Album Review: Calvin Harris tenta se manter dono do seu próprio movimento em 'Motion'!

Do magrelo geek à um dos símbolos sexuais masculinos da música mundial: a digievolução estética de Calvin Harris é notável (e louvável), mas nem só nesse aspecto o músico merece os devidos reconhecimentos. Quando se lançou no mundo com o quase desconhecido álbum "I Created Disco" aos 24 anos, o britânico mal poderia imaginar o sucesso estrondoso que viria a adquirir. Depois do debut, vieram o segundo e o terceiro álbuns, que deram o recado e mostraram que ele cresceu, amadureceu e se tornou um dos nomes mais respeitados da eletromusic atual.


Após ter se aliado à Rihanna para criar o hino eterno do eletropop "We Found Love", Harris atingiu seu ápice, apoiado por um material conciso que é o seu penúltimo disco, intitulado "18 Months". Naquela oportunidade, em meados de 2012, ele escancarou pro mundo que fazer música eletrônica de qualidade não passa de mera diversão pro DJ, que por onde vai, arrasta multidões com seus batidões insanos. Agora, em 2014, o cara retorna ao foco da atenção, buscando sua afirmação no cenário mundial com "Motion", novo álbum de trabalho do músico. Mas será que ele é tão bom quanto seu antecessor?! Tentaremos responder essa e mais questões a partir de agora.

1) "Faith"
Depois de pouco explorar seus vocais no antecessor "18 Months", Calvin Harris inicia seu novo trabalho em grande estilo. "Faith" é um grito de liberdade que o intérprete implora, com frases do tipo "Preciso de um pouco de espaço em minha mente / Preciso daquela esperança que não consigo encontrar / Preciso de um pouco, preciso de um pouco de fé / Isso é pedir demais?", acompanhadas por graduações que vão do eletropop melódico ao mais puro house em questão de segundos.

2) "Under Control (feat. Alesso & Hurts)"
Segura essa banger, Brasil! Em uma das parcerias mais certeiras do ano, Calvin se uniu à Alesso e Hurts para criar o (talvez) hino eletrônico do ano, até o momento. Envolvida por tons de epicidade, "Under Control" contrapõem a falta de paz vivida na primeira faixa do disco, mostrando uma certeza de que apesar dos problemas vividos, tudo está sob controle. A interpretação irretocável do duo Hurts em harmonia com as batidas sempre pontuais dos dois DJ's, evidentemente, é um dos melhores momentos do trabalho.


3) "Blame (feat. John Newman)"
Dando continuidade ao "movimento" proposto pelo nome do álbum, Clavin Harris convidou John Newman para dar vida à "Blame". Trazendo um novo conflito aos nossos ouvidos, a música conta a história de uma separação traumática, na qual Newman repete aos gritos que a culpa do rompimento não é dele. Quem nunca, amigo?! Só não entendemos, como também amamos incondicionalmente a faixa, e não aceitamos que ninguém nos culpe por isso!


4) "Love Now (feat. All About She)"
Toda a confusão de Harris continua na sua incessante saga em busca do amor verdadeiro em "Love Now". Conduzida por violinos e violoncelos que remetem ao melhor do Clean Bandit e interpretada pelo trio de novatos All About She, a faixa clama pelo "Quero amar agora / Eu quero sentir o peso desse coração que você carrega". Intercalando momentos de alívio e apreensão representados pelo modo como os vocais são conduzidos e o instrumental, que traz um ar de angústia se a hora de amar realmente chegou, a canção mostra o melhor de todo o romantismo outrora apresentado Calvin Harris em seu disco anterior.

5) "Slow Acid"
Cansado de tanto sofrimento, Calvin Harris declara seu cessar fogo em "Slow Acid". Na primeira faixa totalmente eletrônica bate-estaca do trabalho, o DJ explora os toques insanos dos mais alucinantes sintetizadores, sem a corriqueira interferência de vocais. Se essa foi uma das maiores reclamações dos amantes do electrohouse no último álbum, Calvin trata de agradar gregos e troianos na produção, exibindo o que de melhor sabe fazer: músicas de alta qualidade.


6) "Outside (feat. Ellie Goulding)"
Chegamos ao ápice do "Motion" na sexta faixa extraída do trabalho. Apresentando um ritmo cadenciado que vai ganhando forma aos poucos, Calvin Harris conta com o auxílio sempre impecável de Ellie Goulding no hit "Outside". Ao recitar quase que aos susurros os versos iniciais da faixa, a cantora nos envolve tão profundamente com sua leveza que, quando surge o refrão,  fica difícil não se surpreender com tamanha sintonia entre os dois, já evidenciada anteriormente por "I Need Your Love". Não é exagero algum pensar que, escolhida como terceiro single do disco, "Outside" é uma certeza do sucesso que parece estar só começando.


7) "It Was You"
Apostando novamente na eletrônica pura, "It Was You" é uma parceria bem sucedida de Calvin Harris e do duo eletrônico Firebeatz, que tem em seu histórico nomes como Pitbull, Flo Rida e James Blunt. A faixa ganha tons misteriosos que vão se confundindo à batidas cruas, servindo de bridge pro refrão totalmente insano criado para a colaboração. O problema da faixa é que toda essa fudelância termina inesperadamente, deixando aquele gostinho de quero mais.

8) "Summer"
O sucesso do carro-chefe de "Motion" tratou de constatar um fato: o povo não se esqueceu de Calvin Harris e o barulho estrondoso que havia feito com o antecessor "18 Months". Hit consolidado em todo o mundo, "Summer" rendeu execuções e execuções nas melhores e piores baladas espalhadas por esse planeta. E não poderia ser pra menos! Retornando com uma faixa solo, Harris arriscou toda sua notoriedade conquistada, principalmente, pela parceria com Rihanna em "We Found Love". Mas nada impediu que o DJ magya fosse deixado pra trás. Se entregando a um amor de verão, toda qualidade empregada com louvor em "Summer" incumbiu de confirmar Calvin Harris como um dos nomes mais importantes da música no cenário atual (e nós só podemos agradecer por isso).


9) "Overdrive"
Como (quase) todo álbum tem seu patinho feio, chegamos à ele na nona faixa do trabalho. Definitivamente, a escolha de incluir "Overdrive" à tracklist final do disco não é nada espetacular. Isto porque a música fica um pouco perdida ao que o álbum se propõe até o momento, apesar de Calvin Harris sempre fazer músicas para o mundo se acabar nas pistas sábado à noite. Pelo que se percebe, a faixa representa uma quebra do ritmo fazendo com que o ouvinte, ao se deparar com a sonoridade genérica da faixa, provavelmente aperte o "next" o mais rápido que puder. Nós o fizemos.

10) "Ecstasy (feat. Hurts)"
Retomando as rédeas da situação, "Ecstasy" mostra tudo que sua faixa antecessora não tem: coesão. Novamente os caras do Hurts aparecem, dessa vez, num cenário bem mais favorável à sonoridade proposta pelo duo. Em tom de melancolia, a música é acompanhada por um instrumental pouco elaborado, mas que se encaixa perfeitamente ao refrão: "Em estado de êxatse / O lugar no qual fomos feitos para estar / Em estado de êxatse / Onde há apenas eu e você". Mais uma balada eletrônica de qualidade para os amantes de músicas cruas e profundas.

11) "Pray to God (feat. HAIM)"
Ao nos depararmos com a tracklist do álbum, ficamos imensamente felizes com a parceria presente em "Pray to God". Não é novidade alguma pros blogueiros deste site o que as meninas do HAIM são capazes de fazer, mas estar no disco de um DJ totalmente mainstream seria talvez um dos maiores desafios das garotas. E, como esperado, não nos decepcionaram em nada! Como em uma missa sagrada, a faixa representa as preces de uma alma perdida em seus próprios lamentos amorosos: "Perdi o sentimento, mas tento aguentar firme / Achei que fosse o fim, menos do amor e o que te faz forte / Eu rezo a Deus e eu simplesmente não sei mais". Daí nos deparamos, novamente, com uma das melhores escolhas do álbum.

12) "Open Wide (feat. Big Sean)"
Repetindo a fórmula bem sucedida do último disco, que teve "Drinking from the Bottle" ao lado de Tinie Tempah como um dos grandes hits, Calvin Harris conta com um novo rapper para dar vida à "Open Wide". Dessa vez auxiliado por Big Sean, o DJ utiliza o instrumental da anteriormente lançada "C.U.B.A" mesclado aos versos pontualmente recitados pelo rapper, sem o compromisso de mostrar nenhuma linearidade em toda sua extensão, o que é espetacular! Eis aqui uma daquelas pra se jogar no chão e começar a ralar a alma até perder a dignidade. Ponto.


13) "Together (feat. Gwen Stefani)"
A expectativa depositada em "Together" era do tamanho da Mariah nos seus tempos de Aguilera. Também pudera! Não podemos esperar menos do que algo extraordinário quando se tem Gwen Stefani nos vocais da faixa, certo?! Apesar disso, a sensação predominante é que a maioria das pessoas não ficou tããão satisfeita assim com o resultado. Mas por quê? Explico: "Together" não é daquelas faixas que grudam na sua cabeça desde a primeira audição, o que não significa que não tenha qualidade. Muito pelo contrário! Em versos entoados com maestria pela "coroa", o refrão é um convite mais que indecente pra uma noite perfeita de puro amor: "We're gonna wake up together / You won't wanna go home / We'll find love here, forever / 'Cause we'll wake up together". E o batidão já diz o resto pra gente.


14) "Burnin (feat. R3hab)"
Parece que Calvin Harris quis, propositadamente, fazer uma miscelânea de conteúdos no seu "Motion". Investindo novamente na eletrônica propriamente dita, o cara deu um jeito de encaixar  a faixa "Burnin", produzida ao lado do DJ R3hab, lááá no finalzinho do álbum. E isso ficou bom? Olha, algo que poderia ser isoladamente lançado na loja Beatport (pra quem não sabe, é um tipo de Hot 100 exclusivo das músicas bate-estaca), acaba ficando meio perdido à tantas faixas puxadas pra um pop mais radiofônico, tomando o mesmo caminho de "Slow Acid" e "Overdrive". Infelizmente.

15) "Dollar Signs (feat. Tinashe)"
Por último, mas não menos importante, surge dos céus divinos aquela faixa que deixou a gente com a boca caidinha de amores. Como vocês já devem saber, o mundo está tendo a oportunidade de conhecer a cantora novata Tinashe, (que inclusive lançou seu debut há algumas semanas e nós dissecamos o álbum todinho na nossa review). E nós, como bons descobridores de talentos, já sabíamos há algum tempo do potencial da menina. Mas aí vem a surpresa! Como reagiria uma moça do R&B numa faixa onde a peruca voa à 50 metros de altura no refrão?! Não conseguimos expressar, só sentir. "Dollar Signs" é uma surra de bunda que começa numa zona de conforto e vai nos levando pra um caminho que não tem volta, tomando tons de epicidade. Não conseguimos parar de gritar até este exato momento. Valeu pelo álbum todo, fecha o caixão e amém!


CONCLUSÃO: Após toda essa análise elaboradíssima, precisamos voltar ao começo desse post, oportunidade na qual eu havia feito o questionamento se o "Motion" teria capacidade de superar toda a qualidade indiscutível do antecessor "18 Months". Na modesta opinião desse blogueiro: não. Alternando ótimos momentos e outros nem tão interessantes, o novo trabalho de Calvin Harris peca na coesão das suas faixas, ao passo que o ouvinte se depara com algumas derrapadas no meio do caminho. Isso, como dito acima, se deve ao fato de Harris querer agradar a todos, mesclando faixas que flertam com o pop e outras que exploram a veia iminentemente eletrônica do músico. Apesar disso, em uma análise estritamente individual, Calvin prova novamente a facilidade em produzir músicas que grudam na mente em questão de segundos, o que a gente agradece imensamente e pede bis.
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