Album Review: Marina & The Diamonds é uma fruta que amadureceu e está pronta para ser colhida com o 'Froot'

Sempre ficamos chocados quando percebemos o quanto a cultura do "hit/flop" ainda persiste em nos controlar. A tabela do chart é uma régua neolítica que mede o quão boa é uma canção dependendo da sua altura lá, ou seja, quanto mais alto, melhor. Se você não entrar na tabela, pior ainda. Além de não ser bom, você é ninguém. É assim que a ideia coletiva assimila o mercado. Não tem como ser mais desanimador.

É óbvio, mas é assustador como precisamos falar: peak  em parada de sucesso não diz, nunca disse, jamais dirá algo sobre qualidade artística. Então devemos eliminar os charts  das nossas vidas? Não, claro que não. Música é mercado, então, querendo ou não, dinheiro tem poder decisivo sobre vários aspectos e quem não gosta de ver algo realmente bom fazendo sucesso? A questão é que devemos nos desprender de quantidade de cópias vendidas para conhecermos inúmeros artistas tão bons - e até melhores - que os debaixo dos holofotes, afinal, é evidente que a maioria não está coberta por essa luz.

Prova? Temos Marina & The Diamonds. A galesa nunca foi um nome absolutamente desconhecido das paradas, principalmente no Reino Unido, mas ela também nunca foi sinônimo de sucesso e prestígio, o que é um crime. Com dois álbuns lançados, "The Family Jewels" e "Electra Heart", a cantora é uma das melhores coisas que o pop atual tem a nos oferecer. Chegou então a terceira tentativa de se firmar no mercado com o "Froot", mas, acima de tudo, de transmitir sua arte e seus conceitos, que sempre se mostraram absolutos. Aqui está no resenha faixa à faixa do seu novo álbum.

1. "Happy"
Quando vimos a tracklist do álbum e nos deparamos com o nome "Happy", imediatamente pensamos naquela música do Pharrell que ninguém aguenta mais. Depois do "Electra Heart" fazer jorrar a vibe eletrônica de Marina, esperávamos que "Happy" fosse uma faixa animada e pra cima. Doce ilusão. A primeira pista foi a capa do single, onde a cantora estava NADA feliz. "Happy" é uma balada legítima que fala da nossa caça incessante pelo sentimento primordial da vida, a felicidade. "Eu percebi que para ser feliz talvez eu precise um pouco de companhia. Então agora você sabe de tudo, que eu estive desesperadamente sozinha", canta Marina da forma mais sincera possível, num single que grita cuidado e vulnerabilidade. A letra é universal, não há uma pessoa que nunca parou para ponderar sobre sua vida da forma que ela faz tão sensacionalmente e que, feito com tanto poder, deixa de soar piegas para virar maravilhoso.



2. "Froot"
É um verdadeiro choque sair da vibe melancólica de "Happy" para a badalação de "Froot". Criando uma grande metáfora, Marina costura uma letra genial em mais de cinco minutos de canção sem soar gratuita ou "encheção de linguiça". Se transformando numa fruta, a cantora canta sobre esperar seu amado vir até ela antes que as estações passe e ela apodreça. Num elo perfeito da sonoridade dos seus dois primeiros álbuns, um híbrido de synthpop, disco e rock - notem a guitarra marcadíssima no refrão, "Froot" foi a melhor forma possível de Marina abrir os trabalhos do álbum, tanto por condensar a ideia do todo quanto por trazer algo que se encaixa nos charts atuais sem em momento algum deixar de ter sua marca, tornando a canção ainda mais crível. Um dos maiores acertos da carreira dessa fruta gostosa que faz jus a todos os nossos verões guardados para ela. Dá pra se sentir mais saudável depois de "Froot".



3. "I'm A Ruin"
A saúde é boa, mas não dura muito, pois logo depois temos "I'm A Ruin". Nadando contra a corrente de faixas que falam sobre fim de relacionamento, onde sempre quem canta está no papel da "vítima", Marina assume toda a culpa aqui: "Querido, vou te arruinar se me deixar ficar. Você continua sendo tudo para mim, mas eu quero ser livre". É assumir o óbvio: relacionamento é algo muito complicado e não é para todo mundo. Ao sair da posição de perda, Marina compõe uma letra afiadamente verdadeira que não deixa de trazer efeitos vocais pop, como no viciante "Yeah yeah, uh-hum, oh-ho, yeeeeah" que emoldura "I'm A Ruin". A verdade, mesmo que incoveniente, é sempre melhor? Para Marina, sim. "Eu sei que estou brincando com seu coração. Eu poderia tratá-lo melhor, mas não sou tão inteligente assim".



4. "Blue"
Praticamente tirando uma com nossa cara, Marina novamente causa o efeito oposto do esperado em "Blue". Enquanto "Happy" é mega triste (sendo que seu título é "feliz"), "Blue" é super animada (mesmo com seu título "triste"). Risos. Um piano animadinho abre a faixa, contrastando com a letra: "Nós terminamos e agora eu me arrependo. Eu disse adeus quando não devia ter dito. Eu até chorei, mas eu nunca pretendi fazer isso, e eu não sei porquê, mas não posso esquecer". A partir daí, a faixa só cresce. Pop até dizer chega, "Blue" é a antítese perfeita, com Marina dançando para espantar a tristeza, num relacionamento que não a satisfaz, e ela ainda lista tudo que falta: amor, sonhos, auto-estima e tudo que há de bom e puro. Não é essa a fórmula da felicidade?

5. "Forget"
Segure esse rock! A guitarra e bateria são os fios condutores de toda a melodia sensacional de "Forget", uma canção forte e com destaque que fala sobre uma das estratégias de sobrevivência mais complicadas de se executar: esquecer. O dom do esquecimento é primordial para seguirmos em frente, e Marina deixa isso claro em "Eu vivi minha vida em débito e desperdicei meus dias em profundo arrependimento. Sim, eu tenho vivido com raiva porque não posso perdoar e não posso esquecer", a ponte perfeita para o refrão. Conseguir superar o passado que nos prende é tarefa dificílima, mas não há tempo para arrependimentos. Marina ainda encerra "Forget" com um recado:  "Eu cometi erros, mas acredito que tudo valeu a pena porque no final a estrada é longa, mas apenas porque te faz forte. Está cheia de altos, curvas e voltas. Às vezes você tem de aprender a esquecer". Novo mantra.



6. "Gold"
Quase um daqueles hinos havaianos, "Gold" é uma singela faixa bem gostosinha que trata sobre a busca pela liberdade. Entre palmas e sintetizadores cheios de ecos, Marina canta  "Estive esperando o ultimo centavo cair, estive trabalhando para ter de volta o que eu perdi", numa associação do bem material (no caso, o ouro) com sua liberdade preciosa, que é conseguida no final. Não é uma faixa de destaque, mas é agradável e passa uma mensagem tão boa quanto a de "Happy": nosso maior tesouro está dentro de nós mesmos. "O que eu quero não pode ser comprado ou vendido porque fortunas estão correndo para fora das minhas veias".

7. "Can't Pin Me Down"
A Marina toda sarcástica do "The Family Jewels" está cada vez mais rica. Em "Can't Pin Me Down" a galesa vem cheia de deboche com versos irônicos e atirados, como  "Você realmente quer que eu escreva um hino feminista? Estou feliz de cozinhar o jantar na cozinha para o meu marido". Aqui tem versos que casam com a proposta de "Do What U Want" de Lady Gaga, como quando Marina canta "Eu posso ser sua boneca russa, mas você não tem o meu número. Não, você não pode me diminuir". "Can't Pin Me Down" é um grande "faça o que quiser, eu não vou cair" - e aqui temos o único palavrão do álbum, "motherfucker". "Eu nunca vou te dar tudo o que você espera. Você acha que eu sou como outras, garoto, você precisa verificar seus olhos".

8. "Solitaire"
Ainda na vibe "The Family Jewels", "Solitaire" é mais uma balada intimista e pessoal. Marina conta uma história de como ela se isola para manter-se pura das outras pessoas sujas. "E todas as falsificações me chamaram de amaldiçoada, mas eu não estou amaldiçoada, eu só estava coberta de sujeira". "Solitaire" é um "retiro", é quando tiramos um tempo para nós mesmos que, sobrecarregados pelas outras pessoas, acabamos nos perdendo no meio. É um pouco parada demais, mas tem sua beleza, principalmente por vermos Marina referindo-se a si própria como uma jóia. "Eu estou feliz por estar comigo mesma".

9. "Better Than That"
Roleta da indireta está girando. Em "Better Than That" Marina canta para um cara tudo o que sabe sobre a garota que partiu o coração dele: "Ela é a queridinha de todos com uma voz de anjo, diabo disfarçado. Tem uma cara azeda como um fruto envenenado que os caras podem provar até estarem fora de uso. E ela vai fazer favores pelos outros até que seus sonhos se tornam realidade, mesmo que isso signifique ir para a cama com você. Amiga de todo mundo, soa familiar?". Eita. Mais à frente nós descobrimos o motivo de toda a raiva: a tal garota roubou o homem de Marina. "Eu não estou julgando a vida sexual dela, eu estou julgando o modo que ela sempre enfiou a faca nas minhas coisas desde que começamos a sair". Assim que lançada, começou o burburinho de que a faixa se tratava de uma indireta para Ellie Goulding, mas Marina já desmentiu, dizendo que não é uma indireta específica. É aquela coisa, se a carapuça servir...

10. "Weeds"
Guitarra arrastada marca o passo de "Weeds", um desabafo de Marina sobre um problema que sempre volta a atormentá-la: os seus ex-amores. "Poderia ter preenchido um jardim com todas as flores que você me deu, mas nenhuma delas eram nossas. Você sabe que o problema com a história é que continua voltando como uma erva daninha. Eu pensei que o tivesse cortado pela raiz". Digna de ser uma balada das melhores bandas de rock que existem, "Weeds" é uma das melhores canções de todo o "Froot", que, não satisfeita em ser liricamente perfeita, traz um solo de guitarra matador perto do final, uma das coisas mais lindas de todo o material. Aqui, novamente, Marina assume a culpa pela falha quando diz que sente falta dos seus ex. "Weeds" é agridoce.

11. "Savages"
Se já existiu alguma música que trate da selvageria humana no pop moderno de forma mais perfeita que "Savages", por favor, nos avise. Marina aqui canta sem a menor cerimônia como ainda somos animais mesmo com todas as formalidades e padrões que falham miseravelmente em esconder nosso lado selvagem. "Por baixo de tudo nós somos apenas selvagens escondidos atrás de camisas, gravatas e casamentos. Como poderíamos esperar alguma coisa? Somos apenas animais ainda aprendendo a engatinhar". Tá? Gloriosa em todos os aspectos possíveis (o que são esses vocais no refrão?), "Savages" é uma das melhores coisas já feitas na vida da cantora - e olha que ela já criticou a sociedade antes de forma ímpar - e merece ser single, clipe, hit, #1, VMA, Grammy e tudo mais. "A verdade em todos nós, do berço ao túmulo: somos apenas animais ainda aprendendo a se comportar".



12. "Immortal"
"Eu quero ser imortal", começa Marina em "Immortal", com vocais quase translúcidos que formam uma composição espiritual. Para fechar o álbum temos uma música que trata da finitude humana e como queremos ser eternos, seja literalmente ou deixando uma marca significativa no mundo. "Queremos ser lembrados, não queremos viver em vão, mas nada dura para sempre. Esse mundo está num jogo perdido", canta ela numa aceitação óbvia (e trágica) da vida. Mas o nível mítico da faixa consegue atingir o máximo no seu refrão: "Estou sempre correndo atrás do tempo, mas todo mundo morre. Se eu pudesse comprar a eternidade por um preço, compraria duas vezes. Mas se a Terra acabar em chamas e os mares congelarem no tempo haverá somente um sobrevivente: a memória de que eu era sua e você era meu". Existe forma mais linda e delicada de confrontar o ciclo inevitável da vida? "Immortal" é uma seresta sem precedentes que encerra o "Froot" de forma emocionante - é só unir a primeira frase da canção com a última para vermos a grandiosidade dessa obra-prima: "Eu quero ser imortal, então me mantenha viva".



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RESUMINDO: O próprio processo de concepção do "Froot" já é algo louvável: todas as músicas do álbum foram compostas unicamente por Marina e produzidas por ela e David Kosten. Não que álbuns com vários compositores e produtores sejam "menores", mas em tempo de indústria cultural, onde artistas são literalmente fabricados, é um sopro de vida ver que ainda existem pessoas fieis à própria arte, que se mantenham íntimas do seu trabalho, espelho dos seus valores. E, em termos de Marina & The Diamonds, é arte com alto nível de qualidade.

Deixando de lado a vertente electropop, "Froot" é uma reinvenção necessária na musicalidade da galesa - notem como a guitarra é presença gritante nas canções. Mas nem é isso que faz o álbum ser magnífico: são suas letras. A genialidade de Marina habita quando ela consegue decodificar seus mais puros e elementares sentimentos em versos, que aliam a simplicidade humana com a complexidade imposta pela linguagem musical. É só você tentar achar alguém que ouça qualquer faixa do "Froot" e não se identifique com pelo menos uma delas.

Vamos passando música após música e pensando "Nossa, isso é tão eu", ou "Isso me descreve tão bem, como ela consegue?". Marina não canta sobre futilidades, ou realidades glamourosas de divas pop. Ela canta sobre eu, você e todo mundo. Seres de carne, osso, sangue e emoções. Canta sobre os mais diversos tipos de relacionamento e como estes são complexos e cheios de falhas, mas que sem, seríamos vazios. Com o "Froot", Marina & The Diamonds mostra que é um pomar completo. 
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