Oscar Review: 'O Jogo da Imitação' concorre em oito categorias, mas merece levar nenhuma pra casa

Filme: “O Jogo da Imitação” (The Imitation Game)
Direção: Morten Tyldum
País: Reino Unido/Estados Unidos
Indicações ao Oscar:
- Melhor Filme
- Melhor Direção
- Melhor Ator (Benedict Cumberbatch)
- Melhor Atriz Coadjuvante (Keira Knightley)
- Melhor Roteiro Adaptado
- Melhor Montagem
- Melhor Trilha Sonora
- Melhor Design de Produção

O segundo filme a liderar as indicações ao Oscar 2015 é “O Jogo da Imitação” (oito ao todo), mais uma cinebiografia entre os indicados, dessa vez para o matemático e pioneiro na ciência da computação Alan Turing. Durante a Segunda Guerra Mundial os nazistas possuíam o “Enigma”, uma máquina que criptografava todas as suas mensagens e tornava impossível de serem traduzidas, já que a cada 24h o código era mudado em – literalmente – milhões de milhões de milhões de possibilidades. Turing e sua equipe foram os responsáveis por desvendar o gigantesco quebra-cabeça, revolucionando a guerra e o mundo.

Uma história tão rica assim só poderia render um filmaço, certo? Infelizmente aqui não é bem assim. A parte técnica de “O Jogo da Imitação” é quase imaculada: bela fotografia e os ótimos figurinos conseguem recriar facilmente a época de forma charmosa e colorida, mas aqui temos já um problema. A trilha sonora poderia ser mais suave, chegando a atrapalhar algumas cenas. Não é um erro como um todo, mas os escorregões poderiam ser evitados, principalmente por ser uma trilha assinada por Alexandre Desplat, compositor mega conceituado e oito vezes indicado ao Oscar, duas delas só esse ano, por “O Jogo da Imitação” e “O Grande Hotel Budapeste” (The Grand Budapest Hotel).


Depois temos o mais grave problema do filme: roteiro e direção abusivamente didáticos. Chamados de “didática” aquela condução feita no “bê-á-bá”. Um exemplo de didatismo na direção: em uma cena do filme temos Keira Knightley chegando para fazer um teste. O guarda na porta diz que ela não deveria estar ali, pois todos os concorrentes eram homens. Benedict Cumberbatch vai até eles e fala “Atrasos são intoleráveis” e a câmera corta por um segundo no rosto do guarda sorrindo de satisfação. Ou menos de um segundo, só para mostrar de forma mastigada o machismo, como se o diretor gritasse “Olhem, machismo! Olhem! Torçam por ela!”. Essa construção preguiçosa e gritante enfraquece a obra, além de ser uma baita vergonha.

O roteiro, talvez para não ousar e sair da zona de conforto, traz uma estrutura batidíssima com o combo protagonista excêntrico + várias frases de efeito + alívio cômico para arrancar risinhos e tornar a sessão mais “prazerosa”, num verdadeiro jogo da imitação de inúmeros filmes pobres com a mesma estrutura. Tudo isso soa forçado, e mesmo que uma sequência ou outra funcione, cai na artificialidade, como a frase mor do filme que convenientemente se encaixa no roteiro várias vezes: “Aqueles de quem menos esperamos fazem as coisas que nunca imaginamos”.


Keira Knightley é uma atriz competente e demonstra esforço nenhum na sua caracterização de Joan Clarke (isso não é um elogio), garantindo sua segunda (e questionável) indicação ao Oscar, de “Melhor Atriz Coadjuvante”. Benedict Cumberbatch é queridinho do público, pesadamente pela atuação do personagem título da série “Sherlock”, então tudo que ele faz todo mundo ama só e somente só porque é ele que está fazendo (algo parecido acontece – em escala muito maior – com Meryl Streep, que esse ano concorre pela 19ª vez no papel da Bruxa em “Caminhos da Floresta”). Não que seu Alan Turing esteja ruim, mas é que Cumberbatch é passado para trás quando olhamos para os outros concorrentes ao prêmio, com o ator transformando-se num Sheldon Cooper dramático. Sua indicação poderia tranquilamente ter dado lugar a outros atores em interpretações bem melhores, como Miles Teller de "Whiplash", Ralph Fiennes de "O Grande Hotel Budapeste" e Jake Gyllenhaal de "O Abutre".

Mesmo com todos os maneirismos desnecessários que diminuem fortemente o todo, “O Jogo da Imitação” é um filme com momentos agradáveis e relevantes, principalmente por levantar a bandeira em prol da luta LGBT e por conter cenas emocionantes - o que faz o seu gosto amargo soar mais doce. Além disso, traz uma evocação patriota discreta, ao contrário da escancarada que vemos em "Sniper Americano" (American Sniper) ou em tantos outros filmes estadunidenses. Só poderia (e deveria) ser melhor, mais coeso, menos óbvio, menos amador e menos medíocre, conseguindo cegar o público (e os votantes da Academia) habilmente, que só percebem a premissa sensacional ao invés da execução risível. Provavelmente terminará a noite da premiação sendo o "Trapaça" de 2015: concorrendo a um absurdo rio de Oscar e indo para casa - merecidamente - com nenhum.

Próxima Oscar Review: "Boyhood: Da Infância à Juventude" (Boyhood), sexta, 13 de fevereiro. Para ler todas as resenhas publicadas é só clicar na tag "ESPECIAL OSCAR" abaixo.
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