O que não te falaram sobre a confusão da Azealia Banks com os franceses naquele avião ¯\_(ツ)_/¯

Você viu a treta da Azealia Banks? A rapper armou o maior barraco num avião lá em Nova York e, não contente com as confusões que faz no Twitter, tratou de cuspir, agredir e ainda xingar um passageiro francês de “bichona”. Mulher agressiva essa, hein? Vendo assim, nem parece que tem uma carreira a zelar.

A verdade é que toda a confusão terminou ganhando a internet numa versão única, uma discussão quase que uníssona, e daí quando a principal envolvida nisso tentou se explicar, obviamente, por sua rede social favorita, o Twitter, ela foi ridicularizada e, o pior, tachada de vitimista, reclamona, até exagerada. Títulos que mulheres costumam receber quando querem questionar atitudes machistas, negros com questões racistas, gays com a homofobia, entre outros casos. Nada novo sob o sol.



Não é de hoje que Azealia Banks se envolve em confusões por se expressar mal. A rapper, desde sua ascensão, bem antes do lançamento do seu disco de estreia, “Broke With Expensive Taste”, trabalhou com muita gente grande, nomes como Lady Gaga, Kanye West, Beyoncé, Diplo e Pharrell Williams, só pra citar alguns, mas repentinamente arranjou problemas com cada um deles. Pelo o que diziam, quase sempre o problema era ela e, se pegarmos isso somado aos barracos que ela se envolve pela internet, com anônimos e outros famosos, tipo Iggy Azalea e Lily Allen, o que temos é a moça com um perfil de problemática mesmo, mas se pararmos para dar ouvido ao que ela diz, terminamos compreendendo que as coisas não são bem assim.

No caso com o Pharrell Williams, por exemplo, Azealia Banks tornou público que se desentenderam porque ele estava sempre ocupado demais para ajudá-la a promover a parceria dos dois em “ATM Jam”, enquanto aparecia na imprensa com Justin Timberlake, Miley Cyrus e outros artistas que, como a própria destacou, eram brancos. Quando deu pra discutir com a Iggy Azalea, a coisa foi ainda mais embaixo. Banks não concordava em ver a australiana levando o crédito por “popularizar” o hip-hop, sendo que existem outras mulheres no mesmo gênero e entregando um trabalho bem superior ao da dona de “Fancy”, e mais uma vez botava na mesa a questão racial, abrindo debates sobre apropriação cultural e o racismo na indústria.



Conversa vai, conversa vem, Azealia Banks discutiu tanta coisa, que acabou cansando muita gente com seus discursos, como se batesse o tempo todo na mesma tecla, mas o problema estava nela acusar racismo ou nele realmente afetá-la? Se a resposta não for a segunda opção, por que seu disco de estreia, que é realmente maravilhoso, não teve toda a atenção de outros discos lançados naquele mesmo ano? Por que seus singles, clipes, etc, não tiveram o mesmo apelo de rappers como a Iggy Azalea?

Numa entrevista em que é abordado sobre essas questões, não diretamente, Macklemore, da dupla Macklemore and Ryan Lewis, mostrou ter feito a lição de casa, afirmando que, se uma mulher negra se diz vítima de racismo nessa indústria, ele e os outros têm mais é que parar e ouvi-la, já que realmente são privilegiados e, pensando num ponto de vista realmente preconceituoso, mais atraentes que artistas negros fazendo exatamente o mesmo som.



O racismo na música não é novidade e, para a surpresa dos ingênuos de plantão, ter meia dúzia de negros nas premiações da MTV, paradas da Billboard, entre outras coisas, não faz disso algo atualmente nulo. Seria tão estúpido quanto dizer que acabou a homofobia no Brasil, já que teve beijo gay naquela novela da Globo. Simplesmente não faz sentido.

Mas voltando a Azealia e o caso do avião.

Enquanto todos os sites falavam sobre a rapper ter armado confusão, agredido um passageiro, xingado-o com um termo homofóbico e tudo mais, a rapper usou seu Twitter para contar a sua versão e, entre tweets que permaneceram online e outros que foram apagados, afirmou que, como esperávamos, as coisas não aconteceram como alardeou o TMZ, sob a defesa de um vídeo tendenciosamente cortado.



Segundo Banks, ela queria sair do avião e, próximo ao seu assento, havia uma saída que seria mais rápida que a correta. Até aí tudo bem. O problema é que no seu caminho havia um casal de franceses e, aparentemente, esses não foram muito amigáveis quanto a deixá-la passar. Foi aí que o desentendimento começou e, no que se tornara uma discussão, o passageiro levantou a mão para Azealia, ameaçando agredi-la. Num súbito de autodefesa, ela então o agride e, em meio a discussão, cospe no cara. A confusão estava armada. 

Quando chegam funcionários da aeronave para amenizar o ocorrido, a rapper já está claramente alterada e é a partir daí que começa o vídeo revelado pelo site TMZ, com ela pedindo pra que devolvam a mala dela e dizendo que só queria sair do avião e ir pra casa. No próprio vídeo, o pedido de Azealia não é atendido prontamente, fazendo com que ela se irrite ainda mais e, na raiva, xingue o rapaz de “bichona” (em inglês, “faggot”, termo utilizado para se referir aos gays de maneira pejorativa). Fim da confusão. Fim da confusão? Antes fosse.

É importante que os fatos sejam expostos de maneira justa e ampla, justamente pra que todos os problemas da cena possam ser analisados e, desta forma, as ações corretas possam ser tomadas. O que, de fato, caberia à situação, seria a abertura de uma denúncia, mas tanto o casal quanto Azealia Banks optaram por não fazê-lo, de forma que a confusão só se estendeu devido a maneira tendenciosa com que a mídia tratou o assunto, colocando a rapper como a vilã de toda a situação e destacando o momento em que ela ofende o rapaz de maneira homofóbica, enquanto ignora toda a parte em que ela, como uma mulher e negra, é impedida de sair do avião e ameaçada de ser agredida. Sequer há quem se disponha a contar o que ele disse à ela durante a discussão.


Em seu Twitter, Azealia Banks afirmou só ter que se desculpar com os seus fãs, que devem se chatear vendo seu nome envolvido em confusões frequentemente, e explicou que jamais deixará homem nenhum levantar a mão pra ela, uma vez que também lida com lembranças de sua infância, com uma família desestruturada e agressões frequentes, e já foi vítima de violência doméstica. Isso justifica ela ter cuspido no cara ou xingado-o de “bichona”? Infelizmente, não. Mas, como dissemos, o intuito aqui é expor as coisas de uma maneira mais ampla, de forma que todos possam ser entendidos e não apenas apresentar um vídeo de origem duvidosa e com uma edição tendenciosa, colocando a mulher negra como a culpada e vilã de toda a história, sendo que houveram coisas além do tal insulto.

Falando sobre o “faggot” de Azealia Banks, a rapper possui uma visão um pouco deturpada e até ingênua quanto a expressão. Quando utilizou a ofensa com o blogueiro Perez Hilton, Banks explicou que não associa a palavra aos homossexuais, até relembrando nesse episódio que é bi, tem trans na família e trabalha com toda uma equipe formada por outros gays, e sim para se referir a um cara “filho da puta”, que tenta passar por cima de uma mulher, ser superior à alguém. Mas vamos lá, Lady Gaga dizer que “The Fame Monster” é um CD não o torna menos EP, da mesma maneira com que ela não pode simplesmente empregar um novo sentido à palavra e assim justificar sua utilização. O mal entendido nos lembrou do episódio “The F Word”, da animação “South Park”, vale a pesquisa.



Seja como for, pode-se dizer que Azealia Banks não está de todo errada, assim como não esteve certa durante todo o ocorrido. Por essa confusão e outras, a rapper se mostra bastante politizada quando o assunto é racismo, apropriação cultural, etc, mas ainda deve um pouco quanto a empatia com os homossexuais, ainda que tenha amigos, familiares e seja uma, e traçando um paralelo bastante inusitado, dá pra dizer que ela e a Miley Cyrus poderiam bater um papo, já que essa última tem se mostrado bastante interessada quanto aos direitos da comunidade LGBTQ, principalmente nas lutas pela representatividade trans, mas sempre pisa na bola quando o assunto é falar sobre os negros e o que ela representa ao utilizar a cultura deles.

Mas olha, tudo isso ainda é assunto pra muita discussão, viu? E agradecemos que Azealia Banks esteja tão disposta a isso. O importante é não sair opinando sobre aquilo que não compreendemos e, se for ficar de algum lado, que realmente conheça a versão de todos os envolvidos.

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