Album Review: Demi Lovato quer nos convencer com uma personagem que nem ela parece acreditar em “Confident”

Não há nada de errado em ser confiante, Demi Lovato, mas como atriz, você deve saber que o personagem simplesmente não acontece, caso seu intérprete não acredite nele.

“Confident” é o mais novo álbum da Demi Lovato e, inicialmente promovido pelos singles “Cool For The Summer” e sua faixa-título, prometia uma reviravolta e tanto na sonoridade da cantora. Pra começar, Lovato passou a ser frequentemente desafiada. Não é como se a cantora estivesse apenas lançando mais um disco apoiada no título de “ex-estrela da Disney”, desta vez ela estava prestes a se aventurar num cenário que aceitou suas colegas de trabalho, Miley Cyrus e Selena Gomez, com os braços abertos, e por mais que já tivesse amadurecido sua imagem em um disco anterior, Lovato ainda brigava pra amadurecer também o seu público, oportunidade que deixou passar por pouco com esse novo trabalho.



Confira a seguir nossa resenha faixa-à-faixa:

“Confident”

Soam as trombetas que anunciam a chegada de “Confident”. Nas mãos de Max Martin, Lovato nos traz uma banger poderosamente pulsante, enquanto exclama para quem quiser ouvir o quanto faz o que bem entender, pois se sente mais confiante do que nunca, e sensualmente questiona, “o que há de errado em ser confiante?”. A percussão é o que dita o ritmo da música, quase que sem pausas para respirarmos, numa verdadeira fanfarra pop, que caberia bem ao repertório da Christina Aguilera.

“Cool For The Summer”

Ela dificilmente nos decepciona com lead singles, principalmente se pensarmos em “Skyscraper” e “Heart Attack”, dos dois álbuns anteriores, e com “Cool For The Summer” não foi diferente. Com um pop repleto de sintetizadores, a cantora por pouco não soou mais do mesmo para as rádios que já tocam incessantemente os sucessos da Taylor Swift, mas o grande diferencial aqui se dá por conta dos riffs de guitarra, que ora nos remete ao hit “Break The Rules”, da Charli XCX, além de toda a ousadia que ela parece exalar em cada um dos versos, também repleto de teor sexual. A fórmula é impecável e faz dessa a melhor música do disco, sem dúvidas, e talvez até mesmo uma das melhores de toda sua carreira.

“Old Ways”

Numa investida bastante esforçada, “Old Ways” é a promessa de que Demi Lovato não voltará aos seus antigos hábitos. Nos versos iniciais, a cantora parece fazer referência ao tempo em que se automutilava e, de lá até o refrão, a música cresce numa sonoridade que passeia entre o dubstep e trap, entretanto, falha miseravelmente ao tentar soar como algo novo. Até convencendo por ser uma música ok, mas não mais do que isso. Soa como uma versão repaginada de “Heart Attack” ou qualquer outra demo do disco anterior, retrabalhada para funcionar com o público que se apegou à “Dark Horse”, da Katy Perry.

“For You”

E o retrocesso continua em “For You”. Enquanto as primeiras músicas do disco indicavam um material que olhava para frente, arriscando coisas nunca feitas pela cantora, essa e a música anterior são exatamente o que ela já faz há algum tempo. Ainda mais genérica que a música anterior, “For You” é uma mid-tempo em que ela se diz cansada de fazer o que fosse pelo amado, mas não ter essa dedicação em troca. Musicalmente falando, o dubstep volta a dar às caras timidamente, por trás de uma percussão que dá um ar mais dramático à canção. “Eu faria qualquer coisa por você”.

“Stone Cold”

Primeira baladinha do disco, “Stone Cold” nos impressionou desde a primeira vez que foi apresentada, ainda durante a pré-divulgação do álbum. Não é surpresa pra ninguém que, dessa geração Disney que vem buscando seu espaço fora da emissora, Lovato tem a melhor voz, mas em propostas como as duas músicas anteriores ela não consegue aproveitar isso, encontrando mais facilidade para brilhar em produções como essa. Na música, ela tá acabada porque o cara que ama está em outro relacionamento, mas se mostra compreensível, dizendo que se esforça pra ficar feliz por ele estar bem e em outra. Fazia um tempo que não a víamos ir tão longe com uma balada.



“Kingdom Come”

E depois do tiro que foi “Stone Cold”, vem “Kingdom Come” pra dividir opiniões. Por mais que a música soe bem, a parceria com Iggy Azalea perde pontos pela fórmula extremamente genérica, nos remetendo de músicas da própria Demi Lovato (“Heart Attack”) à lembranças mais descaradas, como “Chandelier”, da Sia, pelo ritmo do seu pré-refrão, e claro, “Black Widow”, da própria Azalea, que instantaneamente vem em mente quando chegamos no break da canção. Repleta de frases de efeito que não chegam a lugar nenhum, sua letra parece ter sido feito às pressas, o que não é bom, acredite.

“Waitin’ For You”

“Você disse que nunca ia me machucar. Seria o band-aid quando eu sangrasse. Mas eu acho que esse band-aid foi todo feito de papel, porque você nunca ficou preso a mim”. De volta ao trap, Demi Lovato vem na defensiva com “Waitin’ For You”, afirmando estar a frente dos seus inimigos e pronta para um próximo round, mas no fim das contas, se torna apenas mais música que caminha para lugar nenhum. Sirah, rapper famosa pelos trabalhos com Skrillex (“Bangarang” e “Kyoto”), faz uma aparição bem meia-boca, apenas reforçando os versos genéricos já entoados pela cantora. Passamos.



“Wildfire”

Passado o bloco trap, “Wildfire” prova a máxima de que menos é mais e volta a aliviar o lado do álbum. Com a produção assertiva do Stargate (que, entre outras coisas, produziu “Diamonds”, da Rihanna), a música é sobre um novo relacionamento que pega fogo, quase literalmente, com ela dizendo que ele é fogo e ela gasolina. Totalmente entregue aos novos sentimentos, ele é tudo o que ela precisava, então Demi pede: “me toque como se fosse sua primeira guitarra, em que cada nota é bastante difícil. Eu não me importo, você pode me levar [para onde quiser]. Nós podemos incendiar o mundo”. Em seus segundos finais, ela ainda arrisca alguns “whistles”, que são aqueles gritinhos da Mariah Carey, sabe? Também marcados para o público mais jovem pelos trabalhos da Ariana Grande. 

“Lionheart”

Nós dissemos que ela se encontra nas baladinhas. Toda apoteótica, “Lionheart” é uma música que funcionaria perfeitamente bem no repertório da cantora australiana Sia e fala sobre uma relação que faz você se sentir seguro, pronto pra enfrentar o que for. Com vocais e letra impecáveis, a cantora entoa versos como “estamos diante de uma guerra, mas nosso amor conquistará tudo isso, porque temos corações de leão”.



“Yes”

Agora sim fazendo jus à expectativa causada pelos primeiros singles, “Yes” é uma das melhores do álbum. Sob estalos e sintetizadores que parecem anunciar algo ainda maior, os segundos iniciais nos causam toda uma ansiedade quanto ao que vem a seguir, ascendendo com um refrão que exala força e, por sua vez, confiança, com ela se entregando por completo e não aceitando um “não” como resposta. Timidamente, o trap volta a dar as caras em seu pré-refrão, mas ao contrário das outras tentativas, neste caso ele funciona muito bem. “Aqui está o meu corpo, que estou dando por nós. Aqui estão meus braços, que irão nos segurar. Aqui está a minha vida, dedicada ao amor”.

“Father”

Com um arranjo minimalista, aqui dando espaço para sua voz e letra extremamente confessional, essa é mais uma homenagem de Demi Lovato para seu pai, que faleceu aos 53 anos e não foi muito próximo dela desde o divórcio com sua mãe. Essa não é a primeira vez que ela fala sobre essa relação, visto que o disco “Unbroken” também traz “For The Love Of A Daughter”, e toda essa história parece marcar bastante a cantora. Por sorte, acreditamos que desta vez ela conseguiu se libertar como nunca antes quanto a esse assunto, uma vez que, na canção, ela não só confessa que muitas vezes o odiou, como se desculpa por esse sentimento e, por fim, torce pra que, seja aonde ele estiver, que esteja bem. “Eu sei que você nunca teve a chance de ser você mesmo, dar o seu melhor, mas eu espero que o céu te dê uma segunda chance”. De arrepiar.

“Stars”

Outra vez flertando com a trap music, “Stars” repete a percussão pulsante de “Confident” e, com ela, o acerto da faixa-título também. Esforçando-se para soar mais ousada do que nunca, Demi Lovato afirma que, com seu amado, não precisa de luz alguma, já que eles são estrelas (então têm luz própria) e reforça o conceito do disco, ao dizer que vai se divertir e está pouco se fodendo para o que vão pensar. Ainda que esteja na versão deluxe do álbum, funcionaria bem como um single.



“Mr. Hughes”

Partindo para uma proposta que destoa de todo o resto, “Mr. Hughes” é uma investida bem pop no jazz, nos remetendo aos trabalhos da Meghan Trainor e algumas canções da Ariana Grande também. Na música, Demi parece mandar um “baby, baba, olha o que perdeu”, para um cara que não deu bola pra ela quando poderia, mas agora está no seu pé e não tem chance nenhuma. É divertida. “Me escuta, querido, eu tenho algo novo para dizer. Eu te perdoo, mas não posso esquecer suas mancadas. Agora eu acho que está na hora de você pagar”.


***

Com o fim do disco, Lovato nos deixa com uma sensação vaga, de indiferença. “Confident” é um álbum repleto de músicas boas, como seus singles não nos deixam mentir, mas não conversa entre si e, o pior, sequer consegue suportar a temática da mulher forte e confiante que a cantora tanto alimentou. E nessa tentativa incessante de reafirmar o que ninguém perguntou, a impressão deixada é que a autoconfiança dela é tão sólida quanto da Jessie J, que canta desde a sua estreia sobre não se importar com a opinião dos outros e já lançou três discos em que fala justamente sobre a mesma coisa.



O talento de Demi Lovato é inquestionável, bem como o fato dela ser a melhor voz entre suas ditas concorrentes e antigas colegas de trabalho, mas todos seus esforços são vãos quando a própria não consegue se convencer da personagem que quer nos apresentar e, na ambição por prêmios, paradas e outros números, mais recorre perigosamente à fórmulas batidas, na expectativa de seguir tendências, do que nos propõe uma reinvenção artística, de fato. Colocando em risco não só a identidade que conquistou até aqui, como também sua longevidade na música.

Não há nada de errado em ser confiante, Demi Lovato, então confie em você. Nós confiamos.
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