Album Review: em 'I Cry When I Laugh', Jess Glynne justifica todo o hype e mostra que veio pra ficar!

Há mais de um ano, nós apresentamos a, então desconhecida, Jess Glynne, cantora e compositora britânica, de 24 anos, buscando ascensão, com seu som predominantemente deep house, voz forte e sensual, nas músicas "Home" e "Right Here". Mas, infelizmente, foram poucos que deram bola à época. Como a roda gigante do pop roda numa velocidade absurdamente rápida, agora estamos aqui para soltar aquele famoso "Nós avisamos!".


Poucos meses antes do nosso post, Glynne já tinha embarcado em duas parcerias pontuais, que se confirmariam, na sequência, como sua porta de entrada definitiva para o grande público, ao compor e ainda dar vida ao hit europeu "My Love", do Route 94 e, na sequência, ao smash hit global, "Rather Be", do grupo Clean Bandit, que tocou (e ainda toca horrores) mundo afora e garantiu a ambos um Grammy na última edição.


Já com um nome mais familiar ao público, Jess e sua gravadora vislumbraram que era chegada a hora dela, enfim, se lançar como uma artista solo no mercado e focar em seu material de estreia, mas não sem antes repetir a parceria com o Clean Bandit em mais um sucesso, a faixa "Real Love".


Hoje, dona de Grammy, prestígio, apontada como grande revelação de 2015, amada pelas rádios, tendo CINCO #1s na principal parada britânica ("My Love", "Rather Be", "Hold My Hand", "Not Letting Go" e "Don't Be So Hard On Yourself") e contando, que lhe fizeram igualar o recorde da princesinha do UK, Cheryl, como artista britânica feminina com maior número de hits no topo, Jess Glynne finalmente teve seu mais que aguardado álbum de estreia lançado. Sob o simpático nome de "I Cry When I Laugh", o material todinho co-escrito pela cantora e produzido por Steve Mac, Jack Patterson, TMS, Naughy Boy, Gorgon City, entre outros, vêm todo cercado pela mistura pop, deep house e soul que ela se impôs em um ano e meio, tendo por objetivo justificar todo hype que a cantora obteve nesse tempo, mas será que essa árdua tarefa foi bem-sucedida? Descubram na nossa review, faixa a faixa, que se inicia agora.

1) "Strawberry Fields"

Pera, isso é intro perdida do "Aquarius"? É nesse clima lo-fi que se inicia o álbum de estreia da Jess Glynne, com a introspectiva "Strawberry Fields", que nos remete a um misto de Tinashe com Jessie Ware, ao nos levar às memórias saudosistas de um passado, que ensinou bastante, mas ainda deixa marcas: "Essa foi uma decisão sua, então eu... Mas agora eu preciso encontrar a minha. Preciso de ar seco para me deixar respirar. Para encontrar um caminho apenas para ser eu mesma"; que nos prepara, num ritmo bem desacelerado (até de certa forma irônico, porque difere bastante da sonoridade álbum) para tudo que ouviríamos na sequência.

2) "Gave Me Something"

Abrindo pra valer o álbum, temos a ótima "Gave Me Something", que já queremos como próximo single, inclusive. A animada faixa já começa todo o contraste que teremos ao longo do "I Cry When I Laugh" em relação à sua intro, ao misturar influências pop com coro gospel e vibe soul, que juntamente com o timbre vocal de Glynne, criam uma mistura singular, numa letra incrível, em que Jess mostra, de forma apaixonada, um certo arrependimento por ter deixado alguém que amava ir embora: "Eu nunca pensei que eu seria a menina que se afastava. Eu encontrei meu verdadeiro amor. E em mim você achou muito mais". Com destaque também para o ótimo trecho, em que ela expõe toda sua resignação de forma vulnerável: "Você me deu esperança e você me deixa saber que... Se eu te der tempo, tudo isso será meu. Você me deu algo que eu não tinha antes".


3) "Hold My Hand"

Na sequência, temos um dos grandes hits britânicos de 2015. Lead single do álbum, "Hold My Hand" tem marcas realmente memoráveis: três semanas consecutivas no topo, sete no Top 10, milhares de cópias vendidas e primeiro #1 solo de Glynne. Do ponto de vista crítico, a faixa que mostra o quão bem o outro nos faz apenas por estar ao nosso redor ("Quando você está ao meu lado dá para perceber que eu não fico com medo. Você não me faz esperar, e nunca me decepciona. Você nunca me deixará cair"), é um deslumbrante uptempo, sendo o primeiro flerte mais pop que eletrônico da cantora, com letra, ganchos e melodia radiofônicos e acessíveis, que desde a primeira vez que ouvimos, era fácil prever que seria um hit. A produção também não deixa por menos, cercada por piano, bateria bem marcada, violão e saxofone que criam um clima meio de banda marcial em alguns pontos, que somados ao House, servem pra deixar os vocais de Jess Glynne (aqui, num tom mediano, mas acelerado), ainda mais agradável e eficiente que de costume. Grande single!


4) "Real Love" (feat. Clean Bandit)

Mundialmente conhecida após a parceria com o Clean Bandit em "Rather Be", Jess Glynne repetiu a dose em "Real Love", música que fez parte do relançamento do álbum de estreia da banda no começo do ano. Mesmo tendo sido Jess a principal compositora da canção, é um tanto questionável a inclusão desta na tracklist padrão do "I Cry When I Laugh". É um hit? É. Necessário aqui? Talvez não. Mas enfim, a música se difere um pouco do primeiro smash hit entre eles, justamente por ser menos pop e mais focada para as pistas, com direito aos pulsantes sintetizadores e um tom vocal mais alto de Glynne.

5) "Ain't Got Far to Go"

Um dos maiores méritos de Jess Glynne e seu álbum de estreia, é justamente o talento dela em compor músicas extremamente agradáveis e que você escuta uma vez, já dizendo "Olha, isso soa muito bom. Acho que hita". "Ain't Got Far to Go" é uma ótima amostra disso. Pop, radiofônica, repleta de misturas (que vão desde palmas, piano, saxofone, xilofone e coral masculino) de sonoridade noventistas que contrastam com seus vocais neo soul, e gritando pra ser lançada como single, até porque é quase que um desabafo metafórico sobre sua própria carreira: "Eu disse que iria provar que estão errados. E agora eu estou aqui e eu estou de pé, forte. [...] Eu estou aqui para ficar, eu estou aqui para ficar. [...] E se eu tivesse que voltar no tempo, gostaria apenas de fazer isso de novo (de novo), novo (de novo)". Seria nossa aposta mais segura como o terceiro single do álbum, que, caso obtenha êxito no topo da Official Charts, garantiria à cantora a marca de maior nome feminino da música pop britânica na atualidade.


6) "Take Me Home"

Primeira, de duas baladas propriamente ditas, "Take Me Home" é uma grata surpresa, justamente por ser a faixa mais vulnerável do álbum. A simplicidade dela é algo que chama a atenção também, ao apoiar-se apenas no arranjo feito ao piano, mais tarde somado à bateria, deixando com que o vocal rasgado e cheio de habilidades de Glynne brilhe de forma impecável. Com um verso tão lindo, como "Fui ao seu encontro com a fé quebrada. Você me deu mais do que uma mão para segurar. Me pegou antes que eu caísse no chão. Diga-me que estou segura, você me tem agora", que nos faz sonhar em algum momento nela como single, encerrando essa sessão tortura de forma carente e belíssima: "Você poderia cuidar de uma alma quebrada? Você vai me abraçar agora? Oh, você vai me levar para casa?". Pera, caiu um cisco aqui.

7) "Don't Be So Hard On Yourself"

Próxima faixa, mais um hit. Desde que apresentou "Don't Be So Hard On Yourself", pela primeira vez, durante um evento da Capital FM, ainda em maio, era previsível o sucesso. O que se confirmou: segundo single oficial do álbum e responsável por igualar Jess Glynne à Cheryl, como nome feminino e britânico com mais #1s na principal parada da Terra da Rainha. Com direito a melhor letra do álbum e, sem dúvida, uma das melhores do ano, passando por uma mensagem de autoajuda belíssima ("Não seja tão duro consigo mesmo. Aprenda a perdoar, aprenda a desapegar. Todo mundo tropeça, todo mundo cai"), melodia e produção impecável, abusando com autoridade da mistura (que ela faz muito bem) entre seus lados pop e soul, a cantora nos brinda com uma das melhores faixas lançadas no UK em 2015. Uma verdadeira masterpiece pop, que só confirma que seu hype não é por acaso.


8) "You Can Find Me"

De forma sorrateira, "You Can Find Me" chega pra dar prosseguimento ao álbum, com muito soul, arranjos leves, digitalizados ao fundo e muita, muita simpatia, em mais uma inspiração noventista.

9) "Why Me"

Mesmo com um álbum predominantemente uptempo, Jess Glynne ainda guardou algumas boas surpresas, como a ótima e orgânica "Why Me", que abusa do synthpop, em relação ao seu pop, deep house e soul usados anteriormente, que somados ao coro gospel do refrão, criam uma atmosfera edificante, em outra grande e triste letra: "Errado, tudo estava certo. E agora se foi. Como uma árvore, você me cortou, derrubou, e partiu. Como se eu nunca pudesse dizer não".


10) "Love Me"

Nos encaminhando pro fim da versão padrão, temos em "Love Me" mais uma faixa que tem por inspiração os anos 90, mesmo que cheia de elementos em sua produção que a modernizem, com destaque pra seu imprevisível final.

11) "It Ain't Right"

Com um começo bem à la pré-show num pub londrino, chega "It Ain't Right", que bebe da fonte soul, com "quês" de big band. Não é das preferidas, mas ok, seu lugar é justificado.

12) "No Rights No Wrongs"

A deliciosa "No Rights No Wrongs" vem na sequência e, mais uma vez, trazendo as influências pop e soul à tona, com direito a xilofone, piano e percussão, em cima de uma excelente letra sob relatividade, onde cada um é responsável pelo próprio caminho, sem que se deixe influenciar pelo outro: "E oh, não há certo, nem errado, tire isso de mim. Porque as respostas estão a viver indefinidamente".

13) "Saddest Vanilla" (feat. Emeli Sandé)

Quando a tracklist de "I Cry When I Laugh" foi divulgada, essa faixa, em especial, chamava a atenção, justamente por trazer a parceria de um dos maiores e mais aclamados nomes britânicos dessa década: Emeli Sandé. Porém, "Saddest Vanilla" deixa uma sensação de "poderia ter sido muito mais". Ok, a balada arranca-coração sobre o fim de um relacionamento difícil, é linda, como no trecho "Meu coração está aqui congelando, e minhas lágrimas enchem meu recipiente. E eu finalmente posso degustá-las sozinha", mas como dueto, é apenas bonitinho. E só. Dói dizer isso, mas a parte da Emeli, por exemplo, é totalmente dispensável. Sem contar que a simplicidade da faixa (incluindo arranjo, métrica e produção), seriam suficientes para que Jess desse conta dela inteira sozinha. Ainda assim, muito amor pelas duas ❤

14) "Right Here"

Encerrando a versão padrão, temos o midtempo deep house, "Right Here". A faixa produzida pelo duo eletrônico Gorgon City, foi lançada como single promocional no ano passado, e chega com direito a um delicioso saxofone ao final das junções do refrão, soando deliciosa a cada novo play.


15) "Home"

Responsável por nosso primeiro contato solo com a cantora há pouco mais de um ano, a faixa "Home" abre a versão deluxe de forma bem nostálgica, com direito a um dos melhores versos da vida: "O lixo de um homem é o tesouro de outro homem. Finalmente em casa, sei que a vida fica melhor". EITA, segura esse girlpower! ❤


16) "Bad Blood"

Desnecessária e faixa mais fraca de todo material, "Bad Blood" é um filler chatíssimo. E nada mais.

17) "My Love" (Acoustic)

O que é essa voz cantando de forma acústica, minha gente? DESTRUIDORA! Sem mais!


18) "Not Letting Go" (feat. Tinie Tempah)

Dona dos charts britânicos em 2015, Jess Glynne se juntou ao talentoso Tinie Tempah para, juntos, criarem a graciosa "Not Letting Go", que é um show de acertos de ambas as partes. A faixa, lançada em meio ao verão europeu se firmou como um dos hinos da estação na Terra da Rainha, firmando ainda mais o nome da cantora como grande hitmaker, e tendo o apelo radiofônico de ambos, que funcionam como um casamento perfeito e acrescentam demais um ao outro aqui.


19) "Rather Be" (feat. Clean Bandit)

Quem não se pegou cantarolando a música ou imitando a coreografia, que atire a primeira pedra. Produzida sob violino, sintetizadores de videogame e piano, o maior hino de 2014 e dono de inúmeros prêmios mundo afora, "Rather Be", em parceria com seus amigos do Clean Bandit, foi o responsável por colocar Jess Glynne sob os olhares do mundo todo, que, até determinado momento (até hoje, inclusive), acreditava, piamente, que nossa amada ruiva era a japonesa que dá vida ao clipe rs.

20) "My Love" (feat. Route 94)

Encerrando a versão deluxe, e pouco antes de bombar mundialmente com o Clean Bandit, foi com outro grupo que Glynne se uniu em seu primeiro hit single nas paradas britânicas. Precisando de um vocal feminino para dar vida a um de seus singles, o grupo estreante Route 94 foi apresentado à cantora e a sintonia foi imediata. Porém, eles não faziam ideia que seus planos iniciais seriam completamente mudados ao ouvirem entre um set e outro, um pedaço, contendo o refrão da versão solo de "My Love" (a faixa 17 do álbum), que fez com que ficassem ainda mais fascinados quando Jess afirmou que era uma composição própria. Mudaram de ideia, criaram um arranjo voltado para as pistas e... boooom, eis um hit.


*****

Em sua estreia, Jess Glynne faz de "I Cry When I Laugh" um belo passeio entre as mais variadas emoções humanas. Há momentos de diversão, medo, depressão, amor e força, mas tudo de fácil consumo, consistente e repleto de hits. Embora constituído 90% por uptempos, que até soariam previsíveis para outras cantoras (não é o caso aqui), é quando ela sai desse estilo que se sobressai muito, graças à sua ótima voz — vide a brilhante "Take Me Home" ou o acústico de "My Love" —, que confirmam seu talento e dinâmica, fatos que fizeram seu álbum ter sido tão aguardado e porquê seu nome é um dos maiores em ascensão na Terra da Rainha nos últimos meses, provando que ela é muito mais que apenas "a voz por trás de 'Rather Be'". De ruim, fica o excessivo número de faixas na versão deluxe (20 é muitaaaaa coisa), que é um saco pra revisar, desvia a atenção e, em alguns momentos, deixa o álbum monótono, por coisas desnecessárias, como "Bad Blood".

Um material que já ofereceu cinco grandes hits em apenas um ano e meio, e tem, no mínimo, mais três que podem facilmente ser explorados, jamais pode ser subestimado. Recordes são bons e agregam ao ego, mas de nada valem se o artista, em si, não for bom o bastante para sustentá-los. Sorte nossa que Jess Glynne é tão, mas tão boa, cantando e compondo, que não só justifica todo o hype ao redor de seu nome, confirmando que ela veio mesmo pra ficar, como nos deixa animados pensando no que o futuro reservará pra ela. Por ora, sabemos uma coisa: alguns dos principais prêmios do Brit Awards 2016, que acontecerá em janeiro, já estão em ótimas mãos. E nós, só temos que agradecer a degustação dessa deliciosa trufa oferecida, recheada de morangos e pop de pura qualidade, enquanto ela chora de tanto rir.

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