Je suis Madonna

O consumo de música continua cada vez mais urgente devido à crescente participação da internet na indústria e, pra lidar com essa nova geração, tanto as artistas quanto gravadoras precisam se adequar o quanto antes ao novo modo de entreter o público desse tipo de arte.

O mais grave, porém, deixou de ser a forma de prender os fãs no momento de uma estreia, até porque a americana Beyoncé comprovou que ainda existem meios de fazer com que todos parem e observem o que você tem a dizer, independente da qualidade do material apresentado, e sim os planos B, C, D, E e, se possível, que chegue até o Z, que as gravadoras e seus artistas devem pensar para garantir estarem prontos para mil e um imprevistos, indo daquele single que não agradou a maioria aos corriqueiros vazamentos. Alias, dá-lhe vazamentos, hein?

Madonna, que passou os últimos dois anos em estúdio, trabalhou com uma centena de produtores, na tentativa de reformular seu repertório para as rádios atuais, incluindo o cara do momento, Diplo, e revelações como o Blood Diamonds, mas antes do esperado teve mais de setenta (!) músicas lançadas na internet em versões não finalizadas. Se numa quantidade menor e se falando de outra artista, acreditaríamos fielmente se tratar de uma estratégia de marketing, afinal, todos sabem o quanto isso é frequente, mas ninguém realmente espera algo assim de Madonna, principalmente da forma como tudo aconteceu.

Quando usado para o marketing, o vazamento tem a simples missão de receber um “feedback” antecipado do público. A artista solta a música numa qualidade levemente inferior ao produto que chegará mais tarde ao iTunes e então acompanha a reação dos seus fãs pelas redes sociais. Odiaram? Bora para o estúdio rever algumas coisas. Todos acharam sensacional? Dá uma choradinha falando do vazamento, culpe algum hacker e “antecipe” o lançamento numa tentativa de não perder o buzz.

Mas por que não acreditar que Madonna vazou seu “Rebel Heart”? Porque seria burrice. Salvo o fato de que ninguém que não fosse fã estava realmente ansioso para um disco que teve como antecessor o “MDNA”, os movimentos de Madonna diante ao vazamento de suas quase cem músicas inéditas aparentam certo despreparo para algo assim, para esse novo meio de consumir música, essa urgência em saber qual foi o último suspiro do meu ídolo e qual o torrent mais próximo para baixá-lo. Mais despreparo ainda foi ver esse número enorme de músicas chegarem ao público tão antecipadamente, o que denuncia uma possível sabotagem dentro da própria gravadora. Alguém que estava próximo da produção e sabia o impacto que seria colocar essas músicas na internet. Só que tudo não passam de teorias conspiratórias.

Por sorte, Madonna se saiu muito bem. Depois de lamentar o ocorrido, o “estupro” de sua arte, a mulher e sua equipe anteciparam seis músicas do novo CD, numa maneira de “testar” a reação pública diante das versões finalizadas do que já havia vazado e, claro, aproveitar as vendas dos que não se contentaram com os áudios na qualidade levemente inferior. Não contente, ela ainda virou o jogo contra a internet, lançando o clipe do seu primeiro single com o disco, “Living For Love”, pelo aplicativo Snapchat, e mais tarde anunciando também a parceria com outro, o app direcionado ao público gay, Grindr.


Infelizmente, nem todas são Madonna. A islandesa Björk deixou seus fãs boquiabertos ao, repentinamente, anunciar a chegada de seu novo disco, “Vulnicura”, que sucede o projeto audiovisual “Biophilia”, e há, adivinha o que caiu na internet meses antes do seu lançamento e, o pior, na íntegra? Quando vazou, o “Vulnicura” de Björk sequer teve sua capa revelada e isso não poderia afetar mais uma artista como a islandesa, que tanto preza pelos detalhes em suas obras, mas entre choramingar sobre ou apenas seguir com os planos anteriores, ela ficou com a segunda opção. 

A saída encontrada por Björk evidencia uma clara diferença entre a musa alternativa e Madonna — uma das muitas diferenças, obviamente. Sendo essa o fato dela não se importar com as vendas. O vazamento do CD “Vulnicura”, com certeza, afetará no seu desempenho comercial, mas a cantora não moveu um dedo para mudar isso, apenas ignorando que todos já sabiam seus próximos passos e, quase um mês depois, anunciando então o seu primeiro single. Isso pode ser bom e ruim. Bom, porque ela não precisa mudar às pressas qualquer coisa que tenha planejado minuciosamente para essa nova fase; ruim, porque quando começar a trabalhar o material, boa parte do público poderá estar saturada dele, que já ganhou a crítica internacional, mesmo sem seu lançamento oficial.


Além delas, outra cantora que há pouco lidou com o mesmo acontecimento foi Marina and The Diamonds. Dona de um dos melhores discos pop dos últimos anos, “Electra Heart”, a galesa montou uma grade de lançamentos excepcional para seu novo álbum, “Froot”, aonde lançará mensalmente novos singles, representados por uma fruta que condiga com sua mensagem, e quando faltavam apenas duas canções para encerrar a contagem regressiva, o material surgiu na íntegra pela rede mundial de computadores. Inicialmente, o público acreditava se tratar de um vazamento no Brasil, já que a gravadora da cantora por aqui, Warner, disponibilizou o álbum completo para cinco blogs nacionais darem sua opinião, mas “Froot” vazou em arquivos extraídos do iTunes, o que logo descarta essa possibilidade. 

Pelo Twitter, Marina se mostrou ciente não só do vazamento, mas também da excitação dos seus fãs, pedindo encarecidamente para que, “caso gostem de verdade, comprem o álbum em sua pré-venda”. A gente lamenta por ela não ser a Madonna, que pôde rapidamente virar esse jogo ao seu favor, e também por não ser a Björk que, ao contrário da maioria das artistas da atualidade, realmente não depende de vendas para se manter relevante na indústria. Mas não podemos fazer muito além de mostrar nosso apoio e, na melhor das hipóteses, adquirir a nossa cópia do disco quanto sair oficialmente ou passar a escutá-lo no Spotify, assim que a gravadora se atentar ao fato de que ele já deveria estar lá há um bom tempo.


Neste instante, a principal saída deve partir das próprias gravadoras, que precisam estar cada vez mais preparadas aos imprevistos e, por favor, com diversos planos alternativos pra que, na primeira oportunidade, saibam como reagir às coisas do tipo sem que atrapalhem o seu contratado. Em tempos de Deezer e Spotify, uma opção pra lá de vantajosa, tanto para o artista quanto para o público, seria a antecipação dos streamings, no bom e velho “listen before you buy”. O que, além de reduzir significativamente o número de downloads ilegais, viabiliza um consumo que não atrapalhe a sequência dos trabalhos do artista e passa a monetizar as execuções antes mesmo que o álbum chegue às lojas digitais. Se há um futuro, nós queremos agora.
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