Album Review: na igreja do Years & Years, nós de joelhos veneramos o 'Communion'

Quando conhecemos o trio Years & Years ano passado com o hino "Take Shelter", já sabíamos que ali havia algo a ser acompanhado. Liderado por Olly Alexander e apoiado por  Mikey Goldsworthy e Emre Türkmen, o grupo britânico foi logo recebendo indicação à célebre lista "Sound of 2015" da BBC, que lista quais são as apostas musicas do ano. E não é que eles venceram?

E a lista costuma não falhar: Ellie Goulding, Jessie J, HAIM e Sam Smith são alguns dos nomes vencedores nos anos passados, e temos certeza de que você pelo menos conhece o trabalho deles. O Years & Years então colocou os trabalhos do seu álbum de estreia pra ferver, lançando EPs para preparar o terreno. Eis que o "Communion" surge.

Em tempos onde nomes masculinos no pop começam a despontar e introduzir seus nomes num cenário onde o gurl power é lei, os caras realizam um álbum que nada contra a corrente que seus privilégios masculinos os convém. Sente e prepare-se para uma montanha-russa com nossa review do "Communion".

1. FOUNDATION

O "Communion" é aberto com uma espécie de intro, mas tendo começo, meio e fim, ao invés de trechinho de música. "Foundation" é uma faixa super atmosférica e pesada que é praticamente levada apenas pelos vocais cheios de ecos de Olly, que vai gradativamente se fundindo com o instrumental misterioso. É um pequeno petisco do grande conceito do todo quando temos "Eu quero tanto amar isso, eu quero ser o escolhido, eu quero fazer o que você ama". Poderia tranquilamente passar despercebida em outro trabalho, mas o trio consegue transformar algo que seria só uma abertura numa grande e bela faixa.


2. REAL

O primeiro single do álbum, lançado láaaa no início de 2014, é uma das canções mais irregulares de todo o álbum. O conceito está lá, bem marcado pela letra excepcional ("Eu quebrei meus ossos jogando seus jogos. Cansei de brincar, isso me deixa triste"), mas o refrão é um caos sem ordem que vai e volta como um trem descarrilhado. A batida com estalos de dedos mais confunde que ajuda, transformando tudo num bolo estranho desarmônico que mais afasta que prende, destoando da coesão do álbum. A ponte, contudo, é muito, muito boa.



3. SHINE

O atual single do trio é uma luminosa faixa que nos coloca pra dançar mesmo que não queiramos. Recheada com muita paixão, "Shine" consegue transmitir toda a euforia da letra através dos vocais - hora sensuais, hora energéticos - e pela melodia envolvente e animada, conseguindo nos colocar no clima exato que Olly canta: "Eu quero ser a pessoa que você rouba, eu quero ser a pessoa que você protege, eu quero aquele que o seu amor pode curar". Impossível não cair de amores.



4. TAKE SHELTER

A faixa que nos fez ficar de joelhos é, de longe, uma das melhores coisas vindas da música mainstream atual. "Take Shelter" traz elementos que remetem ao que o Glass Animals tem de melhor (inclusive, caso não conheça a banda, faça o quanto antes), com suas batidas tropicais e insinuantes que evocam um lado sensual ovacionado pelos vocais sempre deliciosos do vocalista, que contrasta de forma irônica com a letra: "Vou esperar até você ir. Farei isso de uma maneira que você nunca saberá o quanto eu estraguei tudo. Nós estamos correndo em círculos como se não nos importássemos, isso vai deixar algumas marcas. Apenas me diga o que tenho que fazer para me manter longe de você". Ao contrário de músicas sobre términos, "Take Shelter" não é sofrida e chorosa, pelo contrário: é efervescente e colorida, o que reflete bem seu próprio conceito: "Aguente a pressão!".



5. WORSHIP

Talvez "Worship" seja a faixa que mais contenha o conceito geral do "Communion". Talvez, também, seja a melhor música de todo o álbum. Como o próprio título já nos informa, "Worship" é uma faixa de pura devoção, num amor sem fronteiras que mistura synthpop com house de forma gloriosa. Aqui o vocalista coloca a imagem de sua amada como uma forma santa e imaculada, onde ele a venera religiosamente ("Eu quero me esconder na sua luz, eu venero tudo o que você vê"), numa versão melhorada (se é que isso é possível) do júbilo completo de "Shine". O refrão é para ouvir de joelhos.



6. EYES SHUT

Na primeira balada do álbum, os caras continuam na ondulação de entre o ápice do amor e o término. "Eyes Shut" volta para o fim do relacionamento numa metáfora bem eficiente do título, com Olly cantando sobre não poder se machucar com os olhos fechados, mas conseguindo ver através deles. O piano se mistura com perfeição aos sintetizadores e principalmente com as longas notas do cantor, que transforma uma melódica balada em algo com personalidade e força.

7. TIES

O movimento volta com muito ritmo no hino avassalador "Ties" - que TEM que ser single com certa urgência. A faixa conta a história de um relacionamento perigoso, algo que Lana Del Rey chamaria de dela. Aqui a contra-heroína é uma pessoa claramente destrutiva ("Você me diz que você gostaria de queimar uma ponte, que você sempre comete erros como este. Está se divertindo?"), mas, ao invés de fugir da garota-problema, nosso protagonista corre até ela, querendo ser amarrado a essa figura (para ele) desafiadora e sedutora, mesmo sabendo do problema que ela é ("Eu sempre estivesse caçando alguém como você"). Com melodia que praticamente não possui momentos de respiro, jogue o refrão no meio de uma pista de dança que vai todo mundo ao chão com o tiro. Obra-prima batecabelística.



8. KING

Voltando para o fim da magia, "King" é o single de maior sucesso do grupo até agora (foi #1 na Terra da Rainha). Nome certo entre os indicados ao Grammy de "Melhor Gravação Dance" (já pode levar), "King" é o ápice dos sintetizadores do álbum, com produção mega encorpada com várias camadas de sons e backingvocals que poderiam virar uma bagunça (como em "Real"), mas se encaixam de forma gloriosa e se transformam num dos maiores singles do ano. Além disso, possui um dos versos mais icônicos de 2015: "Eu fui um rei sob o seu controle". E o que falar do clipe onde Olly é um fantoche sob várias mãos que literalmente o jogam de um lado pro outro? Magnífico.



9. DESIRE

Foi com "Desire" que o Years & Years entrou para os holofotes dos charts britânicos. Também pudera, a farofada aqui é grande e de altíssima qualidade. Os caras abaixam ainda mais o nível da sofrência quando o vocalista fala para si próprio "Abra seus braços e sua cabeça para a verdade que você está negando. Se entregue ao jogo, para a sensação de que você está se escondendo". E qual é a verdade? O amor que ele sente é tóxico e aquela relação já não se sustenta: "Isso é desejo ou é amor que eu estou sentindo por você? Eu quero desejo, porque o seu amor só abusa de mim". O refrão é cheio de looooongas notas e muitas batidas marcadas que dominam qualquer pista de dança.



10. GOLD

Parece que "Gold" é o título do ano para aquelas faixas que estão em seus respectivos álbuns para preencher espaço, não é mesmo Marina & The Diamonds? Tudo cotada. A "Gold" do Years & Years tenta arduamente ser uma faixa super animada e eufórica, mas consegue em momento nenhum passar animação. Mesmo gerando certa empatia - há momentos legais, tudo soa fraco e sem graça perto dos hinos absolutos que já passamos por. É aquela faixa filler que não é ruim, mas não faria falta caso viesse como faixa bônus.

11. WITHOUT

Chegando à reta final do álbum, a vibe vai diminuindo, mas leva uma topada com "Without", uma canção toda errada e completamente apática. Os versos são mortos, os vocais apagados, a melodia estranha e a letra sem grande desenvolvimento como vimos em "Take Shelter" e "Desire", soando lugar-comum com seus "Você é o suficiente ao amar sem mim. Tão perto do seu coração, você nunca vai me encontrar". A mão de passar a música chega treme.

12. BORDER

Voltando à normalidade, ou seja, às grandes músicas, "Border" é um típico exemplo de faixa que te pega por um trechinho, aqui o seu pós-refrão, onde a melodia cai num leve break que transforma toda a nossa percepção da canção. Passando uma sensação de tranquilidade e suavidade, "Border" é singela, mas lindíssima com seus versos que prezam o amor próprio de forma delicada: "Eu estou indo para a borda. Meu corpo será mais forte, meu coração vai começar a brilhar e eu ficarei bem". Dá vontade de dormir abraçado com a faixa.

13. MEMO

Encerrando o álbum temos a baladinha "Memo". Mais próximo das chorosas baladas pop convencionais, a canção faz bem o trabalho de finalizar nossa jornada ao nos manter em paz com sua melodia fofíssima à base do piano e sua letra nostálgica: "Memórias, você pode trazer isso de volta? Quem não iria querer quando isso é tão bonito? Eu quero que você fique. Se eu tentar o meu máximo você olharia para mim?". Fica um tom melancólico, que até parece estranho pelas canções altíssimas anteriores, mas o desenvolvimento do material é certeiro, começando e terminando de forma suave, só para que apertemos o play  novamente.


RESUMINDO: Numa olhada superficial, o "Communion" parece um daqueles álbuns que prezam a sonoridade e se utiliza de letras que não fazem tanto sentido prático assim, mas isso é só um dos desafios do seu próprio conceito. As letras são bem complexas, já que são muito libertas e tratam de temas comuns de forma estranha, fora da caixa. "Aguente a pressão, procure um abrigo, se acostume", "Eu fui o rei sob seu controle", "O seu amor só abusou de mim", "Eu faço isso para você me venerar também". Essas propostas e abordagens não são comumente vistas na música pop mainstream, que tende a repetir e reciclar temas. O próprio som som do trio, carregado de sintetizadores, criam uma áurea onírica singular.

Mas o que há de mais interessante no "Communion" é a forma que as letras colocam o homem. O ser do sexo masculino não é culturalmente apto a submeter-se a uma devoção, graças ao machismo e toda a estrutura social imposta, já que se entregar ao sentimento (ou ao sentimentalismo) é algo não compatível com seu papel social. É a mulher que se submete a ele, num ciclo de legitimação da vã superioridade masculina. Ser sensível é "coisa de menina". Então quando temos um homem cantando "eu venero tudo o que você vê", não importa que tipo de relacionamento seja (com homem ou mulher), já temos um sistema contra-hegemônico operando, com o homem saindo do pedestal para curvar-se diante do sentimento, o que é nada errado ou que de forma alguma o diminui, mas já quebra padrões arcaicos, o que é mais que necessário. Olly Alexander é gay, mas não restringe as composições para um só público (há passagens onde ele canta para uma mulher), o que dá ainda mais força para a universalização do conceito.

O "Communion" é sim um álbum desafiador, que se torna ainda mais incrível por se tratar de um material de estreia. Criando uma grande igreja pop, a comunhão do Years & Years é o ato de venerar da própria música. Só nos resta nos entregar e venerar o "Communion". Amém.

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