Album Review: os anos 80 estão oficialmente de volta em ‘E•MO•TION’, terceiro álbum de Carly Rae Jepsen

Demorou, mas agora podemos dizer com a maior certeza do mundo: a música pop está numa ótima fase. Foi difícil aguentar tantas artistas se desdobrando entre mil e um flertes com mil e um gêneros, na esperança de que pelo menos um dos seus tiros atingissem um nicho e, desta forma, a consagrasse como a próxima grande coisa, e ainda presenciamos as principais cantoras da nossa geração, Katy Perry, Rihanna e Lady Gaga, encontrando dificuldades para vender seus trabalhos e foi quando aceitamos que realmente estávamos em crise, mas o momento da ressurreição começou.

Goste ou não do seu trabalho, foi Taylor Swift a grande salvadora da música pop. Enquanto o mundo seguia a tendência da trap music, que pegou até a Katy Perry, uma das poucas cantoras que investiam pesado numa sonoridade essencialmente pop, e o hip-hop seguia engolindo as paradas mundo afora (tem quem chame Iggy Azalea e Nicki Minaj de cantoras pop, pra você entender bem como as coisas estavam indo), a americana chegou com seu “1989” e uma promessa que mexeu com as expectativas de quem era e não era o seu público: seu primeiro disco totalmente pop.

Com um álbum totalmente pop, o que a cantora que, até então, era identificada como uma artista country quis dizer era um disco produzido à base de sintetizadores e outros botões que não exigissem necessariamente a presença de instrumentos reais, banda, violão, etc, e segura de sua proposta em meio à maré de excitação pública, tratou de convocar um time de grandes hitmakers para o que seria um dos melhores álbuns pop dos últimos tempos — mais uma vez, goste você ou não. O ponto é que Taylor é uma das poucas artistas que mesclam bem o que funcionam nas rádios de hoje com o melhor do que foi o pop em outrora — pra ser mais específico, nos anos 80 — e faz isso majestosamente, dos arranjos às composições, mantendo ainda uma imagem bem longe de polêmicas, o que faz com que ela possa ser reconhecida, de fato, apenas por sua música, algo bem raro na indústria atual, em que todas precisam estar causando para ter nossa atenção.

Mais que uma carreira exemplar, Taylor Swift construiu então uma receita bem próxima do que seria a tão procurada “fórmula para o sucesso” e, enquanto briga com unhas e dentes pela valorização do seu trabalho em meio ao consumo atual, faz com que todas as outras estrelas pop, sejam elas experientes ou novas no negócio, passem a fazer suas anotações. Carly Rae Jepsen entendeu o recado.


Dona do sucesso “Call Me Maybe”, a cantora canadense é dita a grande promessa da indústria há algum tempo e chegou perto de cumprir a profecia com seu último disco, “Kiss”, de onde extraiu singles como seu grande hit, a parceria com Owl City em “Good Times”, “This Kiss” e a parceria com Nicki Minaj em “Tonight I’m Getting Over You”, mas se o álbum, segundo de sua carreira, era um apanhado de hits em potencial que não saía de sua zona de conforto, em momentos até soando como uma maneira de manter em alta a animação dos que só chegaram ali pelo grande sucesso, seu sucessor evidencia sua evolução em todos os sentidos, só deixando a desejar quando a missão é responder a principal questão de muitos que a acompanham até aqui: quem é Carly Rae Jepsen?

Mantendo a linha oitentista, o novo álbum de Jeppo se chama “Emotion” e, assim como o “1989” de Taylor Swift, vem com um mega time de produtores e compositores, o que inclui nomes como Max Martin (Taylor Swift, Katy Perry, Robyn), Greg Kurstin (Ellie Goulding, Katy Perry, Tegan and Sara) e Sia (Katy Perry, Rihanna, Britney Spears), além do talento da própria que, quando a missão é compor uma grande armadilha para nossos ouvidos, a cumpre como ninguém.

“Run Away With Me”

Tá ouvindo esse saxofone? Os anos 80 é aqui, gente. Os sintetizadores começam então a ganhar forma e eis que vem a cantora com os primeiros versos, que parecem chegar até nós como mãos que tentam nos acariciar aos poucos, ganhar nossa confiança antes de chegar ao nosso coração. O refrão é a cartada final, como de praxe, com o coro que muito parece ter saído de alguma canção da Taylor Swift: “baby, take me to the feeling / I’ll be your sinner in secret / When the-lights-go-out, run away with me!”. O baixo pulsante não nos deixa parados.


“E•MO•TION”

O refrão de “Emotion” nos faz questionar a razão de Carly Rae Jepsen ter sido tão incisiva quanto ao lançamento de “I Really Like You” como primeiro single desse álbum. Boa parte das faixas possuem uma estrutura lírica bem mais trabalhada e sua faixa-título é um bom exemplo, já que pouco cresce musicalmente, mas nos prende por seus versos, sendo uma boa representante do restante que iremos ouvir. “Na sua imaginação, sonhe comigo e tudo o que podemos fazer com essa emoção”.



“I Really Like You”

Falando em “I Really Like You”, olha ela aí! A música não é ruim, muito pelo contrário, nos pega despreparados e, quando vamos ver, já estamos cantarolando seu refrão, mas tinha como ser de outra forma? Mais uma vez, a forma com que as coisas acontecem nos remetem à Taylor Swift, talvez por conta dos produtores envolvidos, mas há algo nela que nos prende e nem estamos falando das trocentas vezes que ela repete a palavra “really”. Uma pena ter sido um tiro em falso na intenção de repetir o feito de “Call Me Maybe”, já que a música por pouco não ficou fora do top 40 da Billboard Hot 100.



“Gimmie Love”

Dando uma descansada no disco, “Gimmie Love” mantém a proposta dançante e chiclete, mas desta vez de uma maneira mais devagar e até mesmo sensual, com Carly Rae Jepsen quase que sussurrando o pedido por seu tão desejado amor e toque. A baladinha também conta com muitos sintetizadores e uma percussão bem tímida ao fundo, nos remetendo à sueca Robyn em seus versos finais, quando temos a junção de quase todos seus elementos, dos synths ao coro, passando ainda pelas súplicas de amor da canadense.

“All That”

A calmaria da faixa anterior era só um prelúdio do que estava por vir, mas em “All That” o blogueiro que vos fala teve uma maior dificuldade para captar a proposta, talvez por destoar um pouco do resto do disco. A produção de Dev Hynes (Kylie Minogue, Diana Vickers, Sky Ferreira) e Ariel Rechtshaid (Kylie Minogue, Beyoncé, Madonna) é uma baladinha bastante introspectiva e dá um chega pra lá nas combinações de synths do álbum, mas também com os pés no pop dos anos 80, agora nos lembrando da Cyndi Lauper. Na faixa, Jeppo versa sobre fazer o que for para ser a melhor companhia para a pessoa que ama. “Eu quero tocar essa música pra você toda vez que se sentir usado ou cansado”.


“Boy Problems”

Kylie Minogue é invocada em “Boy Problems” que, por coincidência ou não, tem como uma de suas compositoras a produtora executiva de seu último álbum, Sia Furler. A hitmaker australiana até empresta seus vocais para a intro da canção, abrindo as portas para um hino que vai do synth-pop ao funk, no que poderia facilmente ser uma produção do Pharrell Williams, com uma letra em que Carly Rae se mostra de saco cheio daquela amiga que não para de reclamar do seu namorado, quando sabe que todos têm seus problemas e, no fim das contas, essa amiga será a última a realmente buscar pelo seu melhor. “Eu acho que terminei com meu namorado hoje e, pra falar a verdade, eu realmente não me importo. Tenho problemas piores”.

“Making The Most Of The Night”

Pelo título, essa parece uma daquelas produções parecidinhas dos Zedds e Calvins da vida, mas não se engane, estamos falando de um dos melhores momentos de todo o disco. Surpreendentemente, é Sia quem está por trás da composição outra vez, agora acompanhada do seu parceiro de longa data, Samuel Dixon, que dá um tom mais “banda tocando ao vivo” para a produção e, ainda que soe diferente de todo o álbum, conquista um excepcional ponto de encontro com o restante da produção. O refrão é glorioso. “Eu sei que você teve um momento bem complicado, mas lá vou eu roubar você, roubar você, e te amar enquanto aproveitamos ao máximo esta noite”.

“Your Type”

Enquanto escrevia para o novo disco, Carly Rae afirmou estar obcecada pelos trabalhos da cantora Robyn e, em “Your Type”, alcança com maestria o talento da sueca em nos fazer dançar com histórias tristes. A produção, menos elaborada que a faixa anterior, volta à se entregar por completo ao synthpop e, liricamente falando, se mostra mais simples, mas sem beirar o preguiçoso, enquanto ela lamenta não ser o tipo de garota que faria com que o cara a olhasse com outros olhos. “Mas eu continuo te amando. Me desculpe, eu te amo. Desculpe. Não é isso o que eu quis dizer”. Daqueles clichês que não cansamos de nos identificar, afinal, quem nunca teve um amor não correspondido e saiu buscando por músicas que pudessem suprir a necessidade de buscar uma moradia subterrânea?

“Let’s Get Lost”

Se Katy Perry e La Roux pudessem se encontrar em uma música, o resultado provavelmente seria bem próximo de “Let’s Get Lost”. De volta ao saxofone, ainda que bem tímido, a faixa trata daquele medo de se entregar por completo, porque ela sempre teve um receio em confiar nas pessoas, mas um senso de prontidão admirável, então se segura pra não tomar a frente das coisas e apenas torce pra que ele faça exatamente o que ela quer.

“LA Hallucinations”

Se nos mandassem essa música dizendo que era algum trabalho novo da Robyn, a gente jura que acreditaria. Dos sintetizadores aos vocais, passando pelo efeito nos backing vocals e até as viradinhas pré-refrão, tudo conversa linearmente com o último álbum da sueca, “Body Talk”, fazendo de “LA Hallucinations” uma das coisas mais legais do disco. Na letra, Jeppo contrasta uma relação que mudou com o tempo e condições, uma vez que eles prometeram não mudar e hoje, com o assédio, dinheiro e oportunidade de ter quase tudo o que querem, quase não se reconhecem. “Me coloque entre seus braços outra vez e me desperte dessas alucinações de Los Angeles”. Nosso trecho favorito é na mudança do instrumental quando ela canta “Buzzfeed buzzards and TMZ crowns / What can I say that you don’t already know? / Buzzfeed buzzards and TMZ crowns / If I just lie then will you let me go?”.

“Warm Blood”

A sensualidade de “Gimmie Love” volta a dar às caras aqui e, nesta faixa, seu maior trunfo é a sutileza. É tudo tão cuidadosamente apresentado que quase podemos imaginá-la chegando devagar e se entregando a essa paixão que faz seu sangue esquentar. Além da Robyn, a produção também nos remete em vários momentos ao britânico em ascensão, MNEK, tendo como sua cartada final o tom em que ela confessa, “meu sangue está esquentando e é tão bom, eu não posso mais controlar isso”.

“When I Needed You”

O new wave de “When I Needed You” termina a versão standard do disco de uma maneira bem inusitada, afinal, não é uma faixa que imaginamos com essa missão, mas a música, mais uma vez respirando bastante dos ares da cantora de “Dancing On My Own” e, vez ou outra, também encarnando Charli XCX, faz com que imaginemos os créditos começando a subir, então cumpre com sua proposta. O refrão é mais um daqueles momentos em que dançamos com a tristeza, enquanto ela faz questão de jogar os fatos na mesa: “às vezes eu penso que deveria mudar, mas não por mim e sim por você. Assim poderíamos ficar juntos. Mas eu sei que não vou mudar por você, afinal, aonde você estava quando eu precisava de alguém, de você?”. Em outras palavras, “parece que o jogo virou, não é mesmo?”.

“Black Heart”

Tá ficando repetitivo, mas é inevitável repararmos: ROBYN! ROBYN! ROBYN! A batidinha 8-bit e os sintetizadores nos lembram dos trabalhos da sueca, pra entender, basta ouvir músicas como “Who’s That Girl” e “Cry When You Get Older”, e isso está longe de ser um problema, tá? Afinal, ansiamos há um bom tempo pela volta da cantora e, nesta altura do campeonato, ter alguém fazendo um trabalho tão próximo que ela faz como ninguém é extremamente admirável. Os fãs deveriam agradecer.

Falando sobre a canção, “Black Heart” é o típico momento em que lamentamos por uma faixa estar apenas na versão deluxe do álbum, quando faria um trabalho ainda melhor na sua edição standard, combinando bastante com as músicas anteriores e, ainda assim, mostrando um diferencial. “No seu coração preto, você me encontrará, me cortando entre as rachaduras de concreto. No seu coração, você me encontrará te esperando”.

“I Didn’t Just Come Here To Dance”

O dance oitentista ganha espaço outra vez e com um passo ainda maior no eletrônico. Aqui, a música nos lembra do papel de “Tonight I’m Getting Over You” no “Kiss”, sendo uma das poucas inteiramente feitas para as pistas e, ainda assim, tendo algo a dizer, mesmo que com poucas palavras. “Eu não vim aqui só pra dançar, se é que você me entende”.

“Favourite Colour”

Desta vez, o álbum termina com uma música típica de fim de disco. Traçando um paralelo com o “1989”, da Taylor Swift, pode-se dizer que essa é uma “Style” em potencial, mas vamos além, afinal, a música consegue ser bem mais explorada que a canção da americana. Na mesma proposta mais devagar de “Gimmie Love” e “All That”, “Favourite” é aquele pedido de “fica mais um pouco” de quando você não quer que seu amor parta e, toda apaixonada, ela canta sobre o quão se sente bem ao lado dele e que juntos eles se misturam com a sua cor favorita. Os vocais “robotizados” como backing vocal dão um tom mais intenso para a faixa, contrastando bem com a simplicidade do seu instrumental.

***
Por fim, “Emotion” evidencia um grande amadurecimento da sonoridade de Carly Rae Jepsen que, desta vez, parece mais certa do que está fazendo, sem toda aquela pressão em repetir um grande hit, ainda que assim também tenha tentado, e entre propostas de hits em potencial espontâneos (“Run Away With Me”, “Gimmie Love”, “Your Type” e “Let’s Get Lost” são algumas que gritam pelas rádios) e oportunidades de explorar melhor o seu talento em estúdio tanto como cantora quanto compositora (“Emotion”, “All That”, “LA Hallucinations” e “Warm Blood”), o único erro da canadense é no esforço para transmitir suas influências, o que, em certos momentos, mais soa como uma emulação do que inspiração em si, fazendo com que encontremos mil e um artistas (deu pra perder a conta de quanta gente citamos, né?) e, no fim das contas, não entendamos quem ela realmente é.

Mas vamos por partes, afinal, o que temos em mãos é um ótimo e pra lá de sólido álbum pop, só deixando a desejar quando nos perguntamos quem está por trás dele, missão que, na melhor das hipóteses, talvez fique para a próxima fase, com ela amadurecendo ainda mais uma proposta que já nos deixou completamente satisfeitos — ta aí uma oportunidade justificável para um artista lançar um disco autointitulado — e quem sabe trazendo mais dessa receita oitentista tão bem explorada e extremamente certeira. O melhor, entretanto, é notar que, deixando de lado os números, Carly Rae Jepsen não só nos entregou um ótimo álbum, como também garantiu que jamais tiraremos nossos olhos de seus próximos trabalhos. Que seja esse o começo de mais uma promissora geração de artistas pop que queiram nos fazer dançar.

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