Album Review: a música pop precisava de Hilary Duff e seu ‘Breathe In. Breathe Out.’

Hoje em dia, ser uma grande estrela da Disney não significa lá tanta coisa, principalmente porque, na maioria das vezes, o que essas estrelas mais querem é ter alguma relevância quando DEIXAREM de ser uma grande estrela da Disney, mas há uma década, as coisas não eram bem assim e, certo, um título como “princesinha da Disney” era o equivalente à artista referência para toda uma geração de adolescentes que tivessem acesso aos programas da emissora.

Pensando rápido em nomes da Disney que, de fato, aconteceram, nossa mente corre para Miley Cyrus, Selena Gomez e Demi Lovato, até apelando vez ou outra para Britney Spears e Christina Aguilera, mas quer saber? Há um tempo, a estrela da Disney do momento era a Hilary Duff e, acredite, seu último álbum até então, “Dignity”, era o ápice de uma evolução pós-“Disney”, mais ou menos como vimos o “Bangerz” em 2013 e, ao que tudo indica, veremos os próximos álbuns de Demi e Selena neste ano, mas tem um porém.


O tempo passou e, centrada em sua vida pessoal, Hilary Duff passou um bom tempo sem lançar músicas novas. Sendo mais exatos, ela passou oito fucking anos sem um novo álbum entre nós e esse foi tempo o suficiente pra que a Disney lançasse toda uma gama de novos artistas e, simultaneamente, crescesse toda uma nova geração de adolescentes que até hoje ainda ficam meio assim quanto a quem é a atriz e cantora.

Pulando a parte Wikipédia da coisa, o que você precisa saber é: Hilary Duff lançou em 2007 o melhor álbum de transição pós-Disney de todos os tempos e, neste ano, lançou um novo disco, chamado “Breathe In. Breathe Out.”, avisando aos jovens de hoje que ela existe e muito provavelmente deixando músicas para mais alguns anos de um legado subestimado, o que, na medida do possível, pode ser positivo se você souber aproveitar.

Um dos principais problemas com artistas da Disney atualmente é que a concorrência cresceu e, fora artistas teen que sequer veem de alguma emissora, ainda deram pra ascender estrelas da concorrência, como Ariana Grande, da Nickelodeon, mas olhando pra trás, muitas das cantoras teen de hoje pegam bastante do que Hilary Duff fez em outrora e, consequentemente, terminam sendo lembradas quando vemos a cantora fazendo música nos dias atuais, mas como não dá pra chegar e fazer música como se quase dez anos não tivessem passado, a cantora se esforça pra acompanhar o ritmo do pop atual e, pra evitar qualquer falha, até conta com um time de peso, incluindo compositores como a novata sueca, Tove Lo, e o queridinho britânico do momento, Ed Sheeran.


Talvez com certa dificuldade pra entender o que seu público — e o resto, em geral — queria de início, a nova era de Duff começou bem complicada, com dois singles esnobados, “Chasing The Sun” e “All About You”, mas se a primeira música, de fato, era um completo erro, a segunda só pagou pela escolha errada anterior, sendo um feedback significativo para a equipe da cantora que, diante dos baixos números, optaram por segurar o álbum até que definissem a música certa. E foi numa faísca que eles a encontraram.

Respira fundo e confira abaixo o nosso veredito sobre esse retorno da cantora:

“Sparks”

Foi o primeiro single realmente significativo do “Breathe In. Breathe Out.” e é também a música que abre sua tracklist. Sua fórmula, pop em sua essência e repleto de ganchos que garantem a lembrança da música em nossa cabeça por um bom tempo, faz dela a faixa que Hilary Duff deveria ter nos apresentado logo de início, causando o impacto necessário e, consequentemente, atraindo a atenção necessária para esse relevante retorno, mas como não aconteceu, apenas aproveitamos o fato da canção existir. Toda a sensualidade com que ela entoa cada um dos versos é não só um assobio, mas também um sopro de ar fresco pra essa geração de cantoras pop tão chatas quando a ideia é tentar algo mais sensual.


“My Kind”

Essa é uma produção tão redondinha que até estranhamos não ser tão eletrônica quanto a anterior. Inicialmente, a música nos lembra a parceria do Major Lazer com a Ariana Grande em “All My Love”, mas é uma questão de tempo até que notemos suas semelhanças com “Baby Don’t Lie”, um dos recentes singles solos da Gwen Stefani, o que está longe de ser um problema. A música fala sobre uma aventura one night stand e seria uma escolha excelente para segundo single do disco.



“One In A Million”

A terceira faixa é o primeiro sinal de que ela continua com a mesma intuição em estúdio que possuía quando gravou o álbum anterior. Desta vez completamente eletrônica, a faixa é bem inspirada nos trabalhos da australiana Kylie Minogue e, chegando em seu refrão, explode em batidas mais genéricas, mas não perde seu charme, não sendo uma em um milhão, mas sim parte desse montão de eletrônicas parecidinhas, ainda assim, sendo uma oportunidade e tanto para nos fazer dançar.

“Confetti”

Se não fosse o Wikipédia, estaríamos certos de que tinha a mão do alemão Zedd em “Confetti”, mas levem isso para o lado positivo. A música, uma das mais interessantes de todo o álbum, conta com a produção do Matthew Koma (coincidentemente, parceiro do Zedd em músicas como “Spectrum” e “Find You”) e vem com batidas que crescem gradualmente, até que atinja aqueles ápices bem característicos aos trabalhos do hitmaker de “Clarity” mesmo. Sua letra faz uma relação bem engraçada entre como o cara faz ela se sentir e confetes.

“Breathe In. Breathe Out.”

Respirando, com o perdão do trocadilho, a faixa-título é o momento em que o disco desencana das dançantes pra assumir uma veia um pouco mais emotiva. Levando em consideração que, nos últimos anos, muita coisa aconteceu na vida de Duff, o que inclui um casamento, o nascimento de um filho e, logo em seguida, uma separação, a música parece pontuar alguns versos sobre isso, meio que com ela se reorganizando em meio ao divórcio. “Eu fiz um top 10 com todas as coisas que eu perdi. Seus olhos e lábios mentindo... Eles não fazem parte disso. E quando eu estou com frio à noite, eu sei que vou sobreviver. Enquanto eu não me sinto bem, vou fingindo isso”.

“Lies”

Outra sobre separação? “Lies” poderia facilmente ser uma produção do Diplo com o Major Lazer, tanto que nos lembra um pouco do que eles fizeram com a MØ em “Lean On” e também com o duo Wild Belle em “Be Together”, do CD “Peace Is The Mission”. Na canção, repleta de elementos que vão de um sample ao fundo à cordas casadas com uma percussão contínua, ela afirma estar cansada das mentiras dele, num relacionamento que foi longe demais, e também traz um pouco de Selena Gomez na repetição silábica de sua palavra-título. “Por que a gente se apega à coisas passadas quando sabemos que já foi longe demais?”. O saxofone é quem dá a cartada final e arriscamos dizer que é a melhor música do disco.

“Arms Around A Memory”

Numa proposta eletrônica outra vez, essa faixa parece conversar diretamente com a anterior e se antes ela pergunta “por que nos apegamos ao que já foi?”, agora ela entende essa indecisão, quando não sabe se deseja ter essa pessoa por perto ou o mais longe possível, porque não se pode ter memórias entre os seus braços. Musicalmente, não há muitos avanços, mas a letra é bastante significativa. “E agora eu estou desejando que estivesse aqui tanto quanto que você desaparecesse, mas você se lembrará de me esquecer?”.

“Stay In Love”

Um dos grandes feitos de Hilary Duff e seu “Breathe” é ter conseguido um álbum coeso sem a necessidade de ir muito além do que o seu forte, que é a música pop, e em “Stay In Love” temos uma das melhores evidências sobre isso, além de um dos melhores refrãos. No lugar dos batidões eletrônicos, o que temos aqui é uma fórmula relativamente simples, resultando num tímido poprock acentuado pela vulnerabilidade dos seus vocais, algo mais claro nos versos iniciais, e uma percussão crescente. É mais ou menos o que gostaríamos de ver a Katy Perry fazendo em seu próximo disco. “Você se lembra de quando eu disse que morreria por você e todos os dias fingia que isso era verdade?”

“Brave Heart”

As cordas de “Brave Heart” parecem umas das poucas sobreviventes ao projeto inicial de Hilary Duff, que era de lançar um disco influenciado pela música folk americana. Felizmente, a percussão ao fundo não deixa que a música destoe do restando do álbum e, desta forma, não só dá uma variada em sua sonoridade, como conversa muito bem com todo o restante. “Todo dia é o mesmo velho jogo e eu jogo sozinha. A gente fica dando voltas e voltas, mas nunca sabemos quando devemos sair (...) Eu tenho um coração corajoso”.

“Tattoo”

Corações partidos sempre rendem ótimas canções e ninguém melhor do que o britânico Ed Sheeran para comprovar isso. Composta em parceria com o ruivo britânico, “Tattoo” vem repleta de seus traços de escrita e fala sobre aquele amor que te marca, mas não de uma maneira positiva. A voz de Hilary nos versos iniciais são de partir o coração, quase que literalmente. “Abaixo da minha pele, correndo no meu sangue, essas cicatrizes são do jeito que você me amou. Eu acho que você tinha que deixar uma tatuagem para me lembrar”.


“Picture This”

Outra sobrevivente do projeto folk? “Picture This” parece ter saído do disco de estreia da banda The Vamps e cumpre toda aquela fórmula Comercial-da-Coca-Cola de muuuitas cordas, coro ao fundo, palmas, assobio e mais um pouco. Aparentemente, ela não brincou quando disse estar curtindo aquela era do “folk-pop” e soube transmitir muito bem isso para o álbum. “Isso não é como eu imaginei, é ainda melhor do que isso”.

“Night Like This (feat. Kendall Schmidt)”

Não tem parceria com Tove Lo, Ed Sheeran, Kerli e nenhum outro compositor que realmente desejássemos vê-la dividindo não só os estúdios, mas também os vocais, mas sobrou um lugar para o Kendall Schmidt que, de acordo com o Wikipédia, é um dos integrantes daquela boyband da Nickelodeon (há falsas entre nós), Big Time Rush, em “Night Like This”. A faixa mantém a ideia de festa entre amigos da música anterior, só que de maneira menos grandiosa e em momentos nos remete à parceria do Owl City com a Carly Rae Jepsen em “Good Times”.

***
Em suma, não é como se todos soubessem, mas o pop precisava de Hilary Duff. Isso porque estamos carentes de cantoras que estejam dispostas a fazer um pop tão homogêneo como esse que ela nos trouxe de volta e, levando em consideração o público que tende a atingir, é de se esperar que sua volta, caso tenha a atenção necessária — e nós esperamos que tenha —, incentive uma saudável disputa pelos topos de cada dia com, o mais importante, materiais de qualidade. “Breathe In. Breathe Out.” é aquela respiração bem funda que a música pop vem tentando dar há algum tempo e só agora, com Duff, Taylor, Carly Rae Jepsen e outras que lideram essa nova leva da música propriamente pop teve a chance de fazê-lo. Inspira.

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