Throwback Review: Natalia Kills está pronta para matar você (da forma que você quiser) com o 'Perfectionist'

Muito antes de Natalia Kills eleger seu marido, Willy Moon, como o maior ícone fashion da cultura popular mundial no episódio já icônico do "The X Factor" neozelandês, a cantora e compositora já possuía identidade musical bem delimitada. Sob a alcunha "Kills", Natalia Noemi Cappuccini-Sinclair - que era chamada de Verbalicious anteriormente - chegou ao mundo em 2011 pela porta da frente com o "Perfectionist", seu álbum de estreia.
Caso você dê uma rápida volta para 2011 verá o cenário pop com Katy Perry vivendo seu sonho adolescente, Rihanna encontrando o amor num lugar sem esperança, Britney Spears pedindo para colocarmos nossos corpos contra o dela, LMFAO criando o hino definitivo das festas, Lady Gaga mostrando que nasceu desse jeito e, uau!, que ano. Aproveitando que o pop era o estilo definitivo no mercado, surge Kills, apadrinhada pelo nosso queridíssimo, ilustríssimo e tantos outros "-íssimos" will.i.am.



Surgindo quase como uma Lady Gaga morena nesse mundo onde defendemos criatividade, integridade e propriedade intelectual (Akon, Fernando Garibay e Cherry Cherry Boom Boom, todos produtores de Gaga, estão aqui), Kills trouxe um pop mais obscuro, sarcástico e auto-destrutivo (beijo para o "Prism"), usando e abusando do conceito criado pelo seu nome artístico.

Nossa Throwback Review da semana não foi escolhida por acaso. Mesmo com o papelão ridículo protagonizado pela cantora, viemos aqui em defesa do seu trabalho, que em nada deve ser diminuído pela instabilidade mental de sua intérprete, principalmente por se tratar de um material tão legal. É importante saber separar as coisas e, se é que isso é possível, tirar algo de bom de toda a péssima situação: conhecer o trabalho dela ou voltar a ouvi-lo. Vamos lá?

1. "Perfection"
Natalia Kills abre o álbum com uma intro meio macabra. Um médico fala (com efeitos robóticos) o prognóstico de todas as neuras que a cantora abordará durante todo o álbum: "O indivíduo em questão parece obsessivamente preocupado em poder, ter controle. Sofrimento vindo de impulsos neuróticos, experimentando sentimentos de satisfação extrema e decepção entre momentos". Consegue em 30 segundos nos preparar para tudo que está por vir.

2. "Wonderland"
A primeira música do "Perfectionist" já é a melhor de todo o álbum. "Wonderland" é uma épica canção onde Kills incorpora todas as princesas dos clássicos contos de fadas, mas, claro, do jeitinho Natalia de ser. "Não sou a Branca de Neve, mas estou perdida dentro dessa floresta. Não sou a Chapeuzinho Vermelho, mas acho que lobos me pegaram. Não quero seu sapato, não sou a Cinderela. Não preciso de um cavaleiro, então querido tire toda a sua armadura". Bom versos fortes, ritmados e liricamente marcantes, a faixa vai crescendo até passar pela ponte fenomenal com "Eu não acredito em contos de fadas, mas acredito em você e eu", quando caímos no refrão como Alice caindo na toca do coelho. Estamos no País das Maravilhas com essa música. Seu videoclipe, um dos melhores da década, traz todas as fábulas num ambiente ditatorial e opressor, onde Kills tenta destruir mas acaba perdendo seu final feliz. Obra-prima mesmo.



3. "Free (feat. will.i.am)"
Como é costumeiro em trabalhos apadrinhados pelo will.i.am, cá está a parceira com os vocais do líder do Black Eyed Peas. Animada, "Free" soa parecido com quase tudo que já ouvimos pelas mãos do produtor - o instrumental lembra "Check It Out", parceria com Nicki Minaj, por exemplo. Aqui temos Kills cantando sobre o dinheiro como fonte de saciamento da seu perfeccionismo. Meio clichê, a faixa se alonga em demasia, efeito piorado pela fórmula requentada do todo, que destoa do álbum inteiro por não carregar personalidade alguma de Kills, apenas de will.i.am. Próxima.



4. "Kill My Boyfriend"
Talvez a faixa que mais represente quem é Natalia Kills em seu álbum de estreia seja "Kill My Boyfriend". Absoluta em todos os aspectos possíveis, Kills faz a linha Lily Allen ao cantar de forma absurdamente fofa que vai matar o namorado, criando a apoteose pop em "kill kill kill, I'm gonna kill kill kill!". Mas o xis da questão está em: ela vai matar o atual para ficar com o ex. "Agora eu tenho outro, tenho um anel, tenho um amado. Estou prestes a ter uma sogra. Vou matar meu namorado, sim, porque ele só é gentil quando há alguém por perto. Assim nós podemos ficar juntos como planejamos" hahahah sensacional! No clipe temos a cantora toda vintage e retrô matando o namorado com várias metáforas, como dando um tiro no cara pela boca ou o afogando numa banheira com leite. Mais pop do que isso, impossível.



5. "Break You Hard"
Com uma batida bem mais pesada, Kills começa a soltar as garras em "Break You Hard", que já se inicia com um "Essa não é uma canção de amor. Docinho, se você quiser uma é melhor a desligar". Sua persona destrutiva vem com toda a força e, claro, a vítima é o cara: "Quanto drama, chame sua mamãe. Pegue as chaves do carro e vá. Parece que nós estamos presos em uma série de TV mal escrita, batendo portas e quebrando pratos. Tem outra coisa que eu preferia quebrar". A junção do refrão nas alturas com o pós-refrão alongado é uma delícia.

6.  "Zombie"
O nível desce ainda mais em "Zombie", com o instrumental ainda mais pesado unidos com sintetizadores rasgados e os vocais de Kills modificados. Mais uma vez a cantora critica seu parceiro ao dizer que está apaixonada por um zumbi frio que só quer o corpo (e o cérebro) dela, numa associação esperta entre o cara e a criatura. "Quando ele colocou suas mãos sobre mim arrepios se espalham pelo meu corpo, mas então ele não me liga. Eu sei que ele gosta de mim porque ele está me perseguindo na noite, e eu quero que ele me morda porque eu sei que eu vou gostar". Mais uma com a marca de Kills.



7.  "Love Is A Suicide"
Beirando a violência, "Love Is A Suicide" é mais uma relação de Kills entre o amor e a morte. Produzida por Fernando Garibay, a faixa tem um instrumental cheio de sintetizadores e backingvocals modificados, dando um ar robótico e artificial para a faixa - lembrando alguns trabalhos de Gaga com o "The Fame". "Eu sou um resumo de tudo que você odeia e tudo que você deseja. Você me ama como um inimigo", canta Natalia na sua eterna ligação de amor e ódio em mais uma faixa pop deliciosa. Melhor parte: "Feche seus olhos, conte até dez. Coloque a bala novamente. Diga meu nome, me bate forte. Coloque essa arma direto no meu coração. Bang!".

8. "Mirrors"
A faixa de maior sucesso na carreira da cantora - foi #3 na Hot Dance Club Songs da Billboard, "Mirrors" é uma epopeia pop sensacional do jeito que esperamos de uma faixa do gênero. Produzida por Akon e Giorgio Tuinfort, dois dos grandes nomes por trás de vários hinos batecabelísticos que conhecemos - Akon foi quem apresentou Gaga ao mundo e Giorgio é o braço direito de David Guetta e produtor de "Phresh Out the Runway" da Rihanna, "Body Ache" da Britney, "Titanium" do Guetta & Sia, "Fashion!" da Gaga e váaarios outros -, "Mirrors" alia uma melodia viciante com letra sensual e provocadora: "Cala a boca e feche a porta, eu quero ver enquanto você tira tudo. Vou colocar a venda nos seus olhos e então eu solto o couro no chão. Eu disse pra calar a boca! Apagando as luzes, queimando as velas. E o espelho vai embaçar essa noite", ai que delíiiiicia! Altamente indicada prum lapdance, fica a dica.



9.  "Not In Love"  
Diminuindo um pouco o ritmo da badalação de "Mirrors", "Not In Love" se aproxima de uma balada sem abandonar os sintetizadores, principalmente no refrão, onde eles parecem cacos de vidro triturados. O que conquista em "Not In Love" é o jogo de palavras nos versos e na ponte, onde Kills canta "But were not in love / No matter what / It's not enough / Were not in love", com as últimas palavras criando uma melodia repetitiva e que consegue prender com facilidade. Na letra temos a cantora confessando pro cara que não o ama: "Você nunca fará com que eu queira. Me faça querer mais que diversão. Se você quer ser o único, seja o único só agora". Consegue ser bem divertida mesmo num tempo abaixo das melhores faixas do álbum.

10. "Acid Annie"
Com traços de rock, "Acid Annie" traz vocais cheios de autotune numa vibe meio Avril Lavigne, meio princesa do rock (risos) que fica possessa quando descobre que seu namorado a trai: "Se você está se perguntando por que suas janelas quebradas, por que suas camisas estão cortadas, sua casa está bagunçada, fui eu, filho da p***, fui eu", calma moça! Imaginando o clipe de "Blank Space", mais precisamente a parte onde Taylor Swift destrói as coisas do cara, Kills ainda manda um recado para seu lado ácido: "Não seja amarga pelo resto de sua vida. Ele não pode te magoar, ele não te merece". Anotemos.

11.  "Superficial"  
Elevando a vibe novamente, "Superficial" é uma música que Lady Gaga poderia facilmente cantar no "The Fame". Demasiadamente pop, animadíssima e com um ritmo frenético - os versos são mega rápidos, Kills canta sobre ser apontada como uma garota superficial onde só se importa com cartões de crédito e batons, mas ela se defende com "O meu amor é algo que o dinheiro não pode comprar. Não me diga que sou superficial" para lá no final listar tudo que seu lado fútil ama: "Amo carros, amo espetáculos, amo garotos, amo barcos, eu amo beleza". E quem não ama? Hino.

12.  "Broke"
Finalmente numa balada de verdade, Garibay produz um instrumental épico que só ganha força com a letra e os vocais de Kills, num dos destaques do álbum. Já começa mostrando a que veio, numa melodia no topo e vocais poderosos, que só não superam a composição sincera e universal: "Se eu ganhasse um centavo para cada vez que você me fez chorar, eu estaria milionária. Se eu ganhasse um centavo para cada vez que eu deveria ter dito adeus, eu estaria milionária. Mas eu não estou, porque você me deixou quebrada". Adele aprova.

13. "Heaven"
Começa com toques de canção de ninar, e é exatamente isso que "Heaven" faz: dá sono. A letra tem até conteúdo, com a cantora narrando sua vida agora que seu amado morreu, mas o instrumental é chatíssimo e repetitivo, que só pioram com os versos cantados de forma sem graça. Poderia ganhar uma reestruturação para se transformar em algo melhor, principalmente pela letra com momentos bem interessantes (e tristes): "Dizem que uma imagem diz mais que mil palavras, mas eu trocaria mil fotos para ouvir uma de suas". Próxima.

14.  "Nothing Lasts Forever (feat. Billy Kraven)"
Kills sai da marcha fúnebre para animar novamente o andar da carruagem nessa parceria com o produtor Billy Kraven - que fez "Run This Town" do Jay-Z, "All of the Lights" do Kanye West, "We Are Young" do fun. além de "Zombie" da Kills. Com batidão pesado, aqui Natalia intercala os vocais modificados com os regulares, como se conversasse com ela mesma, completando-se. Billy aparece apenas no segundo verso com vocais modificadíssimos, mas que dá um bom tom à música como um todo, que fala de aproveitarmos o momento já que nada dura para sempre. Ainda há uma parte no piano perto do final que vai crescendo até cair com tudo no refrão. Muito boa.

15.  "If I Was God"  
Kills encerra o álbum com "If I Was God", e aqui temos um efeito interessante: o refrão é a pior parte da canção. Seus versos são limpos e diretos e sua ponte é inexplicavelmente maravilhosa, o que é uma pena, já que desemboca num refrão tão sem graça - a parte com os ecos gritando "amor, guerra, mentiras, dinheiro" é particularmente irritante. Mesmo sendo irregular, possui um conceito bacana e a ponte consegue fazer tudo valer a pena. "Será que você ainda me amaria de verdade se eu não fosse tudo o que você pensava que eu era? Não é uma mentira, eu só quero te dar a melhor versão de mim, eu só quero protegê-lo da decepção, portanto, se minto eu realmente estou errada?".

...
RESUMINDO: Natalia Kills já chegou ao cenário pop trazendo conceitos interessantes e que casavam perfeitamente com seu visual. Mesmo que caia em redundâncias, a britânica soube desenvolver de forma super satisfatória a ligação entre amor e ódio, sempre tratando seu amado com um ser monstruoso - aquilo que sempre sentimos num término - ou fonte de luxúria assumida.

Muito verdade que o "Perfectionist" possui irregularidades, porém soa forte ao conseguir construir a identidade de Kills de forma precisa e sem rodeios, efeito ainda melhor ao se tratar de um álbum de estreia. Recheado de músicas para amante de música pop nenhum botar defeito, você realmente deve deixar de lado toda a polêmica que Natalia Kills se meteu para apreciar músicas deliciosas.

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