Throwback Review: a evolução intimista e sem-vergonha de Christina Aguilera no épico 'Stripped'!

Quando comecei a pesquisar sobre o álbum para escrever esta resenha, achei uma frase que destaca perfeitamente o que o trabalho "Stripped" representa na carreira de Christina Aguilera: "Parece que a cantora finalmente se propôs a sair de sua garrafa", disse a Slant Magazine. A revista fazia clara referência ao até então maior single da carreira da americana, "Genie in a Bottle", extraído do primeiro álbum da intéprete. Mas o que isso queria exatamente dizer?


Marcada por um rostinho angelical e um vozeirão de fazer inveja, Aguilera precisava se desvencilhar dos seus próprios fantasmas para firmar-se como um dos nomes fortes do pop contemporâneo. E foi assim que, em outubro de 2002, o mundo conheceu o quarto álbum da então recente carreira da garota: "Stripped". Passando uma nova imagem de bad girl sensual, mas ao mesmo tempo sentimentalista, foi então que a cantora deu vida ao seu alter-ego Xtina, apelido que viria a se tornar sua marca registrada até os tempos atuais.

E a proposta do trabalho foi das mais perigosas: Hip-hop, R&B, e muito pop em meio a letras profundas que te fazem repensar a vida toda em cinco minutos. Tomada por essa personalidade paralela, a moça incorpora uma mulher cheia de romantismo, sensualidade e muito poder para dar vida a um dos gritos feministas mais notáveis da última década, o qual será objeto da nossa Throwback Review de hoje. Preparados? Então vamos às cartas.

1) "Stripped Intro"

Começando de uma forma não menos que impactante, Christina Aguilera faz um convite aos ouvintes para conhecerem o seu novo projeto, cheio de nuances intimistas que, apenas pela intro, já deixam qualquer um curioso para o que está por vir: "Huh, então aqui está / Sem exageros, sem brilho, sem pretensões / Apenas eu, despida". Então vem com tudo, mulher!

2) "Can't Hold Us Down" (feat. Lil' Kim)

Como num piscar de olhos, levamos um choque com a entrada de uma das faixas mais aclamadas do trabalho. Considerada um grito anti-sexista dos mais surpreendentes, "Can't Hold Us Down" mostra a primeira faceta da cantora, na qual mistura pop ao hip-hop, fazendo a bagunça ainda melhor com os versos pontuais da rapper Lil' Kim (quando ela ainda não queria arrancar a cabeça de nenhuma outra rapper). Tem como achar ruim? Não.


3) "Walk Away"

Em uma mudança arriscada de ritmos logo no começo do projeto, Xtina apresenta a poderosa balada "Walk Away" como terceira faixa do disco. Dissecando toda sua (primeira?) decepção amorosa, a intérprete carrega toda aquela sofreguidão pros versos recitados cheio de mágoa e dramaticidade, implorando que tudo termine bem: "E isso machuca minha alma, pois eu não posso esquecer". Te entendemos muito, amiga.

4) "Fighter"

A vida não parece fácil pra nossa amiga! "Fighter", ao contrário de sua antecessora, é um grito de libertação de tudo aquilo que lhe fez mal. Levada por uma carga emocional enorme e uma letra encorajadora, é o tipo de música que realmente te fortalece nos momentos difíceis. O que mais dizer sobre este hino que comecemos há tanto tempo e nunca conseguimos enjoar?!


5) "Primer Amor Interlude / Infatuation"

Funcionando como uma chamada de dramalhão mexicano, a interlude "Primer Amor" abre alas para a passagem da romântica "Infatuation". Em nova mudança de estilo, Aguilera agora aposta nos bons e eficientes instrumentos latinos para contar a história do amor proibido de um porto-riquenho que roubou o coração de uma americana, sem direito a devoluções. Enredo interessante, interpretação impecável, sonoridade exótica, além do espanhol nota 10 da nossa Chris. Ficou tudo muito legal!

6) "Loves Embrace Interlude / Loving Me 4 Me"

Que música, meus amigos! Mais classuda do que nunca, "Loving Me 4 Me" descreve em murmúrios a sensação de Chistina Aguilera em se ver amada por completo. "É incrível como algo tão doce chegou e transformou minha vida / Fui beijada pelo destino, o céu veio e me salvou / Um anjo foi colocado a meus pés e isto não é comum / Ele está me amando por mim". Letra apaixonante e interpretação não menos incrível para uma música que compõe o material com excelência.

7) "Impossible"

Com um pé no jazz/soul e o outro no R&B, a cantora não esconde sua vulnerabilidade amorosa na balada "Impossible". A música começa de um modo extraordinário, ao expor um diálogo entre Christina Aguilera e Alicia Keys (que produziu a música e tocou o piano na faixa), no qual elas combinam algo do tipo "vamos mostrar pra eles qual é o problema". Ao mesmo tempo em que a fragilidade é demonstrada, versos como "Isso não é um circo / Então não me faça de palhaça" entoam uma autodeterminação em mostrar toda a força em enfrentar situações que parecem não ter solução.

8) "Underappreciated"

Quem nunca se sentiu desvalorizado, que atire a primeira pedra! Apresentando o tema através de um pop bem leve, Aguilera convoca todas as mulheres que já se sentiram mal por um cara para unirem suas forças e mostrarem para si mesmas que não precisam de ninguém para se sentirem realizadas. Onde que eu assino embaixo? Who run the world? Vocês sabem bem.

9) "Beautiful"

Não existem palavras no dicionário para descrever tal perfeição.


10) "Make Over"

Mas justo depois do hino de toda uma geração? Propondo um novo estilo de pop/rock, Aguilera traz uma sonoridade descompromissada em "Make Over", décima faixa do longo "Stripped". Apesar da letra apresentar um estilo que exige atitude na condução dos vocais, se podemos dizer que tem alguma música mais fraca no disco, aqui encontramos a tal. Mas ok, te perdoamos, Tina!

11) "Cruz"

"Hoje estou indo embora / Vivendo, estou partindo para mudar". Já podemos ajoelhar e agradecer por cada segundo da décima primeira faixa do álbum? Em uma das interpretações mais emocionantes do projeto, Christina Aguilera dá as costas ao passado que um dia sentirá saudades, almejando um futuro melhor do que o presente. Mais uma daquelas impecáveis que fazem questão de mostrar que o hinário não parou há duas faixas atrás...

12) "Soar"

Tá complicadíssimo segurar essa barra, amigos! Em nova investida sentimentalista, Christina Aguilera deu vida à "Soar", música cheia de influência daquele R&B gostoso do começo dos anos 90, tipo Whitney Houston. Apresentando uma letra impecável, um coral super encaixado e desfilando sua voz sensacional, "Soar" é mais uma das que você se pergunta porque nunca virou single. Merecia muito, tá?!

13) "Get Mine, Get Yours"

Destoando de suas antecessoras, "Get Mine, Get Yours" parece mais uma música qualquer gravada pelas Destiny's Child do que uma faixa desse álbum espetacular. Não queremos de modo algum diminuir a música, mas perto das outras é como se fosse uma margarida no meio de várias rosas robustas, sem qualquer toque capaz de torná-la especial, apesar de ser outra cartada lírica certeira da americana. E antes que me acusem de bullying, nada contra as margaridas...

14) "Dirrty"(feat. Redman)

Safada, deliciosa, sensual! Essas três palavras não podem sugerir melhor definição para o hino mundial da sem-vergonhice, "Dirrty". O instrumental barulhento com vocais igualmente confusos, fazem da música uma enorme barulheira sem nexo. E a gente ama isso, ok?! Sem contar a letra promíscua, que faz qualquer um perder o restinho da dignidade que sobrava: "Ficaremos excitados rapidamente / Quero ficar suja, está na hora de chegar pra começar a festa". Mas gente, que malícia!


15) "Stripped, Pt 2"

Entoando um diálogo com a primeira faixa do álbum, Aguilera encaixa a segunda "intro" do disco na décima quinta faixa, quando o trabalho começa a tomar seus contornos finais. Apostando numa letra em que se "desculpa" por não ser o que muitos queriam que ela fosse, Xtina te faz engoli-la do jeito que ela é e fim de papo. "Pra todos os meus sonhadores, eu estou com vocês / Todos os meus oprimidos, eu sinto vocês / Levante sua cabeça e mantenha-se forte, continue indo em frente". Então vambora fazendo porque tem muita coisa boa por vir ainda, amiga!

16) "The Voice Within"

Quase no fim do álbum, encontramos uma das mais belas canções já lançadas por Aguilera. Entoada por um instrumental simplista e cru, "The Voice Within" é a afirmação do que todos já sabiam: a mulher canta, e não é pouco não! Retomando todo o sentimentalismo presente na maioria das faixas, a canção é outra que busca dar a mão àqueles que se encontram numa situação de extrema solidão. "Quando não há mais ninguém, olhe dentro de você mesmo / Como seu mais antigo amigo, apenas confie na voz interior". E assim a cantora se consolida como rainha dos hinos lindos de auto-ajuda.


17) "I'm OK"

O sofrimento parece não ter fim. Quase que aos sussurros, Aguilera inicia "I'm OK" contando o drama pessoal enfrentado na infância marcada pela violência doméstica praticada pelo pai. A balada é levada por uma entonação de voz cheia de mágoas, emoção e muita dor capaz de sensibilizar qualquer coração de pedra. Além disso, os poucos apoios instrumentais (salvo as intervenções do violino) ditam toda a comoção envolvida nos quase seis minutos de faixa.

18) "Keep On Singin' My Song"

Depois dessa sessão do descarrego choroso, chegamos ao cessar fogo em "Keep On Singin' My Song". Fechando o trabalho com maestria absoluta, Christina acena uma trégua no sofrimento, escancarando aos quatro cantos o dom libertador que a música tem: "Eu acredito que eles podem tirar quaquer coisa de mim / Mas não conseguem levar a minha paz interior / Eles podem dizer o que quiserem de mim, mas eu vou / Eu vou levando e vou continuar cantando minha música". Aplausos, cortina, fim: o espetáculo acaba por aqui.

CONCLUSÃO

Nua e crua, Christina Aguilera tentou com o "Stripped", provar pra si, pra sua gravadora, pro seus fãs e pro mundo que não estava fadada a ser qualquer cantora. Acho que não precisamos nem comentar se ela conseguiu, certo?! Aclamado pela crítica especializada, milhões e mais milhões de vendas, singles de sucesso, prêmios e reconhecimento pela qualidade musical, o disco representa uma brusca mudança de rumos na carreira de Xtina que poderia dar muito errado, mas acabou dando mais do que certo. Letras tocantes, vocais perfeitos, estilos diversificados, pra todos os gostos: e assim cada pedacinho do alterego Xtina foi sendo incorporado ao estilo irreverente, descompromissado, sexy e sentimentalista de Christina Aguilera. Um grito feminista tão atual que entra pra história como um dos marcos do pop contemporâneo, mesmo após quase 13 anos de seu lançamento. E nem é difícil explicar o porquê.

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