Review: Justin Timberlake congela o tempo em "The 20/20 Experience"

By | terça-feira, 19 de março de 2013

Desde o sumiço de Justin Timberlake nas rádios, em 2007, muitas coisas aconteceram. Entre elas, é válido citar a morte de Michael Jackson, a aceitação de um outro Justin e a decadência do R&B, que se tornou um gênero cada vez mais genérico e, aos poucos, cedeu lugar para as músicas dançantes nas rádios. Desde então, não importava mais o que um artista cantava, ele precisava incluir algo que as rádios pudessem tocar e, da mesma forma que o R&B decaiu, a qualidade desses lançamentos ficava cada vez mais baixa. Claro, alguns nomes são exceções, como Beyoncé, mas não é exatamente neste ponto que quero chegar.


Após quase seis anos de seu último lançamento, “Futuresex/Lovesounds”, Justin Timberlake voltou para o jogo neste ano e o choque foi inevitável por três motivos, sendo eles:

1) Em que ano ele pensa que está?

2) Meu Deus, isso soa tão datado, mas tão atual!

3) JUSTIN TIMBERLAKE TÁ DE VOLTA11!!

É como se Timberlake tivesse passado todos esses anos na geladeira, literalmente, e alguém por acidente acabou abrindo a porta. Aí ele foi para um estúdio, gravou um CD e mostrou ao mundo, continuando exatamente de onde parou em 2007, como se nunca tivesse existido o fiasco dos últimos lançamentos do Usher, a redenção dance do Ne-Yo e até mesmo a overdose Calvin-Harriana. Escutar o “The 20/20 Experience” esperando por algo aos moldes das rádios atuais é perder tempo — não tem absolutamente nada disso lá —, mas o disco é uma ótima forma de fugir de toda essa mesmice ~mainstream~ que temos escutado nos últimos meses e o mais curioso nisso tudo: as músicas se assemelham a qualquer coisa, menos àquelas músicas quais alguns artistas lançaram, tentando se assemelhar ao som de Timberlake. Ficou confuso? Tudo bem, explicamos melhor. Confira nossa resenha faixa-à-faixa do “The 20/20 Experience”, novo álbum do Justin Timberlake (como é bom dizer isso, você não faz ideia):

1) “Pusher Love Girl”

De início, já temos uma boa prova de que o tempo não foi algo que afetou Justin. “Pusher Love Girl” pode dar uma passeada pelos outros álbuns do cantor quando quiser e sem medo de ser feliz. A faixa traz não só a letra sobre amor, que em momentos pode soar um tanto piegas, como também os característicos falsetes de Timberlake e a primeira apresentação de algo que escutaremos durante todo o disco: prelúdios que parecem durar uma vida. Para abrir o álbum, funciona bem.

2) “Suit & Tie (feat. Jay-Z)”

Em contrapartida às oito participações especiais do “Futuresex/Lovesounds”, o novo disco do Timberlake conta com uma única colaboração, que é essa faixa com o Jay-Z. Agora que podemos escutar o álbum na íntegra, é possível afirmar que essa está longe de ser uma das melhores canções do álbum, mas tem algo mais digno que terno e gravata para um retorno formal?

3) “Don’t Hold The Wall”

Timbaland, parceiro inseparável de Justin, marca presença durante todo o “The 20/20 Experience”, mas é em “Don’t Hold The Wall” que temos sua primeira aparição notável. A faixa tem todo um clima ~indiano meets tribal~, com Timbaland soltando algumas palavras num vocal alterado, enquanto Justin traz a parte sexy, pedindo pra que você dance e não se encoste na parede — mesmo com você acreditando, em certos momentos, que na verdade está numa floresta à la “Where Have You Been” da Rihanna. Caso pensem na ideia, dizer “não” está fora de cogitação.

4) “Strawberry Bubblegum”

Nos primeiros segundos de “Strawberry Bubblegum”, podemos fechar os olhos e acreditar que estamos numa cena de um filme antigo. No caso, essa cena incluiria uma festa com muitos casais, e claro, com mulheres vestindo longos vestidos e homens em seus tradicionais ternos. Após seus 4 minutos e 50 segundos, a música tem tudo pra chegar ao fim, mas ainda temos um filler que poderia facilmente ter saído do repertório de artistas como o brasileiro Sérgio Mendes. Não é ruim, mas um tanto desnecessário. Na dúvida, “Bubblegum Bitch” da Marina & The Diamonds continua sendo a melhor música lançada nos últimos seis anos com “chiclete” no título.

5) “Tunnel Vision” 

 

Pense em um meio termo entre “My Love”, “Cry Me A River” e “Ayo Technology”, *BOOOM* eis aqui “Tunnel Vision”. Demoramos um pouco pra chegar nesta conclusão, mas essa deve ser a música de mais fácil digestão em todo o disco. Com Timbaland ganhando espaço para suas intervenções outra vez, a faixa é acompanhada do início ao fim por um “I know you lie”, enquanto Timberlake mostra que não perdeu a prática com os refrões. Nada que já não tenhamos escutado antes, mas é a coisa mais legal que encontramos por aqui.

6) “Spaceship Coup”

Além de influenciar muita gente, Justin Timberlake também tem suas influências e uma delas fica bem clara em “Spaceship Coup”. Estamos falando do Prince, que encontra um lugarzinho pra se acomodar na nave espacial de Timberlake, mesmo com ele afirmando que só há lugar para dois. Como dissemos inicialmente, todo esse romantismo já soa um tanto piegas por aqui, mas vambora fazenu.

7) “That Girl”

Com menos de cinco minutos, “That Girl” é, além da canção mais curta do álbum, a mais descompromissada. Timbaland faz uma introdução um tanto inusitada, apresentando Justin & The Tennesee Kids, como naqueles programas de TV/rádio, aí JT entra em ação e faz o que sabe fazer. Aqui ele está tão apaixonado por aquela garota, que nem se importa em fazer rimas baratas com “baby” e “lady”.

8) “Let The Groove In”

Gente, bateu aquela saudade do Michael Jackson. Assim como Prince, o Rei do Pop também marca presença no “The 20/20 Experience”, ao menos em espírito, e ela acontece nesta faixa. “Let The Groove In” é a música mais agitada do disco e nela, sob batidas à la “Off The Wall”, tudo o que Justin quer é fazer você entrar no clima e não ficar parado. A sequência da tracklist é algo muito bem pensado e depois de derramar amor em faixas maiores que o nariz de Lady Gaga, ele coloca algo dançante justamente após a música mais curta do álbum, antecedendo ainda a segunda melhor música do CD. É meio que pra não sair com a coisa toda parecendo chata, sabe?

9) “Mirrors”

Assim como “Tunnel Vision”, a baladinha “Mirrors” é uma das coisas mais legais desse álbum. Com exceção de “Don’t Hold The Wall” e “Let The Groove In”, a canção se destaca entre tantas outras parecidinhas e faz um perfeito contraste com “Cry Me A River”, segundo single do álbum de estreia do cara. Mas aqui ainda temos um porém: desta vez ele não está com o coração partido (por Britney Spears) e sim bem satisfeito em ter encontrado a metade da sua laranja — que reflete exatamente o que ele é, como um espelho. Amável.

10) “Blue Ocean Floor”

Após sair da geladeira, talvez Timberlake tenha escutado rapidamente algo da Lana Del Rey ou Frank Ocean, aí ganhou inspiração para esse inesperado fim. Depois de tanto amor, tanta coisa vintage e até o fim quase feliz — proposto pela canção curta, a outra agitada e a que revisita um de seus relacionamentos mais marcantes, só pra dizer que agora ele já superou o conjunto jeans — “Blue Ocean Floor” não caminha pra lugar nenhum, apenas afundando com uma boa dose de melancolia (e Rivotril). Não parece, mas a música também é obra do Timbaland, e de uma forma bem experimental, deixando o instrumental em terceiro plano — onde o primeiro é a voz e o segundo a emoção. Um tanto dramático demais para o resto do álbum, mas incrivelmente boa.

 

Resumindo:
o tempo não passou para Justin Timberlake e isso é ótimo para aqueles que ainda pensavam em seu último álbum como “os bons tempos” da música pop. Tem uma rima barata aqui e ali, assim como certos exageros, mas no fim tudo se resume à uma produção impecável, provável fruto de um bom tempo dedicado aos estúdios. A falta de novidades pode afetar alguns de forma negativa, mas em geral isso funciona com artistas que não saem lançando álbuns novos anualmente. É muito bom saber que ainda existem nomes como ele, que sabem colocar a qualidade de seus trabalhos na frente de qualquer moda que esteja nas paradas, e melhor ainda é ver as próprias paradas se rendendo a isso — ao menos desta vez, pois o “4” da Beyoncé não teve toda essa sorte. Agora vamos ver se o
“The 20/20 Experience” consegue nos manter satisfeitos por mais seis anos.

Pra testar: “Pusher Love Girl”, “Spaceship Coup” e “Tunnel Vision”.