Oscar Review: porquê 'Whiplash: Em Busca da Perfeição' merecia levar o Oscar de 'Melhor Filme'

Filme: “Whiplash: Em Busca da Perfeição” (Whiplash)
Direção: Damien Chazelle
País: Estados Unidos
Indicações ao Oscar:
- Melhor Filme
- Melhor Ator Coadjuvante (J.K. Simmons)
- Melhor Roteiro Adaptado
- Melhor Mixagem de Som
- Melhor Montagem

Andrew Neiman é um baterista de 19 anos que, ao contrário dos instrumentistas da sua idade que amam rock, é apaixonado por jazz (fã assumido do "Cheek To Cheek"). Ele é aceito no Conservatório Shaffer, a melhor universidade de música dos Estados Unidos, tudo o que ele sempre quis para atingir o sonho de ser um dos maiores bateristas da história como seus ídolos. Porém, ele terá um grande obstáculo pela frente: Terence Fletcher, o maior (e mais temido) maestro da universidade.

Essa premissa é sim básica e o filme gira em torno disso. O que nas mãos de alguns poderia ser mais um filme sobre mestre-aprendiz vira um dos melhores filmes do ano nas mãos de Damien Chazelle, o diretor e roteirista de “Whiplash: Em Busca da Perfeição”.

Miles Teller é Andrew. Ator não tão conhecido, ele estrelou o maluquíssimo “Projeto X: Uma Festa Fora de Controle” (Project X) e está na saga “Divergente” (Divergent), enquanto Terence Fletcher é vivido por J.K. Simmons, famoso pelo divertidíssimo J. Jonah Jameson da saga (original) “Homem-Aranha” (Spider-Man). Eles são a chave do filme: Teller pela primeira vez assume um papel protagonista dramático e com profundidade, dando conta sem o menor problema, tanto que poderia ter rendido uma indicação ao Oscar.


Simmons sempre se mostrou grande, mas está monstruoso aqui. Seu Terence Fletcher é assustador, conseguindo manipular o público facilmente: hora o amamos, segundos depois o odiamos e queremos pular em seu pescoço. Seja em momentos em que ganha a cena no grito ou em situações onde basta uma olhar para aniquilar a sequência, Simmons, até presente momento, já ganhou 32, repetimos, TRINTA E DOIS prêmios pela atuação, incluindo o Globo de Ouro de “Melhor Ator Coadjuvante”. Esperamos que o discurso para o Oscar já esteja pronto, porque essa é dele.

Claro, atuações tão incríveis não demandam apenas dos atores. O roteiro de “Whiplash” consegue fomentar ainda mais essas atuações, jogando reviravoltas incansáveis na nossa cara e destruindo a paz de uma cena com um piscar de olhos. A montagem alucinante, rápida, ágil e insana completa o andar sensacional da carruagem – o filme em momento algum fica chato ou parado. Você pode não gostar de jazz, mas a música é apenas a moldura desse grande quadro, pintado com lágrimas, suor e sangue.


Quanto mais Fletcher exige de Andrew, mas o garoto se mata na busca pela perfeição. E é aqui que está um dos principais trunfos do filme. Degradar seu próprio corpo para atingir essa tal perfeição é o que faz um grande artista? Quando Andrew manuseia aquelas baquetas tudo que vemos é dor, angústia, sofrimento, e quando o combustível para a arte são esses elementos, você está fazendo errado. O que Andrew ama não é exatamente a música, e sim a obsessão que a perfeição traz, não muito diferente da Nina de Natalie Portman em “Cisne Negro” (Black Swan).

Também há um arco interessante que gira em torno de Andrew: Fletcher é fio condutor dos êxitos e fracassos da vida pessoal do garoto. Notem, quando o maestro aceita um tempo com Andrew, este sai do conservatório e chama Nicole (Melissa Benoist, de “Glee”) para um encontro – o fato de ter conseguido a aprovação do tirano é injeção de coragem para ele falar com a garota. E é a neurose de Fletcher que fará com que o relacionamento acabe mais à frente. Indiretamente, é como se Fletcher manipulasse a vida “externa” de Andrew através de suas cobranças, que abatem o baterista de forma incisiva.

Mas o filme possui algumas pequenas irregularidades. Há uso de zooms escancarados para focar nas expressões dos atores, como por exemplo no momento em que Fletcher entra na sala de música pela primeira vez e a câmera vai como uma louca no rosto de Andrew, demonstrando surpresa, susto. Esse recurso foi largamente usado no passado como artimanha para extrair emoção, porém ficou ultrapassada e, mesmo que soe “clássica” e funcione aqui em “Whiplash”, é algo batido para olhos mais atentos. Também há momentos base que soam forçados, como quando Andrew perde a pasta com as partituras sendo que a construção da cena já entrega bem antes que isso aconteceria. Em outro filme esses pontos soariam mais gritantes, porém “Whiplash” possui qualidades o suficiente para que detalhes como esses se tornem pequenos.

“Whiplash: Em Busca da Perfeição” deve terminar a noite de 22 de fevereiro com o Oscar de “Melhor Ator Coadjuvante”, mesmo merecendo muito mais, como o de “Melhor Montagem” (a sequência final é uma das melhores cenas da década) e até “Melhor Filme”. Ignorando as grandes festas das premiações, “Whiplash” é um filme que faz do espectador uma daquelas baterias. Somos nós que mais apanhamos com sua grandiosidade.


Próxima Oscar Review: "O Grande Hotel Budapeste" (The Grand Budapest Hotel), segunda, 09 de fevereiro. Para ler todas as reviews publicadas é só clicar na tag "ESPECIAL OSCAR" abaixo.
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