Video Review: como Viktoria Modesta sacudiu o cenário pop com seu clipe incrível de 'Prototype'

Há tempos não tínhamos alguém que surgisse e desse uma bagunçada no cenário pop como Viktoria Modesta nessa semana. Ao lançar o clipe da faixa "Prototype", a cantora fez muita gente tremer na base - tanto que ela já tem haters prontos para tentar diminui-la gratuitamente.

Feito em parceira com o canal britânico Channel 4 como parte da campanha de inclusão social #BornRisky, o clipe do single traz uma elaborada e fascinante história: começa numa cena onde mostra a cantora num ritual de purificação. Ela, sentada num trono sob fundo celestial, tem a perna arrancada por sacerdotes num fluidez belíssima e ao mesmo tempo macabra - notem o sacerdote da esquerda segurando um machadinho coberto por sangue. A cena remete ao próprio processo passado por Modesta, que amputou a perna esquerda conscientemente em prol de sua saúde (falamos mais no It Pop Apresenta no começo da semana).


O tal ritual é o início dos planos da cantora no vídeo, que ficarão claros mais à frente. Então temos cenas intercaladas da história - com ela cantando os versos da canção em takes que seguem elegantemente o fator surpresa do todo: a prótese da perna da cantora - com as partes do tal plano.

Temos uma garotinha assistindo a um cartoon da Viktoria, um menino na escola riscando uma mesa e um cara fazendo uma tatuagem. O que eles têm em comum? Todos estão sob domínio da cantora. Ela começou uma massificação de sua imagem com intuito de controlar as pessoas, fazendo com que ela se torne um símbolo maior, uma líder ideológica.


A parte curiosa aqui é que ela fez quase o mesmo de verdade: seu vídeo já foi assistido quase 14 milhões de vezes em menos de uma semana e seu nome não saía da boca dos amantes do pop, criando quase instantaneamente uma onda de amor e ódio, de fascínio e repulsa (esta por parte dos cof cof fãs alienados que vimos aos montes cof).

O sistema então começa a entrar em colapso e o governo parte pra cima da cantora, querendo explicações. Numa cena genialmente produzida, Viktoria é levada pela polícia até um tribunal onde tem que responder a um interrogatório, com fotos de manifestações com símbolo da cantora e até um cara que cortou a própria perna. Tradução do mesmo: "Nosso sistema protege as pessoas, mas ao invés eles acreditam nisso. Eles acreditam num símbolo. Eles acreditam em você, Viktoria. Assuma a responsabilidade. Como você se declara?".


Ela então manhosamente coloca sua perna biônica nos lasers que a prendem para mostrar que sim, ela é culpada, e que sua perna é a responsável por tudo - novamente a arte imitando a vida, pois foi sua perna que fez todo mundo parar para notá-la.

Então começa a parte final do clipe: o balé com a perna-agulha. Como uma aranha, Modesta dança graciosamente com uma prótese pontiaguda feita de ferro (que ela disse que a surgiu em um sonho), numa cena tenebrosamente graciosa, com enquadramentos perfeitos e direção de áudio espetacular - é realmente lindo e assustador seus movimentos.


Além da técnica fenomenal, conceito poderoso e o elemento "x" da coisa - as próteses, o que o clipe de "Prototype" tem de mais? Viktoria pôs na mesa discussões interessantíssimas ao utilizar sua deficiência em prol da arte e da construção de sua própria imagem, criando conceitos criativos e visualmente belíssimos que põem em cheque o que é "bonito", conceito absurdamente volúvel que as pessoas amam colocar em caixinhas delimitadas, principalmente em tempo onde o cenário pop carece de alguém para dar uma bagunçada. Além do mais, as próprias próteses são arte pura, tanto em ideia como em execução/realização.

Nós vivemos em uma sociedade que demanda uma fábrica de pessoas perfeitas, e quando aparece alguém fora desse padrão impondo uma beleza destoante, estamos pulando a cerquinha do óbvio. O single é, de fato, uma música pop convencional, que difere em nada das fórmulas atuais com seu refrão robótico e grudento - apesar de os versos serem particularmente fortes com "Estamos brincando de deus, e essa é nossa hora, é nosso futuro", mas ele é mero coadjuvante no vídeo, tanto que está fatiado em alguns pedaços que não dão ideia do todo. Por quê? Porque o propósito do clipe não foi, em primeiro plano, divulgar a canção, e sim concretizar a imagem da cantora.

Muitos falaram que o vídeo não é uma revolução. E não é mesmo. Revolução é um processo a longo prazo, com efeitos profundos. A cantora pisou o pé - e a prótese - no mainstream há menos de uma semana, como poderia ela revolucionar um cenário gigante do dia pra noite? O que ela fez foi trincar o grande vidro do pop, nos fazendo virar o pescoço para ela e ver a pontinha de inovação que ela trouxe - pontinha essa que pode florescer e crescer, mas isso só o tempo dirá.

O clipe encerra-se na cena do tribunal, o que nos leva a crer que poderá ter uma continuação - assim esperamos, porém tememos algo: a cantora utilizou todas suas armas em "Prototype", então o que ela trará no próximo? Ao utilizar todo o conceito aqui não temos ideia do que pode vir de diferente no futuro, já que, se ela continuar com a mesma fórmula, cairá na redundância. Todavia isso não é discussão para agora, podemos ser novamente surpreendidos. Assista ao clipe de "Prototype":



Viktoria Modesta ainda não é uma diva. Ainda não é uma artista consolidada e ainda não alguém passível dos banais e gratuitos títulos de "rainha" e afins - ela é, como afirma repetitivamente no refrão do single, um protótipo, porém, orquestrou (sem modéstia) um dos melhores clipes de 2014, lançado aos 43 do segundo tempo só para nos deixar boquiabertos e com esperança de que sim, ainda há criatividade no mundo pop, ainda há formas de discutir valores e ideias num mercado tão banal e vazio. Que tenha mais disso no futuro, nós agradecemos.
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