O Charlie Sheen é HIV positivo, mas e daí? Daí que a gente precisa sentar e conversar


Se você acessou um site de notícias ou alguma das suas redes sociais nos últimos dias, é bem provável que você tenha visto o anúncio que o ator norte-americano Charlie Sheen fez durante uma entrevista para o programa “Today Show”. Aos 50 anos, o ator conhecido pelo seu papel na série de comédia “Two and a Half Man”, confirmou a suspeita: ele é HIV+. Diante disso, precisamos parar para pensar: o que uma declaração tão forte como essa, vindo de uma pessoa tão representativa, pode afetar na nossa vida?


Pra responder essa questão precisamos organizar nossas ideias e destacar alguns pontos importantes sobre isso. Que o HIV é um assunto de interesse mundial e que, vira e mexe, nos deparamos com notícias, dados e novas pesquisas sobre o assunto, a gente já sabe, mas assim que uma figura pública tão conhecida quanto o Charlie joga luz sobre um tema, precisamos saber que, mais do que nunca, é a hora de discutir o assunto e quebrar preconceitos.

Outros famosos já tiveram a coragem de enfrentar a opinião pública e expor algumas questões pessoais (não, o Charlie não é obrigado a contar nada pra ninguém – vamos falar sobre isso já, já) e que, dessa forma, conseguiram chamar a atenção da mídia, promoveram discussões entre os mais diferentes tipos de pessoa e, o mais importante, trouxeram ao nosso conhecimento informações precisas e relevantes sobre aquele determinado assunto.

Quem não lembra quando Caitlyn Jenner tomou coragem e contou sua história ao mundo? Você, querendo ou não, gostando ou não, viu o assunto ganhar a atenção de muita gente e, com isso, aprendeu (ou deveria ter aprendido) mais sobre sexualidade, sobre a questão de gênero e, a gente também espera, sobre tolerância, respeito e amor ao próximo.


Então, a primeira coisa que já podemos dizer é: Charlie, obrigado pela coragem em dividir isso com a gente e por colocar a questão do HIV bem aqui, na nossa cara. E não, isso não é sensacionalismo por parte da mídia, como alguns ainda insistem em dizer.


Só porque se trata de um assunto pessoal sobre uma celebridade, a notícia não pode ser reduzida e rotulada simplesmente como fofoca. Ela é uma (excelente) oportunidade de estimular a discussão pública sobre o assunto. HIV é um assunto. Terrorismo é outro. Um não tem mais importância do que o outro. Informar sobre um, não significa não discutir o outro. A gente pode (e deve) se informar sobre tudo. A comunicação é maravilhosa justamente por isso.

Voltando à atitude de Charlie. Muita gente já parabenizou o ator pela sua coragem, mas ao mesmo tempo, vimos muitas pessoas que resolveram colocar o cara como vilão dessa história. Sabe como? Culpando o ator por ter transado sem o uso de preservativo. Olha só isso: 




Antes de mais nada: você esteve lá?  Você transou com ele? Então não dá pra saber o que exatamente o que aconteceu, né? Vamos deixar os julgamentos de lado, por favor.  

Porém, o mais importante disso tudo é: quem disse que a obrigação do uso do preservativo está nas mãos do parceiro soropositivo? Todos nós temos o direito de nos proteger. Por isso, você sabendo ou não, ele te contando ou não, a obrigação de exigir o uso do preservativo também é sua. Uma pessoa que recebe o diagnóstico positivo de HIV já tem questões suficientes pra lidar. Vamos combinar que ninguém precisa jogar nas costas do outro o fato de que você também abriu mão do uso do preservativo, não é mesmo?

E tem uma coisa muito legal que a Jout Jout (a vlogueira) trouxe num vídeo com o querido Gabriel Estrëla, ator e também soropositivo, que é o seguinte: todo portador do vírus tem o direito ao sigilo da sua condição, ou seja, ninguém é obrigado a contar que é soropositivo.  
Mas é importante a gente te lembrar também que, uma pessoa, sabidamente HIV+ e que tem a intenção de transmitir a doença sexualmente transmissível para outra pessoa, com provas concretas, pode responder judicialmente, de acordo com a legislação brasileira. (como o caso do “Clube do Carimbo”, lembram?)



Esse vídeo é ótimo e traz um monte de informações legais. Não deixe de assistir. Inclusive, enquanto estávamos montando esse texto, batemos um papo com o Gabriel, o cara que participa do vídeo, e ele nos ajudou a pensar em questões super importantes sobre o assunto. Ele tem um projeto muito bacana que a gente indica pra vocês

Voltando. Talvez o Charlie Sheen tenha revelado tudo isso pra acabar com os rumores, talvez ele tenha contado pra se libertar, de uma vez por todas, de algo que não aguentava mais esconder. Durante o nosso bate papo, o Gabriel, comentou sobre isso também: cada um lida com sua sorologia de formas diferentes. O estigma é grande e com ele vem o preconceito e a discriminação. [...] acho que ele contou para não sofrer essa discriminação”.

Talvez a gente nunca saiba o real motivo, mas o que importa pra gente é que ele tomou essa decisão no tempo dele, exatamente quando se sentiu preparado e disposto pra enfrentar tudo que vem enfrentando (e que ainda vai enfrentar).

O que é muito interessante nessa história toda, e que a gente não pode ignorar, é o fato de que o ator sempre teve sua imagem associada (e, muitas vezes, idolatrada) pelo público heterossexual. Charlie se tornou mundialmente famoso, ganhou muito dinheiro e nunca teve vergonha de esconder que gosta de sexo. Chegou a se gabar por aí que já havia transado com mais de cinco mil mulheres.

Aqui no Brasil, a página “Orgulho de Ser Hétero” já usou inúmeras vezes a imagem do ator para fazer memes e ressaltar a figura do machão, sabe? 



E quando o diagnóstico do ator veio à tona essa semana, muita gente já saiu apontando o dedo e debochando do fato do cara, tido como um modelo hétero, ter confessado ser soropositivo. E pra gente, isso soa de uma forma tão preconceituosa.


Sério que tem gente “comemorando” o fato do cara ser soropositivo? Parece que temos a obrigação de apontar o dedo pra eles, já que eles apontam o dedo pra gente. É isso? Mas o que nós, vocês, a mídia e quem mais quiser deve fazer é aproveitar essa identificação do público heterossexual com o Charlie Sheen e, quebrar de uma vez por todas, a ideia de que o HIV é um vírus que deve ser associado ao público gay.

Todos nós temos o risco de sermos contaminados pelo vírus do HIV se a gente fizer sexo sem o uso de preservativo. Entendido?“No matter gay, straight or bi, lesbian, transgendered life”.

Infelizmente, assumir ser portador do vírus HIV ainda faz com que muita gente aponte o dedo e se ache no direito de fazer um monte de julgamentos a seu respeito, a respeito da sua vida sexual e, muitas vezes, até mesmo da sua orientação sexual.  Charlie Sheen mesmo assumiu durante a entrevista que tem o medo de ser lembrado somente pelo fato de ser soropositivo e não mais pelo seu trabalho.


Por isso, vamos aproveitar esse momento e essa discussão que o Charlie Sheen trouxe e vamos nos informar sobre o assunto. Sério, gente. Tem muita coisa que a gente precisa aprender (de verdade) sobre o assunto: formas de contágio, tratamento, PreP, PeP. 

Aliás, leia também esse excelente texto sobre carga viral indetectável. Charlie Sheen comentou sobre isso durante a sua entrevista e você precisa saber do que se trata.  

Durante a nossa conversa com o Gabriel Estrëla , ele ainda destacou que “provavelmente o Charlie Sheen não é o único com alcance de mídia para trabalhar de forma massiva informações relacionadas ao vírus, mas foi quem se dispôs e esperamos que ele use esse espaço bem”!

E a gente espera que todos nós consigamos usar bem esse espaço, por isso, nosso muito obrigado ao Charlie, ao Gabriel e a todos os que lutam, diariamente, pela quebra do preconceito e do estigma com com relação ao HIV.

Ele já fez a gente sorrir, falar sobre sexo e pensar sobre as drogas, mas agora chegou o momento do Charlie Sheen usar da sua sorologia e da sua afinidade com o público hétero e criar uma oportunidade para a gente discutir o HIV de uma maneira bem objetiva e honesta, quebrando preconceitos, esclarecendo a população e alertando sobre informações que são importantes para todos nós. 

Portanto, esperamos que a atitude do Charlie e que esse nosso texto seja apenas o começo pra você. Se informe e promova diálogos. Quem sabe assim, a gente não ajuda a quebrar muitos preconceitos com relação ao HIV.    


Tecnologia do Blogger.