Album Review: Kelly Clarkson faz de 'Piece By Piece' um quebra-cabeça de sua consistência artística!

Desde que se tornou a Original American Idol™ em 2002, ao vencer a primeira temporada do maior revelador de talentos dos EUA, vindo a se tornar uma estrela mundial na sequência, meio que é habitué julgarem os trabalhos de Kelly Clarkson como "sempre perdidos em sua zona de conforto". O que, de certa forma, não deixa de ser um todo errado, mas também não pode (e nem deve) ser encarado como uma verdade absoluta sobre a moça, que, pelamor da deusa da boa voz, gente, é f*** pra caramba como artista e tem milhões de fãs fiéis, conservados há mais de uma década.



Num mercado pop que muda constantemente a cada novo nome que surge com um som mais diferente, é admirável ver uma artista como Kelly Clarkson (P!nk também é assim) tão fiel ao seu estilo e sua musicalidade, sem precisar "se vender" para o que as rádios querem tocar atualmente. Sua discografia até aqui (estamos caminhando para o sétimo álbum), foi bem simples: hinos pop repletos de força e mega baladas destruidoras. Em seu mais recente trabalho, isso se mantém, porém com doses certeiras de experimentação em busca de algo mais, que se mostra uma fórmula certeira.

"Piece By Piece" mantém toda a força vocal e versatilidade de Kelly Clarkson, através de letras onde sua franqueza e coração se sobressaem sobre qualquer um dos instrumentos empregados, apenas demonstrando aquilo que todos nós sabemos: ela é uma das mais talentosas cantoras de sua geração há mais de uma década. Somando a isso algumas texturas de experimentação de EDM, com influências gospel, country, pop, urban, rock e R&B, ela recria a magia de seus potenciais novos hits, dizendo a todos que ela nunca esteve tão bem quanto agora, do alto de toda sua maturidade, nos dando, inclusive, algumas de suas melhores gravações da carreira. Querem saber mais? Acompanhem a review faixa a faixa abaixo:

1) "Heartbeat Song"
Abrindo o álbum, temos um sentimento de déjà vu, mas que nos deixa com a energia renovada. "Heartbeat Song" é um ótimo hino pop, como Kelly Clarkson sempre nos entregou na abertura de seus trabalhos. E, sim, acho que ela preferiu permanecer no "lugar comum" aqui (mas só aqui), até mesmo para se sentir mais segura e pra mostrar que ela ainda está viva num mercado cada vez mais disputado, mas conservando a essência pop que sempre teve e que a levou a ser tão grande em toda sua carreira, com letras e ganchos cativantes e radiofônicos. Ou vai me dizer que nunca se pegou cantando "This is my heartbeat song and I'm gonna play it. Been so long I forgot how to turn it up up up up all night long. Oh up up all night long " no refrão? 

2) "Invincible"
Enquanto o lead single nos dá a sensação de "já vimos isso antes, Kelly", "Invincible" vem para quebrar um pouco esse estigma. Ok, Kelly ao longo de toda sua carreira nos deu vários hinos de aceitação, concentrados na dor e autoajuda, porém, aqui, há algo de diferente. Primeiro, estamos falando de uma composição destruidora de Sia Furler e produzida de forma simples, mas impecável e precisa por seu parceiro de longa data, Greg Kurstin, com direito à lúcida performance vocal de Clarkson, que emite sua voz de forma clara, crua, sem delírios e vícios vocais, até nos deixar sem fôlego ao chegarmos no seu ápice, assumindo que: "Agora, sou invencível. Não, não sou mais uma garotinha medrosa. É, sou invencível. Do que eu estava fugindo, eu estava me escondendo do mundo. Eu estava com tanto medo, me sentia tão insegura. Agora, sou invencível. Mais uma tempestade perfeita". Não à toa, será o segundo single oficial do álbum.

3) "Someone"
Não é uma faixa que tenho um grande apreço, mas entendo sua importância dentro do material, justamente por continuar na temática dolorosa apresentada na anterior, ao compartilhar uma separação em que, mesmo sendo forte, deixa suas marcas: "Mas eu espero que você possa encontrar... Alguém por quem chorar. Alguém por quem tentar. [...] Alguém por quem morrer. Alguém cujo braços vão te abraçar forte o suficiente para ser a razão pela qual você respira. Seja o motivo pelo qual você respira".

4) "Take You High"
Mostrando toda sua versatilidade, temos em "Take You High" um dos registros mais inusitados de toda a carreira de Kelly Clarkson. Que, entrelaçada ao inebriante mix de pop com EDM sintetizada, nos dá uma faixa repleta de clareza e maturidade amorosa, soando como um dos hinos mais ousados de toda sua carreira: "Deixe-me escancarar seu coração. Quando seus anjos caírem do céu, eu serei as asas que lhe faram voar. Quando você sofrer uma queda, eu vou levá-lo às alturas. Vou levá-lo às alturas. Eu te levarei. Eu te levarei".

5) "Piece By Piece"
Porém, em meio à faixas ótimas até aqui, chegamos a um dos maiores destaques do álbum. A faixa título, logo na primeira vez que ouvi, me chamou muito a atenção, se tornando minha preferida de cara. Flertando com o R&B, de forma crua e conectada emocionalmente com cada palavra, Kelly nos convoca para um marcha sensível e intensa, repleta de tambores, ao nos entregar uma das letras mais pessoais de sua carreira, soando como um desabafo emocionante, sobre os papéis dos homens em sua vida. Desde os problemas com seu pai, que a abandonou aos seis anos de idade, até encontrar o verdadeiro amor que sempre esperou de uma figura masculina, ao lado de seu marido e as consequência que esse aprendizado trará para sua filha. Necessita ser single urgentemente e com um grande videoclipe que nos leve às lágrimas, como ela conseguiu há 10 anos em "Because of You". Arrisco dizer que é nessa faixa a maior chance de um grande hit do álbum.

6) "Run Run Run" (feat. John Legend)
Eis que na sequência temos a canção da discórdia com os fãs de Tokio Hotel, mas que, no fim, deu tudo certo, como já sabem. Belíssima versão de uma típica baladinha ao piano, mas que se impõe através da participação de, um sempre bem-vindo, John Legend. Ainda mais quando ambos elevam à performance incorporando guitarras. Lindo dueto e mais um destaque.

7) "I Had a Dream"

Outra faixa que me marcou muito quando ouvi pela primeira vez, encontra-se aqui. "I Had a Dream" tem todo um estilo que eu AMARIA ouvi-la na voz da Jessie J em seu álbum de estreia, por exemplo. Acho a cara dela. Mas isso não quer dizer que não curta a versão de Kelly Clarkson. Pelo contrário. É mais uma das faixas excelentes do álbum, cheia de brilho e sinceridade, além de nos proporcionar uma atmosfera mais tranquila (apesar dos conselhos sérios), depois da densidade vista anteriormente.

8) "Let Your Tears Fall"
Mais uma composição de Sia e, de novo, Greg Kurstin consegue tirar muito bem aquilo que Kelly Clarkson tem de melhor para entregar. Testando um tom mais rápido de sua voz, a cantora soa agressivamente interessante nesse hino de encorajamento, nos deixando flutuar em meio à deliciosa produção, sobre não ter medo de chorar quando se tem alguém em quem confiar: "Diga-me todos os seus segredos compartilhando sua dor. Confesse tudo isso em mim, não me importa saber seu nome. Não, não vou julgá-lo e eu vou ajudá-lo. Deixe cair suas lágrimas".

9) "Tightrope"
Não gosto dessa faixa e acho a mais fraca do álbum. Sem graça, esquecível e uma morte horrível. Trocaria fácil por qualquer uma da versão deluxe.

10) "War Paint"
Voltando à programação normal, "War Paint" devolve a alegria iluminada do dia, ao propor uma trégua, em meio a um momento de crise na relação, de forma bem acertada através de uma metáfora incrível com o militarismo: "Por que diabos vamos lutar na linha de frente, quando ambos sabemos que estamos aqui do mesmo lado? Nós poderíamos ser belos sem o erro da nossa pintura de guerra". A faixa ainda é cercada de pop meets EDM, soando graciosamente eficaz, ainda que não se sobressaia no todo.

11) "Dance With Me"
O bom e velho pop rock de Kelly Clarkson resolve dar as caras quase no final do álbum, e vem em grande estilo. "Dance With Me" é enérgica da medida certa. Nos dando mais uma faixa maravilhosa e com potencial pra single (ao menos no mercado britânico).

12) "Nostalgic"
Outra grande faixa é "Nostalgic", que, inclusive, é uma das preferidas dos fãs. E, mais uma vez, resgata o lado pop rocker de Clarkson em mais uma produção maravilhosa, que também cairia como uma luva se fosse single (embora ache difícil, já que é arriscada e tem produções com maior apelo no material), sobre uma relação que agora não passa de lembrança: "Quando eu estou dormindo, eu ainda beijo seu rosto. Eu não posso tê-lo, quando estou acordada. E eu sei que perdi, eu ainda fico nostálgica. Mesmo que quiséssemos, não podemos voltar e agarrar nas mãos do tempo".

13) "Good Goes the Bye"
Confirmado como novo single no UK, "Good Goes the Bye" encerra a versão padrão do álbum, em meio ao pop alternativo. É mais uma faixa maravilhosa e sincera, sobre como podemos ver o lado bom das coisas, até mesmo no término de uma relação: "Eu não posso voltar atrás, não podemos ser amigos. E nós não podemos ser o que fomos, então. Você não pode ser meu, e eu não posso ser sua. E isso não é mais amor".

14) "Bad Reputation"
Chegando na versão deluxe, nos deparamos com essa maravilha chamada "Bad Reputation" como cartão de visitas. Colaboração de Bonnie McKee e produzida por Greg Kurstin, é como se fosse um hino perdido na discografia emulada das Destiny's Child, em meio às influências country e pop rock. Poderia facilmente ter entrado no lugar de "Tightrope", assim como qualquer uma das seguintes.

15) "In the Blue"

A segunda música da versão deluxe tem todo meu amor desde que tive contato pela primeira vez. "In the Blue" é delicada em sua letra, ao abordar de forma sutil a dor que é perder alguém que amamos e o quanto complicado isso se torna, conforme os dias passam: "Eu vejo seu rosto em cada estranho. Passos no corredor. A respiração quente, atrás do meu pescoço. [...] Não importa onde você esteja, um pequeno pedaço do meu coração estará para sempre com você. Na tristeza, na tristeza". Sem contar os vocais belíssimos e controlados de Clarkson, passando toda a emoção que a faixa pede <3

16) "Second Wind"

Finalizando o excelente novo álbum de Kelly Clarkson, temos mais uma das minhas favoritas, a mix urban-opera, "Second Wind". Que traz uma Kelly cativante, em meio a versos rápidos (assim como em "Let Your Tears Fall"), mandando um recado a todas essas pessoas que, sabe-se lá porquê, implicam tanto com ela. Seja por seu peso, rumos de carreira, ter saído de um reality show ou, pelo simples fato, de não aceitarem o óbvio: ela é incrível sendo ela mesma e que dane-se o resto: "Você não pode se esquecer de mim. Enquanto você não estava olhando eu fui ficando maior. Diga o que quiser sobre mim. Suas palavras são a gasolina no meu fogo".

CONCLUSÃO
Não cabe a nós dizermos que "Piece By Piece" é o melhor álbum de Kelly Clarkson, porque isso é algo muito pessoal. O que importa mesmo, é que o novo álbum dela é extremamente sólido em sua proposta pop e todos nós ganhamos muito com esse retorno triunfal e cada vez mais maduro. Ela sabe o que quer e o que gosta de fazer em sua carreira, e tudo isso está canalizado aqui, como se fosse um grande quebra-cabeça a ser montado de sua consistência artística ao longo de mais de uma década, em forma de maravilhosas canções - algumas, as melhores de toda sua carreira -, que mostram toda sua versatilidade e potencial vocal (cada vez melhores), transitando entre pop, rock, EDM, R&B, country, gospel ou soul, deixando sempre uma surpresa maravilhosa, mesmo quando erra (caso de "Tightrope"). E como bem diz a brilhante letra de "Second Wind", ela não tem nada o que provar a ninguém, além dela mesma, porque... "Você pode me odiar, me subestimar. Faça o que você quiser, pois o que faz não me impede. Justamente quando você pensa que eu estou no fim, a qualquer segundo vou recuperar o fôlego". E ela recuperou não só o fôlego, como reacendeu toda nossa admiração por seu talento único em outro álbum incrível. Bem-vinda de volta, sua linda! <3

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