Album Review: a música precisava de The Weeknd e a foda reflexiva do seu ‘Beauty Behind The Madness’

Quando somos pequenos, acreditamos que o futuro está muito distante e, por isso, ficamos muito apegados aos trabalhos de ídolos que também podem sofrer mudanças ao longo dos anos. Crescendo na década de 90/00 é impossível não lembrar do rock do Linkin Park, Blink 182 e Good Charlotte, ou de uma das eras mais aclamadas do pop, com nossas rainhas Britney, Christina e Pink nas suas melhores fases. No entanto...e o R&B, galerinha? O R&B tinha um nome: Usher Raymond!


Hits atrás de hits, não teve Chris Brown, não teve Ne-Yo e nenhum outro nome era tão importante quanto o de Usher. No entanto, as coisas sempre mudam e a voz por trás de "Caught Up" começa a ter as primeiras dificuldade em emplacar novos hits. Normal para o mundo, triste para os fãs de longa data. Entretanto, quando nossos ídolos ficam um pouco de lado, normalmente somos surpreendidos com uma nova categoria, de uma nova geração. Como um brisa de ar fresco, hoje temos o rock do Imagine Dragons, Muse e Fall Out Boys e o pop da Miley, Selena, Demi e Ariana. No entanto.... e o R&B, galerinha? O R&B tem um nome: Abel Tesfaye, para os mais íntimos: The Weeknd.

Lá em 2012, uma compilação de três mixtapes do ano anterior ("House of Balloons", "Thursday" e "Echoes of Silence") virou o aclamado "Trilogy" e Abel fez sua estreia no top 5 da Billboard 200. Sem perder o ritmo, em 2013 ele lança "Kiss Land", seu verdadeiro debute, mas como era o momento de mostrar sua verdade e limites artísticos, The Weeknd explorava um som experimental dentro do R&B alternativo, ficando assim, um pouco afastado das paradas. O que mudou com a chegada de "Love Me Harder", parceria com Ariana Grande e um grande hit do ano passado. Logo em seguida, sua voz sexy foi escalada para ditar o ritmo em "Earned It", uma slow jam deliciosa, parte da trilha de "Fifity Shades Of Grey". Sendo assim, chegando ao mainstream, sabe o que Tesfaye fez? Resolveu ficar!


Sem mais delongas, vamos falar agora do "Beauty Behind the Madness", aquele que, com certeza, será uma das melhores coisas lançadas em 2015. O segundo álbum do The Weeknd é o que as paradas precisavam para sentir menos saudades do já citado Usher e do Justin Timberlake. Um R&B que flerta com o alternativo, o indie e o pop, mas traz uma essência que nenhum outro estilo possui tão forte: o sexo. Sexy e talvez até vulgar, este cd é o ritmo perfeito para liberar suas maiores fantasias na cama, incluindo uma sessão de S&M, e não tem nada de errado com isso!

Para nos ajudar a medir o nível de sensualidade de cada faixa, usaremos o Sexômetro: 5 Tons de Abel. Quantos mais cabeças coloridas do The Weeknd, mais sexy e mais propícia para um momento de couro, chicotes e cordas é a música. Na na na C'mon!

1) "Real Life"

"Emergencial" é a palavra que define a música que abre o "Beauty Behind the Madness. Aqui, The Weeknd fala sobre sua personalidade destrutiva, ignorar os conselhos da mãe e não conseguir se relacionar com nenhuma mulher. Parece trágico, né? Mas em meio a sirenes, violinos e certo desespero, sua melodia segue e deixa a sensação de tragédia para trás, revelando um homem que vive verdadeiramente.

2) "Losers" (feat. Labrinth)

O nome artístico de Abel nasceu quando ele largou a escola, aos 17 anos, nunca mais retornou e essa "semana" o marcou. Em "Losers" isso é explorado, pois ele fala que só perdedores vão para escola, ele próprio o ensinou a viver e a estupidez está lado a lado com "eu te amo". Labrinth complementa a faixa com seus vocais igualmente deliciosos. O piano é bem marcante, nos remetendo a trabalhos de John Legend, terminando com instrumentos de sopro, e tudo isso é muito bom.

3) "Tell Your Friends"

Mais um negro e ainda precisamos discutir os reflexos do racismo, nossa sociedade deturpada e como a violência psicológica influência na violência que vemos na rua. Se tudo contado aqui, em versos como: And money is the only thing I'm chasin' / And some dope dimes on some coke lines / Give me head all night, cum four times / Baby girl just wanna smoke a pound, for realmente a vida do Abel, uma pena ter precisado de drogas, crimes e outros atos autodestrutivos para escrever a letra de "Tell Your Friends" e nos inspirar a refletir sobre comportamentos e circunstâncias que nos levam a adentrar caminhos muitas vezes escuros demais para voltarmos. Aplausos para o dedo do Kanye na produção.



4) "Often"

"Estou cansado de estar sozinho durante anos todos os dias"... Então ele leva uma moça para casa com uma certeza: he can make that pussy rain...often! Aqui, a fama se torna aquele elemento X para conquistar tudo o que quiser, afinal: "In my city I'm a young God", diz Abel. Em meio a sussurros e uma melodia simples, com um grave que mexe com o ritmo dos nossos corpos, ele descreve uma one night stand que até largou outro como se ele não existisse, porque fama, dinheiro e um bom carro revelam os caçadores dentro das pessoas. Enquanto isso só queremos uma coisa: nossas pussies raining often.




5) "The Hills"

O terceiro single do disco reafirma a persona autodestrutiva de The Weeknd. Ele até utiliza a palavra "fucked" em um sentido ambíguo, tanto sexual quanto de algo precisando de conserto.  Assim como "Often", "The Hills" tem um ritmo que te prende em um grave construído para te fazer sentir, literalmente, na pele. "Hills have eyes, who are you to judge?", um mantra que deveria ser adotado para sociedade contemporânea. Excelente escolha para single, por ser experimental, e ter elementos pop para garantir o bom hit que se tornou.



6) "Acquainted"

Depois de cinco hinos, temos uma faixa mais simples e leve. Contando sobre o prazer de ter conhecido uma mulher retada, que o pegou de jeito, Abel traz em "Acquainted" uma melodia um pouco mais genérica. No entanto, vemos um lugar de vulnerabilidade, pois não é a primeira vez em que ele fala sobre o medo de não encontrar uma pessoa que sirva para mais que sexo na sua vida. Seguindo a linha das suas predecessoras, ela continua sexy, mas sem causar tanto impacto na tracklist.

7) "Can't Feel My Face"

Simples, catchy, pop. Um momento em que a vida de Abel estava preenchida por amor. A mudança na sonoridade gerou a primeira uptempo do disco, mostrando uma inteligência da produção, que mesclou a melancolia das faixas anteriores com um momento leve e divertido no disco, no tempo certo Uma faixa recheada de influências de Michael Jackson, hino pronto, mostrando que mesmo não forçando a barra da música pop, The Weeknd pode competir de frente com os hitmakers Bruno Mars, Usher e Justin. "Can't Feel My Face" já é o maior hit da carreira de Abel, atingindo o pico do Hot 100 da Billboard, sem deixar a qualidade do álbum cair.


8) "Shameless"

The Weeknd mostra ser aquele tipo de homem que não vale nada, mas que tem um charme irresistível. Seguindo uma linearidade, o amor descrito em "Can't Feel My Face", não deve ter dado muito certo e eles chegam àquele momentos frustrantes de se relacionar. A melodia de "Shameless" não se destacaria dentro do disco, se não fosse o embalo do violão mesclando uma áurea de romance e sexo. Sua letra é simples e verdadeira: "I don't wanna hurt you but you live for the pain / That's why you always call me cause you're scared to be loved /But I'll always be there for you". Quem nunca passou por isso, provavelmente irá passar ainda.

9) "Earned It"

Os violinos, os graves, o mistério...Tudo em "Earned It" grita MASTERPIECE. E não é para menos! Temos toda a identidade que Abel segue mostrando, aliada a uma faixa pronta para hitar. Sua letra exaltando um corpo feminino é extremamente sexy e podemos afirmar sem medo: Earned It foi o motivo para a existência de um filme como Fifty Shades Of Grey. Cada vez mais, The Weeknd se mostra um daqueles artistas que no meio de uma bagunça de drogas, sexo e músicas, conseguem construir obras espetaculares. You're perfect, you're always worth it and you deserve it, the way you worked it, Abel.



10) "In The Night"

Assim como "Can't Feel My Face", temos aqui uma faixa que tem bastante potencial de hit, se assemelhando a trabalhos dos homens que dominam os charts. Muito bem produzida, "In The Night" é mais pop, mas contém os graves sensuais, presentes em todas as faixas. Incrível como a produção desse disco criou uma linearidade impecável, utilizando os mesmos elementos e em momento algum soou repetitivo. Sua letra, casa bem com "Tell Your Friends" e "Loosers", só que de forma mais leve, aqui, ele fala sobre uma garota, que assim como ele esteve perdida há tempos, precisa encontrar seu propósito. "And I know that she's capable of anything, it's riveting / But when you wake up she's always gone", talvez a faixa mais suave do disco. Deliciosa!


11) "As You Are"

Essa é a faixa menos impactante do disco. No entanto, sua letra traz um Abel disposto a amar, novamente mostrando uma vulnerabilidade linda de se ver. Com tantas faixas explorando uma persona de destruição, uma melancolia e falta de esperanças, aqui The Weeknd diz: "Show me your broken heart, and all your scars. I'll take you as you are". Se isso não é estar apaixonado, o que será, ner? A produção se estende um pouco demais, mas nada que influencie muito na qualidade da obra.

12) "Dark Times (feat. Ed Sheeran)"

OMG! Mostrando novamente um lado destrutivo, aqui temos dois mestres da sofrência. Ed Sheeran trouxe tudo de si: seu falsete, violão e um charme excepcional. Se não tivéssemos o grave constante, ditando todo o compasso do disco, essa faixa poderia ser dele, mas aí Abel não deixa por menos e a letra da música é incrível: "In my dark times I'll be going back to these streets / Promising everything I do not mean / In my dark times, baby this is all I could be". A melodia é clara no intuito de construir uma sonoridade dark que combina perfeitamente com ambos os vocais e a letra. Sem dúvidas, um dos highlights do disco. E não adianta, todo mundo vai querer vocês, seja no tempo claro ou escuro, seus lindos!

13) "Prisoner (Feat. Lana Del Rey)"

Acho que The Weeknd é um daqueles artistas que sabem explorar o melhor de outros artistas em seus featurings. Da mesma forma que Ed trouxe tudo que "Dark Times" precisava, mas sem ofuscar a identidade do disco, Laninha faz o mesmo em "Prisoner". Até na letra da música, Abel traz referências que facilmente poderiam ser utilizadas por Lana: "I think I've been in Hollywood for too long / Cause I can feel my soul burning, feel it burning slow. No refrão, ela perde um pouco do charme, por conta das várias camadas de voz utilizadas, mas a voz de Del Rey e o monólogo do final, são espetaculares. Realmente Lana, "Real life is stranger than my dreams".

14) "Angel"

Finalizando o disco temos a mais apoteótica. "Angel" é a música menos sensual, mas é onde vemos o lado mais vulnerável de The Weeknd. A produção diferenciada não dá tanto destaque ao ritmo do grave e ouvimos um instrumental muito mais trabalhado, gerando uma áurea de grandiosidade angelical. Melhor faixa para fechar a tracklist. A letra sobre um anjo que está se relacionando com um Abel que não é bom o suficiente, e a súplica para este anjo encontrar alguém para amar é de partir o coração. 1 tom de abel, mas 5 tons de amor.

***

Grandioso! Fabuloso! Dono dos Grammys de 2016! "Beauty Behind The Madness" é sem dúvidas o disco mais consistente que ouvimos este ano. The Weeknd nos mostrou uma identidade firme e consistente com seu trabalho, melodicamente e liricamente. Além disso, explorou seus medos e sua história, com momentos bem complexos e delicados, de forma extremamente charmosa, sensual e relacionável. Iniciando e fechando a tracklist do álbum, Abel demonstra uma vontade muito grande de viver e amar, mas enquanto sua vida consegue crescer ao ponto de se libertar das amarras predatórias das drogas e até crimes, no amor as coisas não parecem ter mudado tanto. É de partir o coração, mas com certeza será essa dor que vai ajudar na construção do próximo disco.

The Weeknd trouxe um R&B Alternativo feito para o mainstream com muito sucesso. O mundo precisa de mais artistas dispostos a contar sua história ou uma história de forma verdadeira e impactante, e ainda assim consiga se fazer ouvido pela grande maioria. Abel Tasfaye está disposto a construir um nome importante dentro da fusão de ritmos e, com uma sonoridade específica, vem conquistando um espaço merecidíssimo. Só precisamos de uma era cheia de singles, performances, turnê e prêmios, para que o "Beauty Behind The Madness" tenha seu lugar ao sol com toda glória que lhe é merecida.

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