em relação a essa discussão específica, é a maneira com que desvirtuam por completo algo extremamente sério, seja resumindo uma tragédia como a vivenciada pelos franceses nesta sexta-feira (13) à mais um dia normal da vida de uma das personalidades mais famosas da internet brasileira ou fazendo brincadeira sobre o assunto apenas para dar o troco aos sabe-se lá quantos desocupados que preferiram ficar torcendo pela morte da moça a fazer qualquer coisa que realmente fosse útil para a vida deles. 

O que nos leva a conclusão de que a internet, a única e imensa rede que interliga tantos e tantos usuários ao redor do globo, imensa de funcionalidades e espaços para as mais variadas utilidades, tem dado palco de sobra para idiotas e, o pior, com plateia de sobra para eles também. O que explica o sucesso dos Gentillis, Rafinhas, Christians e contando. O que explica a repercussão sobre essa declaração da Kéfera, bem como as razões que justificariam essa ação. O que explica esse post, inclusive.

E, sinceramente, com um catálogo tão limitado do que chamam de talento e humor ultimamente, nos preocupa esse cenário em que a falta de ícones passa a fazer com que o público endeuse e se sinta representado por qualquer coisa. E que justifiquem todas essas quaisquer coisas por uma benção chamada liberdade de expressão, vez ou outra confundida como um passe livre para expressar qualquer merda que vier em mente, doa a quem doer.

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Mas mais importante que discutir sobre o que ela disse ou deixou de falar, bem como o que responderam para ela sobre isso, é voltar nossas atenções ao que realmente interessa nesta história toda. A capital francesa continua em choque e, para a nossa tristeza, com um número crescente de vítimas conforme afunilam as investigações. Se você estiver em Paris, é possível utilizar as redes sociais para contribuir também, tanto alertando seus amigos e familiares sobre o seu estado, com o Centro de Segurança do Facebook, quanto oferecendo moradia para vítimas que estiverem desabrigadas próximas a você, com a hashtag #PorteOuverte no Twitter.

Por fim, a gente só faz valer mais uma leitura: “Não quer ajudar, não atrapalha”. E aproveitamos o espaço para mostrar nosso respeito e sentimento pelas famílias afetadas com os atentados. Sentimos muito mesmo.
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