Album Review: Adam Lambert faz de 'The Original High' o limite da perfeição em sua melhor forma!

Em "For Your Entertainment" (2009), Adam Lambert trouxe seu lado mais pop à tona, de forma teatral e impecavelmente deliciosa. Com o "Trespassing" (2012), ele trouxe uma evolução notável, inspirada na disco e no funky, porém, um ano antes da tendência que viralizaria no mercado sonoro mundial. Agora, em 2015, "The Original High" talvez dite outra tendência, mas, de coração, esperamos que esteja no tempo certo.

Ao lado de Max Martin e Shellback, responsáveis por "Whataya Want from Me", seu maior hit na carreira, lá em 2010, Lambert se reinventa outra vez: trocou de gravadora, largou a teatroalização de outrora e assumiu uma postura menos transgressora, dando lugar à sofisticação e à elegância. Porém, seu talento, é irretocável e aqui está em seu estado mais puro, trazendo elementos de um rock despojado, meio sombrio às vezes, jogado em meio à combinações de dance music, com direito a groove e R&B, mas, ainda assim, soando bem pop e atual, mostrando que, realmente, ele pode passear por qualquer estilo sem soar forçado e fazendo dele um dos artistas atuais mais interessantes no mercado. Abaixo, segue nossa review para um dos melhores álbuns que 2015 trouxe neste primeiro semestre.

1) "Ghost Town" 
Iniciando o álbum temos o poderoso, mas incompreendido lead single. Semanas antes de seu lançamento, "Ghost Town" vinha ganhando gloriosos elogios por parte da crítica, o que, infelizmente, funcionou de forma negativa, criado uma expectativa e responsabilidade além da conta. Não que o single seja ruim. Longe disso. Porém, somando-se isso, ao fato dele ter uma proposta sonora um tanto quanto diferente do que o mercado atual acostumou-se a ouvir nas rádios, fez com que não recebesse a atenção devida. Uma pena, tanto pra Lambert, quanto pra Max Martin, que o produziu - fazendo deste, um de seus mais diferentes e interessantes (no ponto de vista de novidade em sua carreira) trabalhos nos últimos anos. A música, começa de forma calma e delicada, com Adam quase lamentando sobre um sentimento de perda (não especificado) que deixou seu coração similar a uma cidade fantasma, enquanto é acompanhado apenas pelos acordes do violão, é um deslumbre: "Noite passada, morri em meus sonhos, caminhando pelas ruas de uma velha cidade fantasma. Eu tentei acreditar em Deus e em James Dean, mas Hollywood os vendeu. Vi todos os santos trancarem as portas. Eu não pude entrar. Caminhando pelas chamas, chamei por seu nome, mas não tive resposta. E agora eu sei: meu coração é uma cidade fantasma". Para, na sequência, nos jogar numa reviravolta, ao criar um imponente ambiente de deep house, cheio de synths, apitos, acordes e todo o trabalho excelente de estúdio de Martin, até chegarmos no ápice do canção (a partir de 2:35), quando Lambert expõe todos os predicados possíveis de seu potencial como um dos melhores cantores da atualidade.


2)"The Original High"
Na sequência, temos a grandiosa faixa-título e, que, embora morra de amores por "Ghost Town", é meio óbvio reconhecer que "The Original High" deveria ter iniciado essa era, não é mesmo? É um hino que bebe da fonte europop, com "quês" oitentistas e ainda mais radifônico que o lead. Aqui, de novo, Adam traz a vida (dessa vez noturna) de Hollywood durante o verão como tema - quase uma ode -, enquanto lembra do que viveu com alguém marcante: "Apenas me deixe sentir a adrenalina como na primeira noite. Quero respirar, porque sairei de mim. Tenho que sentir o toque como da primeira vez. Porque estou em busca do ápice". Necessita ser single PRA ONTEM!


3) "Another Lonely Night"
O grande poder do "The Original High" é conseguir uma homogeneidade mesmo tendo canções bem distintas entre si. "Another Lonely Night" é prova disso. A curiosa faixa prega uma peça similar a de "Ghost Town", ao nos dar um início calmo e, aparentemente, triste em tom de lamentação, com piano e estalar de dedos como principais: "Sozinho no escuro do meu coração esburacado, ligo o rádio. E as palavras saem, mas sem lugar para ir. [...] Sei que devo deixar você ir, mas o mundo não para. E tudo que tenho é seu fantasma". Para, no refrão (mais precisamente após a voz robotizada entrar em ação), crescer em ritmo pulsante, num clima meio feliz, meio triste e meio azedo.


4) "Underground"
Adam Lambert sempre se notabilizou, desde o American Idol, como um camaleão, podendo cantar qualquer coisa, que ainda assim, soaria brilhante. Em "Underground" isso não fica para trás. O midtempo R&B é tocante e cantado de forma cuidadosamente feita para sufocar quem escuta com a dor vivida naquela história, de forma fascinante. Aqui, ele traz um fim de relacionamento nocivo, psicótico e com "quês" de masoquismo. Porém, não consegue se desprender disso, afinal, já está viciado demais para voltar atrás: "Porque ninguém sente você como eu sinto. Ninguém me mata como você consegue. Nada que eu tome pode conter isso. Estou em apuros. Preso a você como velcro. Que simplesmente pode rasgá-lo e seguir em frente. Estou em apuros".


5) "There I Said It"
"Você diz que quer a verdade, mas não pode aceitá-la. Então eu te dei mentiras, eu te dei mentiras". Assim, onde menos é mais, se constrói uma das mais belas faixas originais já cantadas por um divino Adam Lambert, que, de forma minimalista e num de seus tons mais controlados em muito tempo, chega ao ápice no refrão quase melancólico, embora se mostre resignado sobre não querer mais viver essa relação: "Não vou te pedir desculpas por mais nada, porque eu sou um homem crescido e não terei outra chance. Estou doente e cansado de viver nas suas sombras". Como é bom sentir essa dor com que ele canta. Fantástica música!


6) "Rumors" (feat. Tove Lo)
Quase no meio temos a primeira parceria de Adam num álbum próprio desde que surgiu, e não poderia ser melhor, porque traz a queridíssima e maior acontecimento pop de 2014, Tove Lo. "Rumors" é um primor do início ao fim, desde a produção pop minimalista em meio a um filtro hip hop, com grande coro e refrão, passando pela letra madura e sólida, apoiando a parte vocal impecável de ambos, em total sintonia, abordando uma relação, aparentemente, desgastada pelas influências externas: "A inveja é mais profunda e perigosamente discreta. É fácil de ver. Mas é mais difícil de largar. Não vamos nos esconder. Nós sabemos o que eles não sabem". Mesmo que um não tenha que provar mais nada pro outro, porque é algo óbvio: "Por que você se importa com rumores, baby? Porque não preciso mentir para você. Você nunca vai quebrar meu coração. Sim, você vai encontrar a verdade. Aqui, nos meus braços". Apostaríamos, fácil, fácil, como terceiro single do álbum.


7) "Evil In the Night"
Na sequência, temos outras faixa impressionante. "Evil in the Night" é uma incrível combinação pop rock meets funky, graças a essa guitarra deliciosa, que nos remeteu um pouco ao Nile Rodgers, onde Adam nos conta como é ter uma relação com alguém meio possessivo e dominador, mas que vale muito a pena: "Você age como se houvesse regras. Pequeno criminoso, eu estou chamando a polícia. Me mantenha em uma coleira essa noite. Não há lugar para eu me esconder". Ui!


8) "Lucy" (feat. Brian May)
Segunda parceria do material, "Lucy" não traz um dueto, em si, mas as guitarras destruidoras da lenda e seu parceiro de Queen, Brian May. Como esperado, é a faixa mais rock 'n' roll do material, mas ainda assim, completamente homogênea dentro do álbum, apesar de ter a letra mais simples e repetitiva dele.

9) "Things I Didn't Say"
Confesso que, logo assim que o álbum saiu, essa faixa foi uma das que detestei de cara. Porém, com o passar dos dias, ela foi se tornando muito agradável e virou uma das minhas preferidas. "Things I Didn't Say" é um canção pop pura e deliciosamente acrescida um frescor encaixado de forma simples em sua melodia, com um Adam deslumbrante vocalmente, nos contando sobre aquele famoso momento de término em que uma das partes é tão irônica, que se martiriza depois pela forma errônea com que foi interpretado: "Eu não disse 'Me desculpe, querido, porque metade da culpa foi minha'. [...] Eu disse 'Se é do jeito que você quer, eu não vou ficar no seu caminho'. Ele se foi e agora estou ouvindo todas as coisas que não disse". É uma das mais divertidas letras do álbum.

10) "The Light"
Solta o batidão e vamos pra balada ao som de "The Light", perfeito runaway song de RuPaul (#Dicas /corre), com várias referências místicas.

11) "Heavy Fire"
Encerrando a versão normal, temos a pseudo-baladinha pop cheia de baterias, voz distorcida e mais uma produção impecável de Max Martin, numa letra densa e hipnótica,  comparando uma relação desgastada por mentiras ao inferno, cada vez mais impiedoso: "Eu não quero me jogar nessas chamas. Por que você tem que me fazer jogar este jogo? Assim como um mentiroso honesto, eu não quero derreter no calor, como se eu tivesse o diabo em meus pés".

12) "After Hours"
A versão deluxe inicia-se com a deliciosa "After Hours", que pode ser facilmente descrita como uma fusão minimalista de The xx e Sam Sparro, cantada por Lambert, soando algo muito, muito relaxante, sensual e interessante. Grande bônus.

13) "Shame"
Na sequência, vem "Shame", que embora seja deliciosa, é a mais fraca em relação ao grande material apresentado até agora (salvando-se a parte final) e, merecidamente, não entrou na versão normal. Embora tenha versos bem significativos, como "Eu não me importo em sentir um pouco de dor quando eu realmente ganho algo".

14) "These Boys"
Adam, seu lindo, vem cá nos dar um beijo por trazer seu lado meio Scissor Sisters à essa coisa graciosa chamada "These Boys", que vem repleta dessa vibe alternativa meets folk, repleta de ironia e encerrando, com maestria, esse álbum maravilhoso, falando de seus ex que não conseguem superar o fim da relação.

CONCLUSÃO
Adam Lambert sempre foi caracterizado por seu brilhante potencial vocal, especialmente nas notas altíssimas às quais ele pode chegar facilmente. Porém, para nossa supresa, elas não são dominantes em "The Original High". Aqui, ele traz, pela primeira vez, um trabalho mais contido e impecavelmente produzido (méritos demais à Max Martin e Shellback, que extraíram dele esse lado), que soa espetacular a cada novo play. Como na impressionante balada "There I Said It", ou então na raivosa "Evil in the Night", alguns dos ótimos destaques. Mesmo tendo um aspecto sombrio, é um álbum sobre relacionamentos, que o permeiam por toda parte, sejam eles bons, como na faixa-título ou complicados, como em "Underground". Embora a escolha do lead single (que nunca foi o forte de Adam em seus trabalhos anteriores, diga-se) tenha sido equivocada, "The Original High" é um material para se degustar sem medo de ser feliz, porque é um álbum fantástico e, facilmente, o mais coeso da carreira de um Adam Lambert que nos surpreende cada vez mais e cresce brilhantemente diante dos nossos olhos a cada lançamento. Agora, beirando o limite da perfeição em sua melhor forma.

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