Oscar Review: 'Sniper Americano' é um filme tão perigoso quanto seu protagonista (e isso não é um elogio)

Filme: “Sniper Americano” (American Sniper)
Direção: Clint Eastwood
País: Estados Unidos
Indicações ao Oscar:
- Melhor Filme
- Melhor Ator (Bradley Cooper)
- Melhor Roteiro Adaptado
- Melhor Montagem
- Melhor Edição de Som
- Melhor Mixagem de Som

Desde que “Guerra Ao Terror” (The Hurt Locker) levou o Oscar de “Melhor Filme” em 2009, feito até hoje sem explicação plausível (alguém se lembra desse filme?), parece que surgiu uma cota para filmes de guerra no estilo na premiação, seguido, quatro anos depois, por “A Hora Mais Escura” (Zero Dark Thirty). O que esses filmes tem em comum? Além de serem dirigidos pela mesma pessoa, Kathryn Bigelow (ganhadora de outro inexplicável Oscar pelo primeiro), os dois tratam da supremacia dos Estados Unidos nas guerras contemporâneas, sempre com enfoque no Oriente Médio. O filme da vez é “Sniper Americano”, que segue a mesma cartilha sem tirar nem por.

Abrirei esse parágrafo para sair da impessoalidade do texto e comentar algo bem particular. Eu não gosto de filmes de guerra. Acho-os chatos, desinteressantes e monótonos. Os três filmes citados anteriormente só entraram pra minha watchlist porque concorreram ao Oscar, senão permaneceriam intocáveis por mim, o que transforma a simples tarefa de julgá-los num trabalho laborioso. Espero não decepcionar.

“Sniper Americano” é dirigido pelo badaladíssimo Clint Eastwood, diretor duas vezes vencedor do Oscar (por “Os Imperdoáveis” e “Menina de Ouro”). Queridinho da Academia, o coroa de 84 anos larga seus famosos faroestes pelo chumbo-grosso militar, mas diferenciando-se de Bigelow num ponto interessante: ele traz um estudo de personagem do protagonista Chris Kyle (interpretado por Bradley Cooper), tudo baseado na história real do atirador.


Logo nos primeiros minutos de filme somos enviados à infância e juventude de Kyle e notamos que desde sempre ele é naturalizado em questão da violência. Seu pai o levava para caçar e, mecanicamente, o ensinava a ovacionar a arma, além de criar ele e o irmão sob a curta rédea do machismo. São nuances que sustentarão as motivações futuras do protagonista.

Eastwood quis, assim como todos os filmes de guerra, trazer uma mensagem anti-guerra, vindo com a ideia de mostrar os danos que a violência orquestra, com foco para aqueles que retornam da guerra, principalmente em Kyle, porém, “Sniper Americano” bate de cara no primeiro muro: deita-se num patriotismo exacerbado. É só olhar para título, que poderia facilmente ser “O Sniper” ou “O Atirador”, mas não, ele não é só um atirador, ele é americano. Obviamente, a bandeira azul, branca e vermelha inunda quase que o filme em sua totalidade.

Kyle, o sniper real, matou mais de 150 pessoas em suas operações. 150. Incontáveis vezes durante a projeção ele é chamado de “lenda”, "mito", “herói” (pelos compadres americanos, claro). A repetição é tanta que praticamente se torna um processo de ufanismo – quanto mais você repetir algo, mais “verdade” aquilo se torna, mais concreto. Aqui vemos uma alarmante inversão do papel do herói: agora ele não luta em prol de vidas, ele as tira.

Há o argumento de defesa que o filme não idolatra o sujeito por matar muitos, ele retrata a idolatria, uma guerra como ela é. Mesmo tendo fundo de verdade, isso não se encaixa perfeitamente no filme porque ele não demonstra sinal algum de “julgamento”. Os árabes são repetidamente chamados de “malditos selvagens”, então poderíamos dizer que não são “todos” os árabes, só os “terroristas”? Não, pois não há nenhum símbolo, signo ou estratégia narrativa que demonstre essa separação. Ao apenas mostrar sem “tomar partido”, o filme generaliza e dá vez e voz a uma ideologia, reforçando-a.

Explicando melhor: ao fazer uma abordagem escancarada da fobia contra o islamismo, o filme fomenta um óbvio negativo, ao invés do óbvio positivo, que é a real intenção dele, no caso, a de mostrar que na guerra não há vencedores, todos são vítimas. Esse viés existe sim, porém é soterrado pelas enormes cenas de combates, o que diminui pesadamente sua boa vontade e dá (muita) corda para tais deficiências.

Os chavões inquietantes também se mostram em determinadas escolhas de montagem, como por exemplo: logo no início há uma cena mostrando os atentados de 11 de setembro, e imediatamente em seguida há um corte para Kyle na guerra, criando um link de "culpa". Ele assiste aterrorizado ao atentado e logo em seguida é mostrado em combate, como se estivesse se "vingando".

Uma das maiores armadilhas do filme é a competência de Eastwood, que conduz tudo com firmeza, derrapando em poucos momentos. Bradley Cooper, em sua terceira indicação ao Oscar seguida (e a primeira merecida), está muito bem como o protagonista, e possui bela química com a linda Sienna Miller, fazendo com que o todo se torne bem feito, com tais problemas já citados assimilados de forma mais “agradável”, principalmente para o público-alvo: americanos, afinal, é um filme americano sobre a supremacia americana numa premiação americana.


Esse paradoxo acontece também em outro filme famoso: “O Nascimento de Uma Nação” (The Birth of a Nation). D.W. Griffith, um dos revolucionários da linguagem cinematográfica, lançou em 1915 esse filminho de três horas entupido de mensagem racista. Por um lado, há o avanço técnico primoroso e uma narrativa pioneira, mas por outro o teor absurdo. É nessa hora de pegar sua balança interior e ponderar os prós e contras, a mesma situação – mesmo que em menor peso – com “Sniper Americano”, uma faca de dois gumes onde você vai se cortar de qualquer forma.

“Sniper Americano” não é um filme de fato preconceituoso (ao contrário de “O Nascimento de Uma Nação”), mas acaba por fomentar ideais que, em mãos erradas, tornam-se uma verdadeira arma de disseminação de ódio, já que cada um pode escolher o lado do prisma que lhe convém, e tudo isso em tempos de Charlie Hebdo, o que cai com peso maior ainda. Fechar os olhos para isso é incômodo e preocupante. E é triste notar que um filme desses é ovacionado na maior premiação do mundo com seis indicações, enquanto "Selma", que mostra a luta de Martin Luther King contra o racismo, recebeu míseras duas indicações. Isso não fala muito sobre ideologias. Grita. Berra.

Próxima Oscar Review: "Birdman Ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)" (Birdman or The Unexpected Virtue of Ignorance), quarta, 18 de fevereiro. Para ler todas as resenhas publicadas é só clicar na tag "ESPECIAL OSCAR" abaixo.
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